Na boate

por Américo Paim

INOCENTE

Em uma boate cheia de gente no Rio Vermelho, já depois da meia-noite, um rapaz de média altura, cabeça raspada com máquina e um cavanhaque todo desenhado, observa a pista de dança. Há uma mesa à sua frente, com duas moças sentadas que não lhe despertam interesse. Atrás dele, o balcão do bar com três atendentes simpáticos, vestidos de cinza.

Ele muda seu olhar para outra direção, quando uma moça vestida de preto, com uma faixa azul na cintura, cabelos soltos e maquiagem borrada, chega chorando e o abraça, colocando a cabeça de lado sobre seu peito. Ele a afasta, se olham e ela deixa cair algo. Sem pensar, ele se abaixa para pegar, demora a encontrar o que caiu, mas escapa do soco violento de um cara corpulento que atinge e nocauteia uma moça atrás. O acompanhante da coitada quebra uma garrafa na cabeça do agressor e sai correndo. O rapaz careca levanta e pega a garrafa suja de sangue. Os seguranças aparecem e o levam embora, apesar de seus protestos. A moça procura outra pessoa para abraçar.

DEPOIMENTO

– Eu tava de boa em pé vendo a pista de dança. Só isso.

– Tava bebendo?

– Não, tava ali à toa.

– Então o que aconteceu?

– Na hora que olhei pro outro lado, essa mulher apareceu sei lá de onde e me abraçou!

– Quem é ela?

– Nunca vi mais gorda, tô lhe dizendo.

– E aí?

– Fiquei olhando pra ela. Ela tava chorando e deixou cair uma coisa no chão. Aí eu me abaixei pra pegar. Só fui ajudar, eu juro.

– E então?

– Eu demorei um pouco pra achar. Tava escuro. Era um batom. Na hora que eu levantei vi um cara no chão e um caco de vidro em cima da mesa na minha frente. O caco tava com sangue e eu peguei porque fiquei curioso. Foi isso.

– E a mulher?

– Sei lá! Os caras da segurança vieram e me arrastaram, não vi mais nada. É verdade!

– É muita lerdeza sua, viu, véi?

NÃO DÁ PARA NEGAR

Não era cedo, mas depois de meia-noite. Nem era calmo e silencioso, era uma boate. Não havia um velho cabeludo e imberbe, mas um jovem careca e de cavanhaque, que não olhava a parede e sim o movimento na pista. Na sua frente não eram homens, mas mulheres em uma mesa e atrás dele não era o nada, mas o bar com atendentes.

Não olhou só a pista, virou-se para o outro lado. Decerto não ficou sozinho, pois uma mulher o enlaçou. Não podemos dizer que ela lhe era conhecida e que não chorasse. Quando ele se abaixou não foi para se proteger ou permitir que o soco atingisse a outra mulher atrás dele: foi sem intenção de uma coisa ou outra. Sendo um cavalheiro, lhe foi impossível não fazer nada quanto ao objeto que a desconhecida não soube segurar e foi ao chão.

Não foi por predileção por vidros ou sangue que pegou o caco melado sobre a mesa quando se levantou, mas por mera curiosidade, porque viu um homem caído e nada entendeu. Da mesma forma, não foi por acreditarem na sua inocência que os não delicados rapazes da segurança o recolheram, mas porque o circunstancial os impeliu.

AOS COSTUMES

– Conta!

– Tô corrido.

– Resume!

– Tá. Um cara na boate se abaixou pra pegar um troço. Quando levantou viu um sujeito ensanguentado no chão e um caco de vidro melado na mesa. Pegou o caco. A segurança chegou, viu um cara no chão, outro com um caco e recolheu aos costumes.

ARGUMENTO

Meu caro Diogo.

Conforme prometi, segue um resumo para você transformar em roteiro para filmarmos no mês que vem:

A observar a pista de dança, um rapaz de média altura. A boate no Rio Vermelho cheia de gente. Ele é careca, de cavanhaque desenhado e já passa da meia-noite.

Ele está entre o bar e uma mesa. Atrás dele, roupa cinza, os atendentes e na frente, sentadas à mesa, duas mulheres desinteressantes.

Vestindo preto com uma faixa azul, uma moça chega de surpresa e o abraça, pondo a cabeça sobre seu peito, bem na hora que ele tira o olhar da pista. Sua maquiagem está borrada porque ela chora. 

