
Na última segunda-feira, Chico me mandou uma mensagem com um anúncio de que o Festival de Arte Interdisciplinar precisava de um assistente de curadoria. O festival já tem quase vinte anos, acontece anualmente no antro dos patos e sapos golpistas, mas sempre tem uma ou outra atração interessante. Além de abrir espaço para artistas nacionais jovens, em começo de carreira. Como um frila longo e um pouco mais estável era o que precisava, pedi para Maurício revisar meu CV e mandei. E não é que me chamaram para uma entrevista? Sexta, 11h. Ok.
Na quinta, passei no bar do Juarez pro Happy Hour das bichas do centro. Era para o encontro ter acabado por volta das 22h, como sempre, mas acho que teve um lançamento de livro numa galeria ali do lado. Foi chegando aquele bando de poeta, livreiro e entusiastas das letras no bar e as saideiras foram mudando de mesa, na dança de recolher as coisas que os garçons faziam pra poder expulsar a gente. Eu falava pra todo mundo “só mais essa e vou embora, amanhã tenho uma entrevista de emprego”. E todo mundo me parabenizava, porque sabiam que aquilo pra mim era uma grande coisa.
Às 3 da manhã se recusaram a vender mais qualquer saideira que fosse. Putz, preciso ir, amanhã eu tenho uma entrevista de emprego. Vou pedir um uber, porque andar no centro a esse horário é arriscado. Talvez eu perca meu celular antes de conseguir o emprego. E Caio, um poeta que eu dei like no tinder só porque já conhecia ele de vista do café perto de casa, disse que me acompanhava. Mostrei ele para uma amiga, contando do impulso do aplicativo, e ela o apelidou de “mal diagramado”. Não consigo muito olhar pra ele sem ter vontade de rir. Mas, muito bem. Quando chegamos na porta do meu prédio ele pediu para fazer xixi porque estava apertado. Subiu, foi ao banheiro, olhou meus livros, queria comentar sobre eles, talvez esperasse que eu o convidasse para dormir ali para ele poder economizar o uber também. Preciso dormir, amanha tenho uma entrevista de emprego. Era quase 4h e não sei porque cargas d’água acabei lhe mostrando um zine da Cecília Pavon, em espanhol, que comprei num feira de publicações. 4:30h, cara, eu preciso dormir, amanhã tenho uma entrevista. E ele foi embora.
Acordei às 9h para dar tempo da cara desinchar, tomar uma neosaldina, banho, lavar o cabelo, tomar café etc. Tudo certo, o mais difícil eu tinha conseguido: ouvir o despertador e levantar. Não sofria de nenhuma ressaca arrebatadora que me impedisse de ir andando até o outro lado do minhocão, apesar de que eu sentia meu próprio cheiro de álcool. Foda-se, tô bem. Cheguei pontualmente às 11h. Era uma sala no térreo de um prédio residencial. A última do corredor. A secretária me recebeu e me apresentou o curador. Me pareceram simpáticos, ambos. Ele se encarregou de me mostrar o ambiente de trabalho, que precedia a ida pro espaço da exposição. Uma sala média com luz branca, uma mesa comprida de madeira prensada, com dois computadores, um de costas pro outro. Os catálogos se empilhavam pelo chão, já que a estante branca, também de madeira prensada, estilo imitação da pior linha da tok stok, também estava cheia. E torta.
Vem conhecer, a gente tem uma área linda aqui.
Da sala, uma porta dava para uma área externa em L. Na saída, uma mesa branca redonda de plástico. No fim do primeiro braço, uma varanda que dava para um quintal todo verdinho mesmo, bem diferente do corredor cinza de cimento e luz branca onde pisávamos. Acho que era o teto baixo que dava a impressão de que ali era escuro, mesmo que tivesse sol lá fora.
É um ambiente de trabalho incrível, mas agora vamos à conversa.
Voltamos à sala fechada de luz branca. O curador era um tipo excêntrico. Roupa social meio desgastada, camisa branca fechada até o pescoço e calça preta, tênis de corrida, careca, alguns trejeitos. Ele puxou uma cadeira giratória, eu me sentei e ele na minha frente. Ao lado, a mesa do computador com a secretária.
Pelo que vi do seu currículo, você que gosta de fazer perguntas, mas hoje eu que vou te entrevistar. Como você ficou sabendo da vaga?
Um amigo que trabalha na galeria Vagão me enviou o anúncio.
E por que você se interessou?
Porque eu tenho experiência em comunicação, revisão e já trabalhei em educativo de exposição antes, apesar do meu currículo acadêmico ser um pouco diferente.
Estou vendo aqui, você é formada em arquitetura?
Sim.
E qual foi sua tese?
A construção de conchas acústicas em três cidades do Brasil e o impacto que elas tiveram sobre a dinâmica cultural desses locais.
