Libera aê!

por Américo Paim

É noite, perto das nove horas. Na pequeníssima casa, a família está reunida para comer. Em volta da mesa apertada estão o pai, a mãe, o pai dela, o filho e sua prima.

– De novo macarrão, véi? – fala o filho, com um muxoxo.

– Pode ficar sem comer também – responde o pai.

– Ei, vocês dois! Já tá tudo tão difícil – apela a mãe.

– Amanhã vai ser isso outra vez? – o avô pergunta.

– Ué, e tem pra amanhã? – o pai diz. Você comprou, por acaso?

– Já acabou tudo? Ai, meu Deus! – a prima, aflita.

– Que porra é essa, não tinha três pacotes? – grita o filho.

– No meu tempo eu ganhava era uma broca se falasse assim! –diz o avô e olha o filho e o pai.

– Por favor, vamos comer em paz? – pede a mãe.

O pai trabalha aqui e ali em um condomínio, no serviço de limpeza e arrumação.

– E aí, pai, pegou uma grana hoje?

– Teve um problema lá….

– Como assim, homem? – a mãe.

– Seu Marcos veio com uma conversa de crise, que eu já tô com quase 50…

– Hum… – o avô.

– Falou que tá pegando e que não pode pagar o tanto de antes.

– Gogó de barão, véi. Condomínio rico da porra daquele…

– Olha como fala com seu pai! Qual foi o caso?

– Tem um rapaz novinho lá, da idade de vocês dois, uns vinte e poucos, fazendo o serviço todo por R$60. Ainda lava os carros e passeia com aquela desgraça de cachorro que vive me mordendo…

– Que fidiputa… – o filho fala, rindo.

– Lave a boca! Devia era ajudar seu pai no serviço!

– Aonde, mãe… Né pra mim, não… Quem vai é o coelho!

– Ela tá certa. Já passou da hora de pegar no pesado…

– Qualé, vô. Tô em outro esquema.

– E aí, o que vai fazer? – a mãe para o pai.

– Hoje ele já fez. Bebeu de novo pra aumentar a pança… – diz o avô.

– Gastou com cachaça? – a mãe.

– Eu trouxe pão e café, não foi? É o que?

– Ela não é burra, homem.

– Melhor que ser “come e dorme” feito uns e outros…

– Você me respeite! Tenho 65 e sou doente das juntas!

– É nada…

– Para! Para! O que você vai fazer?

– Eu já fiz o serviço por R$60. E é sem café e sem almoço.

– Eita disgraça… – diz o filho.

O filho finge trabalhar na borracharia do Grilo. Está é de olho em outras opções.

– Em vez de falar merda, cadê o dinheiro? – o pai para o filho.

– Peraí, chefia, pega leve…

– Vou lhe mostrar com quantos paus se faz uma canoa…

– Calma, pelo amor de Deus! A comida já é pouca! Assim vai fazer mal! – a mãe.

– O coroa tá abafado…

– Sim, mas ele perguntou: cadê seu dinheiro?

– Hoje não rolou foi nada, mãe…

– Nada de trabalho, né? Mas outras coisas… – a prima.

– É o que, rapaz, se feche.

– Que conversa é essa? – a mãe.

– Ele tava de papo com Galo Velho. Eu vi quando passei lá perto de Grilo.

– Galo Velho? O filho do nó cego do Zé Pereba? Aquilo não vale o cocô do cachorro – diz o pai.

– Que palavra é essa na hora de comer? – reclama a mãe.

– Foi mal…

– Ele é meu amigo, pai…

– Ele é dono da boca, isso sim – a prima.

– Você tá se metendo nessa merda, seu porra? – o pai.

– Perái, véi… Que aperto de mente é esse? O cara me deu a ideia sobre um serviço aí.

– Que tipo de serviço?

– Uma parada de grana alta, mãe. Tudo na legalidade…

– Ah, sim…

– A vadia tá se achando hoje…

– Olha como fala comigo, seu sacana!

– Que trabalho é esse?

– É pra dirigir o carro dele uns dias, mãe. Tem que ver a máquina que ele apareceu lá hoje. E com uma gostosa…

– Vai deixar ele falar assim? – o avô para o pai.

– É dinheiro muito?

– Oxe, coroa, mais do que você faz em seis meses no condomínio de rico, papá, e ainda dá um rango bom…

– Isso não deve ser coisa boa… – diz o avô para a mãe.

