Bricolagem de Tempos
Helô Mello
Trabalho Destruído
Investi dinheiro e tempo nas fotografias, e nomeei essa ocupação como hobby. Podia chamar de fuga, para escapar da minha própria vida, com muita dedicação e prazer.
Entro no quarto e Anita, minha mulher, está sentada na cama com as fotos preto e branco, que faço com minha Leica, espalhadas na colcha, com uma tesoura assassina nas mãos, prestes a guilhotinar algum personagem que ela decidiu que não será eterno nas suas memórias. Sinto o sangue esquentar a ponto de entupir as artérias que saem do meu coração. Nem é preciso olhar no espelho para saber que o ódio está nas minhas bochechas vermelhas. Antes de arremessar a minha indignação, vejo Gabi, minha filha, sentada ao lado, com a carinha fascinada pelas imagens e pela tesoura nas mãos da mãe. Engulo um nó de ódio que irei somatizar no futuro próximo, e tento perguntar com a voz desafinada, para amenizar o ruído do trovão que insiste em sair da minha garganta, o que ela está fazendo ao assassinar meu ensaio fotográfico. Nem consigo escutar a reposta, cínica, claro, que ela dá para destruir a minha arte, já que o casamento terminou sem um fim. Seguimos fingindo. De novo, cheguei tarde demais para interromper. Devia ter posto um fim no relacionamento antes de Gabi nascer. Anita fez barriga primeiro.
Romance imagético
O desejo de Anita era de escrever um romance. Convivia com histórias povoando a sua imaginação há anos e não sabia como organizar suas ideias. Para sua surpresa descobriu todos os seus personagens escondidos em uma caixa que Antônio, guardava no fundo da gaveta de seu escritório. Ela nunca tinha reparado nesse objeto, talvez porque há tempos evitava entrar no território de seu marido. Presenciava Antônio fazendo fotos inúteis aos finais de semana, com o nariz enfiado na sua câmera fotográfica, mas nunca viu um filme revelado, ou uma fotografia impressa. Ao abrir a caixa, as imagens pularam e se espalharam pela cama de seu quarto, como se esperassem, ansiosas, por esse momento. Cola e tesoura a postos, começou um trabalho meticuloso de recortar, limpar os ruídos, e manter só o que faria parte da história. Gabi, sua filha de 5 anos, veio se sentar ao seu lado, e por mais que dissesse para ela ir brincar no
jardim, tomar sorvete, ela não saía de perto, dificultando que ela escutasse o que os personagens estavam dizendo. Antônio chegou para atrapalhar a sua narrativa. Sua expressão, como de costume, era de desagrado, que ela ignorava, pois já fazia parte do seu semblante. Olhando fixo para a foto em suas mãos, sem erguer os olhos para o marido, cortou com cuidado a sogra, arrancou sua figura, sem deixar traços, começando pelos cabelos, duro de laque, que deixou mais fácil o artesanato de cortar bem rente a sua figura. Excluiu da festa sogra e marido. Acabara de decidir que em seu romance não haveria sogra. Talvez poupasse o marido, como um outro personagem secundário, em algum momento. Não iria estragar o enredo. Nessa história só vai entrar quem Anita desejar.
Também queria brincar
Mãe, o que você está fazendo?
Nada, querida, só organizando umas fotos que estavam jogadas no fundo do armário.
Que legal! Posso te ajudar?
Gabi, você não quer ir brincar lá no jardim? Está um dia lindo!
Ah, não. Quero ficar aqui bem pertinho.
Quer um sorvete? Só hoje, hein? Vai lá na cozinha e pede um sorvete de coco que você adora. Pode falar que hoje eu deixei você tomar.
Nem estou com vontade, mãe! Posso recortar uma pessoa também? Essa que você está picotando não era a vovó?
A vovó não vai participar dessa história.
Mãe, papai chegou aqui e estava com uma voz grossa, né? Será que ele não gostou que você arrancou a vovó daqui? Cadê o papai que estava na foto? Você também o jogou no lixo?
Eu sou a que corta e você, a que cola
Sou chegada num papel. Me dou melhor com ele do que com o tecido, por exemplo, onde fico cega. No corte crio outros cenários. Alguém fica evidente, outros desaparecem. Os pedacinhos que caem no chão, são as arestas que podem ser dispensadas. Caem cabeças, mãos e outros membros do corpo. Abro caminhos, amputo silhuetas e formo novas recordações.
As mãos longas de Anita me pegam com cuidado, mas sinto a pressão dos seus dedos quando ela separa os corpos, e a sua alegria quando dá a última picotada. Você também percebe?
A velha de chapéu, ficou sem cabeça, mas seu vestido, cheio de pregas ela aparou com perfeição, me levando para cima e para baixo, sem tremer para não invadir a roupa. Já aquela criança que corria no jardim sumiu da cena. Sobraram as flores no canteiro ao lado da jabuticabeira.
Você, quando chega, é para aglutinar. Anita remonta tempos, costura novas realidades. Você gruda o impensado, cacos e tempos diferentes. Você forma camadas, esconde e amontoa.
Comigo se vinga, com você cria. Eu, tesoura, e você cola.
Álbum de família desconstruído
Álbum de fotografia, medindo 30 x 20 cm, capa dura de couro marron, contendo no centro um tecido estampado e esgarçado amarelado. As páginas são separadas por um papel vegetal ressecado pela ação do tempo. São 18 páginas, com uma média de 2 a 3 fotos por página, sem data ou legenda. Pelas roupas e qualidade do papel trata-se de um álbum de família realizado nos anos 60, descontruído. Autor (a) desconhecido(a). As imagens foram recortadas com tesoura manualmente e reagrupadas com cola branca formando cenas com certa influência do movimento sulrealista. Aparenta ser um álbum de família convencional, mas ao folhear as páginas, percebe-se que se trata de um outro relato que mistura os personagens em situações inusitadas, incomuns graças as montagens, recortes e colagens. Não há imagens arrancadas, apesar de que, boa parte delas, sofreu a ação dos mofos, que dão ao álbum uma outra vida. Os fungos parecem dar às imagens outras interpretações, escondendo rostos e outros elementos que dão margem a ambiguidade. Um álbum de família desconstruído, único, raro de se encontrar.
Marcelo, 45, detetive
Nosso herói, Marcelo, 45, é um detetive com anos de experiência em descobrir tesouros em lugares insólitos. Ele vasculha ruas, latas de lixo, tem contatos com pessoas suspeitas que oferecem contrabandos retirados de famílias e de casas desfeitas. Sabe filtrar, no meio de pilhas de inutilidades, cartões postais, cartas, fotos ou outros rastros de vidas
passadas. Foi assim que ele achou, na calçada, na frente de uma casa espaçosa, em vias de demolição, nos jardins, um álbum de fotos de família misturado com raios X, almofadas velhas e uma antiga cadeira de balanço quebrada. O álbum se encontrava em estado precário, empoeirado acompanhado de uma colônia de fungos azuis e rosas, sinal de tempos e abandono. Como detetive, seu trabalho não é de desvendar o passado daquele material como impressões digitais. Marcelo tira a vítima do esquecimento, ou de seu triste fim. Relíquias como esse documento renderão um bom almoço acompanhado de umas duas doses de pinga. Como detetive que se preza, seu faro o alertou para a mercadoria. O álbum não apresentava fotos raptadas, como vazios de memória, ou páginas suspeitas subtraídas. Estranhou ao ver imagens decapitadas e sobrepostas, mas sabia ser um diferencial. Uma história da história estava escondida ali. Marcelo, detetive, desvendou essa charada.