Concha acústica? Aquelas sem cobertura? Que o público tem que sentar em arquibancadas de concreto para assistir um show de música popular?
Isso.
Você gosta de música popular?
Gosto. É um dos temas que pesquiso.
Que horror. O brasileiro não tem gosto mesmo. Eu não entendo, por exemplo, esse culto a Caetano Veloso. Você tem cara de quem gosta da música horrorosa dele. Eu até entendo a figura, respeito, mas a música não dá.
Sim, eu gosto. Se eu não gostar da minha cultura, quem vai gostar?
Não, você precisa gostar de músicas que mudaram a história. Tipo Bach. Ou Mozart, pode ser. Você conhece a história de Mozart? Pode ser que você goste. São peças musicais com certeza melhores do que essas de conchas acústicas. De onde você tirou essa ideia.
Eu queria estudar projetos urbanísticos que estão relacionados à circulação de produções culturais e o impacto deles para uma ideia de cidade democrática.
Ah, mas isso não muda nada. Esse é o problema de vocês de humanas na universidade, que gasta milhões do dinheiro do governo. Tem que estudar coisas que demarcam mudanças, entende?
Eu já esquecia que queria esconder meu cheiro de álcool enquanto ele falava, porque de alguma forma eu previa o que vinha pela frente. De ressaca, escutando de um senhor curador das artes que trabalha numa sala com luz fria o que pesquisadores devem estudar. Recuperei o semi sorriso no rosto para escutar e levantei levemente a cabeça para parecer interessada. Ainda estava focada no fato de que precisava de um emprego.
Sabe os cientistas, biólogos e tal? Eles estudam o que muda na história da evolução. Hipopótamos podem ser uma ponte entre um momento e outro da humanidade, já viu como eles são estranhos? Vocês têm que estudar o que é elo perdido. Sabe a narval?
Não.
Aquela baleia que tem um chifre de unicórnio. Coloca aí no google para ela ver, Ana. Ela é um elo perdido, uma baleia com chifre!
Sei. Legal.
Enquanto fiquei reticente, com um sorriso de escárnio, querendo saber o quanto ganharia para trabalhar com aquela peça falando merda por no mínimo seis meses no meu ouvido, eis que ele se inspira no papo.
Mas vamos falar de arte, afinal esse é o trabalho. Seu inglês está perfeito, na ponta da língua?
Sim, uso muito.
E me fala um pintor que você gosta.
Tem que ser pintor? Pode ser um artista contemporâneo.
Ai, lá vem, fala.
Não sei assim. Estava com a cabeça na narval. Gosto do Joseph Beuys.
Aquele da performance? Ah, não, que coisa horrível. Tô falando de pintura, de arte mesmo. Pintor é Monet, Picasso.
Não respondi, mantive meu sorriso e a perna cruzada na cadeira giratória, que fazia um pouco de barulho. Eu vestia uma camisa de manga comprida, mas mesmo sendo de tecido leve, eu começava a suar. O calor me incomodava e acho que ele percebeu. Ele já tinha discursado por quase meia hora, tirando a visita à varanda cinza.
Eu tenho mil reais pra te pagar.
Mentira, né? – eu respondi com o sorriso intacto, achei, de verdade, que era brincadeira.
Você trabalha meio período, das 10h às 19h, com uma hora de almoço, e ainda sobra tempo de manhã e depois para você investir nessas suas outras coisas que eu vi que você faz. Vai topar?
Mil reais?
Você não tem muito background de experiencia de mercado, tem um monte de gente querendo a vaga. Inclusive, Ana, é agora que chega a outra candidata, né? Vai pensando e a gente se fala. A Ana te liga.
Eu saí da sala um pouco aliviada, um pouco zonza de um falatório que acabou meio de repente. O sol de fevereiro, daqueles que aparece entre um período e outro de chuva, abafado, comprimia meu olho junto com a dor de cabeça da ressaca. Me perguntava se o cara realmente tinha me chamado lá pra me oferecer mil reais de salário e propor um meio período que é um período cheio. E insultar tudo que já fiz até aqui. Liguei para minha mãe. Ela disse que era melhor eu montar uma barraca de bananas na esquina do Arouche.
Desci a Jaguaribe depois do telefonema. No caminho, avistei um amigo dentro de uma padaria. Entrei. Precisava conversar. Contei em detalhes o que tinha acabo de acontecer, eu ainda não estava entendendo.
Ele reconheceu quem era a figura. Sabia até onde ele morava, um daqueles prédios enormes da Angélica. Só de condomínio ele paga 5 pau, me contou. E eu não tive nem o reflexo de mandá-lo ir à merda. Se eu tiver sem emprego, talvez eu faça na abertura da exposição. Se eu tiver com, vou pro bar do Juarez mesmo.
