UMA EXPLICAÇÃO AO PRESIDENTE

Alberto Flores, num e-mail de madrugada

Vou falar sobre uma combinação. Envolve duas pessoas nuas, luzes verdes e um blefe. Escrevo isso porque prometi que o faria. Era noite. Deslizei a mão sobre suas pernas. À boceta. Você segurou meu pulso, afastando-o, porque precisava urinar. Então eu estava deitado e disse algo como “mija em mim”. O blefe. O diálogo que se seguiu, até o instante que você me beijou, subiu em mim e colocou meus dedos dentro de você, agora está apagado, diluído na corrente morna e (imagino) dourada que começou a escorrer pela minha mão e criou uma poça perto de nossas pernas que muito bem poderia ser o sangue da besta que anseia pelo fio da espada. Mas não exageremos. Você olha nos meus olhos e diz que fará tudo que eu ordenar. Que tenho um olhar imperativo. Que exerço um poder sobre você. Me apoiando numa contradição (só o que caberia naquele instante, naquela noite), respondi “então senta na minha boca”. Tudo para tornar-me, sob sua sombra, te vendo de baixo como só a pintura no teto de uma capela poderia ser vista, a um só tempo o condenado e o algoz. Seguro suas pernas e te recebo. Toda a urina do mundo, escorrendo pelos cantos da boca, descendo quente pela garganta, e meu pau outra vez rígido. Sob luzes verdes. Debaixo de uma janela. Na maior cidade da América do Sul. Depois há o óbvio que se desenrola após uma cena dessas. (difícil adivinhar o estado do seu espírito no momento, mas você deve lembrar que fiquei em êxtase, um corpo feito de nervos, tocado pelo sagrado) Há um banho. Há a preocupação de como ficou o chão, o colchão, os almofadões e o lençol que não nos pertenciam. Tudo seguiria mais ou menos nessa base, no ritmo imposto por coisas absurdas que já começam a ser esquecidas, e então amanhece, nós trabalhamos, envelhecemos, há um golpe de estado, os amigos cometem suicídio, tudo seguiria assim, suspenso em seu próprio eixo, se você não tivesse se vestido, juntado suas coisas, me beijado e dito: “obrigada, eu me senti uma francesa.” Foi o que você fez. Depois você foi embora. Me deixando estupefato no meio do mundo. Me devolvendo ao mundo. Um lugar muito mais bonito do que eu me lembrava da última vez que o tinha visitado. 

amor,

Flores

Melissa Zurita, num áudio do whatsapp

Marie, preciso te contar uma coisa que aconteceu. Mas antes quero pedir desculpas por não ter respondido suas mensagens, os dias têm corrido de forma estranha, e não consigo me concentrar em nada. Tenho pensado em você, na nossa república da rua Colima, e principalmente do cheiro que saía daquela cozinha quando você cozinhava pra gente. Os seus pratos, essa mistura entre a culinária francesa e as especiarias latino-americanas, eu acho, eram a argamassa que mantinham aquela casa de pé e todos nós felizes, por mais fodidos que estivéssemos. Mas não quero tomar muito do seu tempo. Só queria dizer que tenho pensado em você, e por um motivo um pouco esquisito. Você já assistiu o filme Lua de Fel? O título original é Bitter Moon. É do canceladíssimo Roman Polanski, tem o Peter Coyote e o Hugh Grant. Eles estão a bordo de um navio em direção a índia quando se conhecem, com suas respectivas esposas, e o personagem de Coyote, um escritor chamado Oscar, começa a contar a história da sua vida com Mimi, uma francesa linda e lunática interpretada pela Emmanuelle Seigner. A relação dos dois envolve a boemia parisiense, restaurantes chineses, rodas-gigantes, croissants aquecidos no microondas, sadomasoquismo, ela fazendo a barba dele, ele lambendo o leite que cai nos seios dela, coisas assim. Tudo termina mal, mas isso não importa. O que importa é que lá pelo meio do filme, o tal Oscar conta para o Hugh Grant, que interpreta um almofadinha inglês chamado Nigel, sobre uma noite que ele viveu com Mimi. A noite em questão não participa da sequência de flashbacks que compõem grande parte do filme. Trata-se de um close fechado no rosto de Coyote, um monólogo em que ele diz o que sentiu quando eles estavam deitados no chão, depois do sexo, acho, e ela se levantou e começou a mijar na cara dele. Quando assisti ao filme da primeira vez achei a cena estranha, meio nojenta, mas fui reassistir outro dia e fiquei um pouco tocada com a performance de Coyote. Dá pra ver que ele já viveu aquilo. Lembro que o personagem diz que aquele banho de urina foi o seu Tejo, seu Nilo, seu Jordão, seu Hudson, um segundo batismo que o fez renascer. Nessa hora, Nigel diz para ele parar, que está achando a história exagerada e obscena demais. E o escritor diz algo bonito. Ele diz que quando dois amantes se amam como eles se amavam, nada é obsceno, tudo se torna um sacramento. Isso pra dizer que Flores e eu vivemos uma coisa parecida, noite dessas. Ele me pediu para mijar na mão dele, depois na boca. Quer dizer, ele não pediu, foi algo que aconteceu naturalmente. Eu jamais tinha feito nada parecido, e depois que eu terminei — acho que eu nunca tinha mijado tanto — fiquei tão envergonhada que fui embora. Mas eu gostei. Esse Flores, quando eu sinto que estou preparada para me afastar, se sai com cartadas impensáveis que me empurram novamente pro centro da nossa loucura. Você devia ter visto como ele ficou, parecia que a fala do filme era uma verdade incontestável. Só estou te contando essa história porque antes de ir embora eu disse que tinha me sentido uma francesa. Até agora não sei direito o que eu quis dizer com aquilo. Talvez tenha sido pela personagem da Mimi, que é francesa (mas eu só fui lembrar do filme ontem, então não faz sentido). Talvez tenha sido porque li em algum lugar que as francesas são bem resolvidas sexualmente. As francesas são bem resolvidas sexualmente? Beijo, Marie. 

