LUZ DA VELA

Silvia Argenta

O galo da vizinha canta e acorda Boris. No impulso, ele, ainda deitado, leva a mão ao interruptor para poder enxergar o caminho da cama até a porta, mas o quarto continua escuro. Só então se lembra de que não pagou a conta de luz para poder bancar as passagens de ônibus do filho enquanto ele não recebe o vale-transporte. No mês que vem, a situação estará melhor e ele pagará a dívida. Ainda é madrugada, e toda a família se levanta ao mesmo tempo. Precisam se agilizar para chegarem ao ponto de ônibus assim que o sol nascer.

Boris se senta na cama, pega a caixa de fósforo na gaveta da mesa de cabeceira, acende a vela e a carrega para o banheiro. O primeiro desafio do dia é o espelho. Nota os sulcos na pele seca e queimada do rosto. Como não tem muito tempo para ficar analisando a própria imagem, pega a gilete de cima da pia e tira a barba que cresceu durante a noite. Em poucos minutos, grita para a esposa Lucinda que o banheiro, único da casa, está liberado.

Ela está de camisola na cozinha preparando a merenda de toda a família. Ao mesmo tempo em que esquenta na panela o arroz e feijão preparados na noite anterior, passa o café no filtro. Tenta fazer tudo o mais rápido possível para não gastar o gás, que deve durar mais uma semana. O restante da comida já está organizado em cima da mesa. Assim que Boris a chama, ela separa três sacolas plásticas, as pendura no encosto de uma das cadeiras e vai até o banheiro.

O filho Nino, que trocava de roupa no seu quarto e já havia ido ao banheiro antes do seu pai, vai então para a cozinha e começa a montar as marmitas. Pega o café preto e forte do bule e o despeja em três pequenas térmicas. Divide o arroz com feijão da panela em três potes de plástico, separando uma pequena porção num pires de cerâmica desgastado. Depois, abre as sacolas e em cada uma coloca a térmica, o pote plástico, um pão de trigo com uma fatia de mortadela enrolado num guardanapo, uma banana por cima e uma colher. Joga no lixo a parte de cima do cacho de banana, que acabou. Fecha as sacolas com um nó e as deixa na mesa. Enquanto os pais ainda estão se arrumando, coloca na calçada o pires com a comida para que o vira-lata da rua se alimente assim que passar por ali.

Quando volta para a cozinha, encontra os pais já prontos para sair. Mal se falam. Boris pega a sua sacola e guarda numa pequena bolsa preta que usava para carregar as chuteiras, Lucinda coloca a sua marmita dentro de uma sacola de papelão da Fashion Point e Nino põe sua comida dentro da mochila que leva nas costas. Nenhum dos três tem tempo para se sentar à mesa e comer pela manhã. No caminho para o centro, se tiverem sorte de não pegar o ônibus lotado, conseguem dar um gole no café, mas só vão conseguir se alimentar durante o intervalo no trabalho, no meio da manhã.

Os locais de trabalho são próximos, então já é rotina pegarem o mesmo ônibus todos os dias. Dos três, o que precisa estar com a aparência impecável é Boris. Ele é garçom e serve café para os juízes do fórum. Precisa se vestir como eles. Camisa branca, gravata, paletó, calça social e sapato lustrado. Aliás, lustradíssimo. Mania de juiz é sempre reparar nos pés das pessoas. Como sai arrumado de casa, Boris já vai preparado caso aconteça algum imprevisto. Se pega um ônibus cheio e sua muito, tem o desodorante na bolsa para ajudá-lo. Caso perceba no trabalho que está com as unhas por fazer, carrega também um cortador. Assim que chega ao fórum, já vai direto para a copa preparar a bandeja. Apesar da fome por não ter tido tempo para comer, fica às voltas com xícaras, pires, colherinhas, adoçante e açúcar. Precisa ter mãos firmes para servir o café, leite e bolachas para os juízes e assessores e pernas resistentes para aguentar o dia todo em pé. Mesmo trabalhando bastante, raramente consegue receber um salário mínimo porque a empresa terceirizada sempre dá um jeito de descontar alguma coisa. Há dois meses, estava a ponto de ser despejado da casa por não conseguir pagar o aluguel, apesar de morar numa comunidade longe do centro.

Duas semanas atrás, ouviu sobre uma vaga para assistente no cartório do fórum. Foi atrás do chefe e indicou o filho, que foi aceito para um período de experiência. Nino trabalha meio período e vai receber meio salário mínimo, o que significa mais uma ajuda nas contas da casa. O uniforme dele é mais casual. Só precisa vestir uma camiseta cinza com a logo da empresa: Liderança. Passa a manhã carimbando papéis em pilhas e pilhas de processos com incontáveis volumes cada. Tudo o que ele precisa fazer é pegar o processo, abrir a capa, dar a carimbada no alto do papel, escrever o número da folha, virar a página, carimbar, escrever, virar, carimbar, escrever, virar. Para ajudar, volta e meia umedece a ponta do indicador direito no molha-dedo, já seco de tanto virar páginas. Se pula uma folha, precisa encontrar onde errou e numerar de novo a partir dali. Com meio mês de trabalho, o jovem magro e alto já pegou o jeito e, com a coluna curvada e a barriga roncando, faz o serviço ao som rápido e seco das batidas do carimbo no papel. Somente no intervalo, consegue abocanhar o pão com mortadela. Quando termina o expediente, vai até a praça e almoça sozinho. Normalmente tem azar porque só consegue se sentar nos bancos sem sombra. Terminado o feijão com arroz, corre para a aula de técnico em logística no Senac. Ele deixa a banana e o café por último caso sinta fome até ir para casa no final da tarde.

Lucinda também conseguiu o emprego há pouco tempo. Com a pandemia, o laboratório de análises clínicas ao lado do fórum precisou contratar uma faxineira só para limpar as cadeiras dos clientes assim que terminam de ser atendidos. Apesar de trabalhar há apenas cinco meses, as palmas das mãos estão ressecadas de tanto que passa álcool em gel com o pano. São trinta guichês com grande rotatividade. O movimento é mais intenso logo cedo. Precisa estar sempre atenta no painel onde chamam as pessoas pela senha para que, assim que a cadeira seja desocupada, ir até lá e dar uma sprayzada antes que o próximo cliente chegue. No meio da manhã, uma senhora madame loira emperiquitada chama Lucinda assim que levanta de uma das cadeiras e pede que a faxineira espirre álcool na bunda dela para evitar contaminação. Incrédula, aciona o spray para se livrar logo da pessoa. Enquanto Lucinda está no saguão, deixa o celular carregando na sala de repouso para que possa usá-lo de noite em caso de alguma emergência. Só consegue voltar lá no final da manhã, quando a circulação de pessoas diminui. São onze horas quando verifica se ainda tem crédito no celular e, já tonta de dor de cabeça, dá a primeira mordida no pão com mortadela.

De noite, os três se encontram em casa. Mal se olham. Boris lava a louça e Nino recolhe o pires vazio da calçada. Lucinda checa se tem algo no armário para cozinhar para o almoço do dia seguinte e vai até o fogão fazer macarrão com molho de tomate. Os pais só serão pagos na semana que vem, então enquanto o filho não receber seu meio salário a família continua sem janta. Para não ficarem com o estômago vazio, comem três bolachas de água e sal cada e guardam o restante. Sem luz, não têm nem novela para distrair e vão cedo para a cama. No outro dia, o galo da vizinha canta no mesmo horário e Boris olha de novo, com a luz da vela, os sulcos do seu rosto no espelho do banheiro.

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