O mundo é variado

Fábio Kalvan

“Vamos lá, Maria, tá na hora, chama teu povo”

“Acordou apressado, Piloto? Foi isso?”

“Ó o calor que tá já cedo. Eu que tenho que aguentar o sol no lombo. E fazer força pelos cinco”

“Calma, calma. Pronto, a Rita subiu e o Carlos tá chegando”

Todo mundo acomodado, a mãe no banco da frente, ao lado da irmã, Tia Ana, uma a cara da outra, peles morenas, rostos redondos, olhos levemente puxados, embora aquela com uns quilos a mais que essa. Atrás, as três crianças, Maria no colo da Rita.

“Avisa aí tua mãe que não precisa me bater, eu sei bem o caminho. Aliás, vocês deveriam variar o percurso de vez em quando, quem sabe não têm mais sorte”

“Sorte? Isso não é para índio não, Piloto. Sorte… só você e essas ideias malucas”

Piloto é de uma cor indecisa. Alguns diriam que é “cor de cuia”, outros, da “cor de burro quando foge”. Mas ele não é um burro, sim um cavalo. Magro, costelas salientes, conhece cada metro do trajeto que deve executar. O mesmo de todo sábado.

A carroça sacoleja pelas ruas do bairro classe média na manhã quente. A família ainda não comeu, a não ser que o café ralo e umas poucas frutas possam ser chamados de café da manhã. Maria mamou um resto de leite dos peitos quase secos da mãe. Não demora muito e é hora da primeira parada, debaixo da sibipiruna de uma casa toda murada. A mãe segura as rédeas e dá as ordens:

“Rita, deixa a Maria com tua tia e vai naquelas casas. Carlos, você bate no outro lado da rua. E aproveita e dá uma olhada nos lixos ali ó”

Os irmãos pulam da carroça e rumam para seus objetivos. Carlos vai com aquela camiseta de sempre, tão grande que lhe chega ao meio das coxas e que acentua o aspecto de menino mirrado. Já Rita está contente, é a primeira vez que usa a blusinha rosa e verde que ganhou na semana passada. Nos pés de ambos vão havaianas desproporcionais que um dia foram brancas.

“Maria, não tem pente na tua casa não? Que vocês não me escovem, tudo bem, eu sobrevivo, mas olha a cara dos teus irmãos. Esse cabelo duro, mal lavado. E tudo ramelento, pelo amor de Deus. Fora o cheiro de fumaça que a gente sente à distância”

A frase de Piloto sai misturada a um tropel recém-iniciado de palmas com latidos de cachorros e campainhas residenciais.

“Até parece que você não conhece nossa casa. Já entrou alguma vez no nosso banheiro? Então. E nem adianta eu falar com a mãe, ela não me entende, ela não é como você. E se entendesse, não ia mudar muita coisa”.

A mãe põe de repente a carroça em movimento para alcançar os filhos, que já vão adiante. Carlos vai sorridente, sorriso de boca banguela porque havia ganhado um pacote de bolachas recheadas, que já chega aberto à carroça e que parece valer bem mais que a lata de sardinha e o pacote de macarrão trazidos juntos. A irmã, essa vem de mãos vazias, não dá para ganhar sempre.

“E tua mãe, Maria, não vai vender nada hoje?”

“Não. Limão tava tudo verde e as abobrinhas apodreceram. Só tinha banana, mas a mãe deixou para a gente comer mais tarde”.

Todo mundo de novo na carroça, a mãe agita as rédeas e Piloto sabe que deve acelerar.

“Cadê seu pai?”

“Saiu cedo. Parece que arranjou uns terrenos para capinar, então foi logo de manhãzinha”

“Você sabe o que vai acontecer, né?

“Nem me fala. Já tô sentindo o cheiro da cachaça misturado a suor. E ouvindo tem a barulheira dele brigando com todo mundo. Eu não me aguento e começo a chorar”

“E você acha que eu não ouço? Esse teu pai não tem jeito. Se tá desocupado, bebe porque não tem o que fazer. Se arruma trabalho, bebe tudo o que ganha. Minha sorte é que fico amarrado lá longe e ninguém mexe comigo”

“Sorte tua. Minha vontade é de morar com você”

“Venha quando quiser”

Piloto fala enquanto diminui o passo, obedecendo aos sinais da mãe. Nova parada, novas tentativas. A mesma cena: Carlos para lá, Rita para cá. Dessa vez Maria vai resmungando para o colo da mãe, porque Tia Ana desce também e some depois de uma esquina.

“Tá cada vez mais difícil, Piloto. A mãe diz que antes era melhor, as pessoas davam as coisas, davam trabalho. Agora, dão quase nada. Isso quando não xingam. Quando a mãe entra no mercado comigo, todo mundo fica olhando, como se a gente fosse roubar. Dá vontade de fazer isso mesmo, sabe”

Maria para por um instante e balbucia algo para a mãe, que a ignora.

“Feliz que é você, Piloto, que só precisa de uma sombra e de algo para comer. Nem esforço faz, as ruas são todas planas aqui”

“Eita pega, não faço esforço? Quem disse essa besteira? Para quem não come direito vocês são bem pesadinhos, viu? E eu não reclamaria se comesse um pouco de aveia de vez em quando. Ou seja, tá difícil para todo mundo”.

Rita e Carlos retornam, ela com uma calça jeans puída e ele com um pacote de arroz pela metade, que a mãe se apressa em guardar numa sacola plástica.

“São da casa do rapaz de óculos?”, Piloto pergunta.

“Isso, ele sempre dá alguma coisa. Ainda tem gente boa por aí, né”

“Ah, Maria, você ainda é novinha e tem muito a aprender. Não se fie nesse tipo de gente. Eles não fazem o que fazem porque gostam de vocês. A roupa velha que não lhes serve mais ou alimento vencido que eles mesmo não têm coragem de comer, eles doam como o preço que pagam para se sentirem em paz. É um grande engano, enganam vocês e tentam enganar a própria consciência. Por isso que aqueles que não dão nada, nem o pão de ontem, aqueles que xingam, aqueles que não se esforçam para esconder o preconceito, esses eu acho os melhores, porque assumem o nojo que sentem dos bugres, como dizem. O mundo é variado, Maria, e você verá que parece haver os bons, os maus e os indiferentes. Como diferenciá-los? Apenas pelo grau de desfaçatez e de cinismo, no mais, no fundo, são todos iguais”

“Nossa, como você tá azedo”

Piloto não se dá ao trabalho de responder. Ficam enfim todos em silêncio, Maria no colo da mãe, os irmãos brincando num gramado. O silêncio é tanto que Piloto, induzido pelo calor, aproveita para cochilar. Imóvel, só dá sinal de vida quando espanta as moscas que teimam em incomodá-lo.

Acorda com o movimento da carroça. É Tia Ana, longos cabelos pretos presos num rabo de cavalo e saia jeans de irmã da congregação, que sobe e guarda no sutiã os R$ 30,00 que acaba de receber por ter varrido, recolhido e metido em sacos plásticos as folhas caídas das árvores do entorno da casa com portões de vidro temperado. Colocam-se em movimento de novo, Piloto à frente, rumo à próxima parada, o supermercado do bairro, onde as três notas de dez são deixadas. Maria sorri.

“Hoje vai ter leite, Piloto”

“E daí? Eu não tomo leite. Em mim ninguém pensa. Nem um torrão de açúcar”.

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