– E bom é o que? Acabar que nem você, todo pôde, largado na cama? Tô fora…

– Não tem respeito? Dobre essa língua!

Ficam em silêncio um pouco. Ouve-se só talheres, mas isso não demora, pois é pouca comida.   

A mãe não tem trabalho fixo. Sai atrás de bico nas redondezas, qualquer coisa.

– Não consegui muito hoje – ela quebra o gelo.

– Andou muito, filha? Lembre de sua asma. Já passou dos 40, não é mais menina.

– Fui em Dona Marilda, mas não apareceu nada, nenhuma entrega, nem aqui perto.

– A velha safada só tira seu couro, mãe.

– Não fale assim. Ela me ajudou muito quando você era pequeno. Não sou ingrata.

– Arrumou dinheiro? – volta o avô.

– Ajudei Seu Tenório no restaurante. Me deu um prato de comida, um pacote de arroz e dois de biscoito. Mas dinheiro que é bom…

– Outro mizeravão explorador…

– Cala a boca! Você trouxe algum? – o pai para o filho. Mas nêga, só vi você chegar com o arroz. E o biscoito, cadê?

– Fala, filha! Roubaram?

– Não, calma! Eu vou contar. No caminho pra cá tinha uma mulher nova, magra, fraca, sentada no chão sujo, na esmola, com dois moleques e mais um no colo. Não aguentei e dei os biscoitos. Ela tá pior que nós.

– Mas minha filha, não dá pra fazer caridade assim.

– Painho, se o senhor visse…

O avô fica em casa o dia todo. Apesar de doente, se faz de coitadinho e não é bobo.

– Eu sei que fez de coração, filha, mas é que…

– Eu não vou ficar aqui quieta ouvindo essa conversa aí. Ela ajudou a criatura e o senhor ainda reclama? – interrompe a prima.

– Como é?

– É só o senhor parar de esconder comida que vai sobrar.

– É o que, menina?

– É isso mesmo! Eu vi quando ele tirou biscoito daquela mala velha que não deixa ninguém mexer e comeu um monte. No outro dia o pau quebrou aqui porque sumiu um pacote. Foi ele, sim!

– Ói a vadia, véi…– fala o filho.

– Vai tomar no seu…

– Epa! Parou! Que é isso? – corta o pai. Mais respeito aqui na minha casa!

– Sua casa? Quem pagou isso aqui fui eu! – fala o avô.

– Foi um empréstimo. Eu vou pagar.

– Ainda bem que tô sentado pra não cansar…

– Meu Jesus, dá pra parar? – pede a mãe. E seu trabalho, minha filha?

A prima finge trabalhar no outro lado da cidade, mas já está ficando difícil esconder.

– Hein? Ah, tá tudo bem…

– Quando vai ter dinheiro?

– Hum, no fim do mês.

– É ruim – o filho, rindo alto. Trabalho? Tô ligado no que ela tá fazendo… Anda é toda apertadinha atrás de Severino, aquele da padaria. Pega o cara e nem traz um negocinho pra cá, um sonho, uma banana real…

– Que mentira, seu desgraçado!

– Minha filha, ele é casado!

– Não, tia, tá separando, ele me disse! E a gente não teve nada.

– Eu não lhe criei pra virar mulher da vida! – fala o pai.

– Bem que eu desconfiava – o avô atiça.

– Eu não fiz nada, juro! Ele tá mentindo – fala já chorando.

– Deixe de putaria, rapaz… Não sei onde arruma o bambá, mas gasta com perfume e teste de gravidez que eu tô sabendo! Juruna da farmácia é meu peixe, véi. Ele me contou. Vai negar, fia?

– Que porra é essa? – o pai.

– É verdade?

– Eu só queria matar a dúvida, tia. Meu sangue ainda não desceu. Tô grávida não, vai dar tudo certo. E não tem nada a ver com Severino. Você devia era cuidar da sua vida na boca de fumo! – grita ela.

– Melhor que meter a boca…

– Epa! – o pai lhe dá um tapa.

– Só tô falando…

– Se não é Severino, quem é? – indaga o pai.

– Vamos parar? Depois me entendo com ela. É melhor dormir que amanhã tem mais.

– Mas ainda tô com fome, mãe. Foi pouco macarrão, na moral.

– A comida que chegou é para amanhã, já disse.

– Qualé, vô, libera o biscoitinho da mala aê, papá!

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