Se olham e ele escapa de ser socado por um brutamontes porque se abaixa para catar algo que ela deixou cair ao chão. Alcançada pelo murro, uma mulher que estava atrás do careca vai a nocaute, mas seu acompanhante devolve a gentileza ao agressor usando uma garrafa que acabou de quebrar e deixa o local rápido.

Os seguranças chegam e, apesar dos protestos do careca, o levam logo após analisarem a cena que encontram: um homem ensanguentado no chão e o rapaz que tem na mão um caco de garrafa melada de sangue.

À procura de outro abraço, a mulher de preto e azul se desloca na boate.

E aí, acha que tem jogo nessa cena aí?

Um abraço.

Osvaldo.

PERDEU 

Em uma boate cheia de gente no Rio Vermelho, depois da meia-noite, você, que outrora se via como rapaz comum de média altura, está muito a fim de estrear um novo visual de cabeça raspada com máquina e um cavanhaque desenhado e observa a pista de dança. Hoje é dia de quebrar tudo e me dar bem. Na mesa à sua frente duas moças sentadas, mas você não se interessa. Atrás há o balcão do bar com três atendentes simpáticos, vestidos de cinza. Você não vai beber ainda.

Cansado do cenário da pista, você olha para outro lado e mal dá tempo de analisar a figura feminina que vem em sua direção, mas percebe a roupa preta com um tipo de pano azul na cintura. É essa a cor ou as luzes confundem? Rápida, ela lhe abraça, colocando a cabeça a descansar em seu peito. No susto, você a afasta e ficam a se olhar. Você admira seu rosto, os cabelos soltos e nota a maquiagem borrada pelo choro. Quem será? Nunca vi. Antes que possa falar, você vê que ela deixa cair algo. Você se abaixa para pegar, mas tem dificuldade de encontrar por causa do escuro. Você levanta e não vê mais a mulher, mas um caco de vidro sobre a mesa e um homem caído ao chão. Curioso, você pega o resto de garrafa suja de sangue. O que aconteceu? Quem é o cara? Cadê a mulher? Os seguranças aparecem e lhe puxam pelo braço, falando um monte. Você protesta, mas nada adianta. Perdeu.

SUBSTANTIVOS

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BENJAMIN BUTTON

Ela resolve sair em busca de outro abraço.

O cara que ela abraçou há pouco, jovem e careca com cavanhaque desenhado, está sendo levado pelos seguranças. Ele protesta muito, mas quando eles chegaram o rapaz estava com um caco de garrafa sujo de sangue nas mãos, então concluíram que ele é o agressor do sujeito que está no chão, ensanguentado.

Enquanto circula, ela não entende como eles não notaram a mulher caída ali perto, por causa do soco que recebeu do cara caído no chão, que está lá porque o cara que estava com a agredida quebrou uma garrafa na sua cabeça.

Lembra que o careca escapou do soco do cara do chão porque se abaixou na hora em que ela deixou cair seu batom, assim que ele os separou do abraço que ela deu. Ela o olhava desde antes, mas ele só mirava a pista, de pé entre o bar e uma mesa com duas mulheres. Assim que se virou, ela foi a ele.

A boate no Rio Vermelho está lotada e já passa da meia-noite.

UM NEGO PRA SE ROÇAR

– Véi, o lugar tava socado, na moral. Calor da porra.

– E aí, rolou o que?

– Tinha duas criaturas numa boa comigo na mesa da frente e eu trabalhando…

– Fez o que?

– Não deu pra nada, rapaz. Entrou um mané careca e ficou na minha frente.

– Sacanagem.

– Porra nenhuma, o cara se deu mal.

– Como assim? Boiei…

– Chegou uma gostosa de cinto azul, acho que veio do banheiro, e abraçou o cara. Ele ficou olhando pra ela e aí um peão forte pa porra chegou do nada e meteu-lhe a desgraça no pouca telha.

– Vixe, quebrou o otário?

– Nada! Ele se abaixou na horinha e o murro escangalhou uma mulher atrás dele.

– Porra, que merda!

– Peraê! Aí o homem da escangalhada quebrou uma garrafa na cabeça do touro e se picou.

– Que desgraça é essa, mermão?

– Acabou não, se ligue… O careca pegou o resto da garrafa e ficou olhando. Aí os seguranças chegaram e levaram o abestado.

– Que diabo é isso? E a mulher, fez o que?

– Oxe? Foi atrás de outro nego pra se roçar, né?

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