Exercícios de estilo

o oblíquo Queneau

Raymond Queneau foi um dos confundadores do OuLiPo, Ouvroir de Littérature Pottentiele, de que participaram também Italo Calvino e George Perec.  Patrono de todas as oficinas literárias provocativas do planeta, o OuLiPo foi definido por ele como “uma busca incessante de novas formas estruturas e padrões narrativos para que os escritores se divirtam”. Daí a aproximação da literatura com o acaso, os jogos, o I-Ching, o tarô, jogos retóricos do período alexandrino, formas poéticas dos trovadores provençais, técnicas lógico-matemáticas e formas rigorosas que “desnaturalizassem” a escrita em busca de uma verdade nova.

Editor, poeta, dramaturgo, tradutor e autor de mais de 40 livros, entre eles Zazie no metrô, que foi adaptado ao cinema por Louis Malle, Queneau era também matemático, então adorava a literatura como jogo cerebral. Escreveu um livro chamado Cem Mil Bilhões de Poemas, 10 sonetos cujos 14 versos podem ser associados livremente, em 10 à potência 14. Próximo ao grupo original surrealista, brigou com eles após seu cunhado André Breton apoiar o stalinismo. Mas nunca perdeu o amor pelo nonsense, pelo bizarro e pelo lúdico. Sempre mais ligado às ciências e à psicanálise, levou o formalismo russo e o estruturalismo francês para dentro da criação literária. Seus interlocutores mais frequentes eram Georges Bataille e Michel Leiris.

O livro mais famoso de Queneau são os Exercícios de Estilo – obra inspirada nas fugas de Bach e em suas infinitas variações sobre o mesmo tema – em que ele demonstra como é possível narrar a mesma história besta em 99 formas totalmente diferentes:

PROPOSTA

Bem… é isso o que você vai fazer. Ou melhor, quase isso.

Você vai pegar uma das situações abaixo e reescrevê-la duas, três, quatro, cinco ou mais vezes através de variados pontos de vista.

Tente contar a situação de modo simples, direto e original.

Todas as situações foram pensadas sob o contexto do CHOQUE, ou seja, uma dinâmica que leva em consideração a violência, a intolerância, a falta de empatia e a cegueira em relação ao outro.

A cada reescritura, a linguagem também deverá ser totalmente diferente.

Totalmente diferente também deverá ser o foco narrativo.

Diferente será a voz narradora: na primeira, na segunda, na terceira pessoa, discurso indireto livre, discurso direto etc.

Bem como a forma: carta, cena, sequência, diálogo, fábula, receita de bolo, anúncio publicitário, matéria jornalística, resenha de livro ou de espetáculo, roteiro de cinema ou quadrinhos, etc etc etc.

Porém, em todas as variações será contada sempre a mesma história.

O que aconteceu:

  • Você quase foi atropelado(a);
  • Você cometeu um crime sem querer;
  • Você maltratou alguém em um restaurante;
  • Você percebe que foi roubado em uma transação;
  • Você foi ajudar uma pessoa e acabou a agredindo;
  • Você foi mal-interpretado em uma festa e apanhou;
  • Você foi despedido por culpa de um erro de outrem;
  • Você tentou ser fofo com um bichinho e se deu mal;
  • Você tretou com o porteiro por causa de um engano (dele ou seu)
  • Você caprichou em um trabalho mas ele teve um retorno inesperado;
  • Você foi para a cama com alguém e acabou fazendo algo que não queria.

Todas as situações escritas juntas – tantas quantas você conseguir fazer – devem ter no máximo 8 mil toques.

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