Silvia Argenta
SOCORRO
O barulho alto da sirene me deixou irritada. Só então me dei conta de que mal conseguia respirar. Olhei para baixo e percebi a camiseta toda rasgada. Minha barriga ardia demais. Deve ter se estropiado quando fui arrastando no asfalto quente de verão. Alguém desligou a sirene e logo o socorrista tirou meu capacete rachado, me virou de barriga para cima e me colocou na maca. Pegou uma pequena lanterna e mirou no meu olho direito. Com a pupila dilatada, me lembrei do tamanho da fome e do plano de jantar a lasanha que sobrou do domingo. Perguntou meu nome. Com a boca seca e sem muito controle, respondi: Aivlis. O socorrista mirou a lanterna no meu olho esquerdo e eu disse: oreuq ri arp asac. Eu não entendia para que tanto cuidado, já que estava tão perto de casa. Então, minha cabeça rebobinou tudo e me veio a imagem dos dois olhos pretos me encarando antes de tudo acontecer. Não sei de onde ele veio. Freei a moto, mas não deu tempo. Bati com tudo no seu corpo e fui arremessada, chocando a cabeça e o braço direito no chão. Estatelada de bruços no asfalto, vi uma idosa na calçada com a boca aberta, me olhando com cara de abismada, e escutei a voz de um homem que pedia para eu não me mover. Obediente como sou, apoiei minhas mãos no chão e curvei a coluna para trás para tentar me levantar, só que não deu certo. Ele voltou até mim, colocou a mão dele nas minhas costas e mandou: não se mexa! Dessa vez, acatei a ordem. A idosa chegou perto, se ajoelhou e perguntou o que ela poderia fazer para me ajudar. Pedi para ela levantar a viseira do capacete e abaixar minha camiseta. Apesar de conseguir respirar melhor, o cheiro do asfalto me consumiu. Misto de piche, mijo de cachorro, pneu queimado. Sei nem dizer em que momento não aguentei e desmaiei. Já desperta, vi o socorrista chamando o colega. Os dois colocaram um colar cervical no meu pescoço, amarraram algumas fitas no meu corpo para eu não cair e arrastaram a maca para perto da ambulância. Sem o capacete e longe do chão, voltei a respirar normalmente. Nem ofegante estava mais, mesmo imobilizada. No pequeno trecho até o veículo, percebi que a rua estava parada com filas de carros nos dois sentidos, só esperando terminar meu atendimento. Na parte de trás da ambulância, bem no momento de recolher as pernas da maca para colocá-la para dentro, vi meu reflexo no vidro da porta, que abria para cima. Notei os pés descalços, a calça jeans suja e a camiseta branca encharcada de sangue. Mexi o braço para me desvencilhar da fita e consegui alcançar a barriga com a mão. Senti a gosma líquida que saía de mim se espalhando pela palma e escorrendo pelo braço. Bastou mexer os dedos para que o cheiro adocicado e nada agradável impregnasse o veículo. Assim que empurraram a maca para dentro, fiquei enjoada e desmaiei de novo. Antes, porém, consegui dizer: orrocos!
AVIÃOZINHO
Câmbio! Era nosso aviãozinho, feio. Foi ali, bem perto da entrada do Morro do Horácio. O fariseu devia estar indo para boca, tava com os bagulhos pendurados no pescoço, atravessou a rua e cataploft. Se escafedeu. A moto passou por cima e ninguém sabe para que lado foi. Até puxei o berro quando ouvi o barulho! Eu tava desarvorado fazendo uns corres aqui e o meganha que me deu a letra porque a rua parou. Fiquei bolado. Agora vamos fazer o quê? Dar uma geral no mangue? Por mim, nada disso. Só vai levantar a lebre e alguém pode caguetar. O lance é esquecer, cobrir o preju e esperar algum dia ele voltar aqui para quebrada. Câmbio!
EMBAÇO
Sentado numa cadeira branca de plástico e com as pernas levantadas, Lauro empurra as solas dos pés contra o pilar. A cada baforada, joga a cabeça para trás e seu corpo fica apoiado somente em duas pernas da cadeira. Desafia o equilíbrio na frente de sua loja de conserto de motos, de onde olha a rua e a delegacia. Está na dele, aproveitando a tarde tranquila e sem clientes. Num desses movimentos, enquanto mira o teto, escuta um barulho alto. A reação é lenta e quando volta com os quatro pés da cadeira no chão tudo já tinha acontecido. À sua frente, percebe uma sandália jogada na calçada. Na rua, vê uma mulher deitada, uma moto vermelha caída e um homem acenando para os motoristas pararem seus carros. Mesmo com todo o agito, continua na brisa. Repara que a mulher consegue respirar. Sinal de que não morreu. Fica um tempo ali observando o trânsito parado até que a ambulância chega e carrega a acidentada. Só então se levanta, recolhe a sandália e pensa: enfim, uma cliente. Senta de novo na cadeira e volta a se equilibrar.
PERICULUM IN MORA
Trata-se de representação apresentada pelo Ilustrado Ministério Público do Estado de Santa Catarina a este douto juízo referente à demora na prestação de socorro pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência – SAMU em ocorrência que provocou quinze quilômetros de congestionamento na cidade de Florianópolis, no dia 14 de janeiro de 2007, em evidente desalinho à ordem pública numa interpretação alicerçada na hermenêutica jurídica, segundo o §8º do item II do artigo 4º da Lei n. 452/2003 c/c art. 13 do Decreto Estadual n. 762/1998. O representante alega que os referidos dispositivos legais foram descumpridos ao não se efetuar atendimento a contento e encaminhamento ao nosocômio em tempo razoável da motorista em flagrante e inequívoca situação de vulnerabilidade, conforme explanado em peça acusatória inaugural, configurando o ilícito. Nestes termos, defiro, sob o argumento de periculum in mora, a pretensão apresentada para não se afastar qualquer possibilidade de procedimento investigativo e ordeno ad cautelam que a demanda deva ser anexada ao processo 000.999.888.0500 para que a missiva seja analisada em conjunto com as demais denúncias. Como diligência, intime-se Governo Federal, Governo do Estado e Prefeitura Municipal para resposta em 15 (quinze) dias. Cumpra-se. Rodolfo Müller, Juiz de Direito. Comarca da Capital. Florianópolis, 30 de outubro de 2015.
ACIDENTE CAUSA 15 KM DE CONGESTIONAMENTO
Um acidente na Rua Lauro Linhares, na Trindade, causou congestionamento de mais de quinze quilômetros em Florianópolis na tarde desta segunda-feira. Segundo a Guarda Municipal, o engarrafamento afetou os bairros da Agronômica, Carvoeira, Pantanal, Córrego Grande, Santa Mônica, João Paulo e Monte Verde. Por volta das 18 horas, uma mulher, cuja identidade não foi revelada pela polícia, dirigia uma moto no sentido Centro-UFSC, quando, na altura da delegacia, atropelou um cachorro. O motorista do carro que vinha atrás da moto, Adolfo Dorneles, afirmou que a mulher dirigia numa velocidade por volta dos 50 km/h, quando o animal atravessou a rua bem na frente da moto. Por conta da frenagem súbita, a moto empinou com a roda de trás, a mulher foi arremessada para frente e o veículo acabou caindo em cima das pernas dela. Como a mulher não conseguia se levantar, Adolfo desceu do carro, parou o trânsito para evitar que ela fosse atropelada e ligou para o SAMU, que demorou cerca de uma hora para atender o chamado de socorro. A mulher foi encaminhada para a emergência do HU e liberada horas depois. A reportagem tentou falar com a central do SAMU para saber o motivo da demora no atendimento, mas não obteve retorno. O trânsito só voltou ao normal às 21 horas. Ninguém soube informar o paradeiro do cachorro.