O voyeur,  à janela do seu apartamento

Já fazia um tempo que eu observava esses dois. Sabia que a casa não era deles, e sim de um amigo do cara alto e esquisito que, segundo meus cálculos — sou macaco velho do ramo — deve ser casado. Às vezes eles somem, devem se encontrar em outros cantos. O dono da casa é um jovem chamado Vinicius Massala. Moramos perto há três anos, mas a janela do quarto dele se abre para o sul, de modo que não há muita ação. Desde que ele liberou o quarto para os dois amantes, porém, se tornaram meus favoritos. Me sento aqui nessa janela com um binóculo, um copo de uísque e fico só observando. Eles se dão bem. Tem corpos compatíveis, talvez um pouco magricelos demais. E podem ficar horas transando! Chego a sentir inveja. São desses casais que gostam de transar com a janela aberta (conheço o tipo), com iluminação indireta (o quarto tem umas luzinhas verdes) e em posições que envolvem várias alturas. Quando eles vão embora, morro de vontade de descer pra rua e me apresentar. Não sei o que eles achariam disso. Mas é algo que eu nunca faria, afinal, a profissão a gente deve respeitar. Já observei relações sexuais de todo tipo, em lugares que você nem imagina. Já estive na Índia, no Cazaquistão, em Calais, em vilas de povos ribeirinhos, por grande parte da Europa e do imenso continente latino. Espiei pelas brechas de cabanas, casarões, tendas, chalés, fábricas, escritórios, banheiros e carros. Tenho um repertório vasto e respeitável no que se trata o que duas (ou três, ou quatro, ou cinco) pessoas podem fazer juntas. É impressionante o que o mercado contemporâneo oferece. Há trinta anos, quando comecei, as coisas eram bem mais leves. A parte boa é que a mente vai se aperfeiçoando em relação ao ofício. O que é uma obsessão se não o desejo de uma refinação? De tudo que vi nessa vida, porém, pouca coisa se aproxima do que vi os dois pombinhos fazendo uma noite dessas. Tinham acabado de transar, começaram a ter um diálogo de rostos bem próximos, e quando vi a menina já estava sentada na mão do cara outra vez. Ah, a juventude, pensei, é onde estão guardadas as melhores pérolas. Mas aí aconteceu. Ela começou a mijar na mão dele, enquanto os dois se beijavam efusivamente. Até aí tudo bem, vá lá. Mas eles voltaram a falar, ele agarrou as pernas dela e ela sentou na cara dele. E aí, realmente, ela mijou de verdade. O líquido escorria pra fora da cama, ia pro chão, e não parava de sair. O rosto dela estava inclinado pra cima, bem sob meu ângulo de visão, bonito tocado pela iluminação esverdeada, e ela parecia estar sentindo um prazer inédito. Quase chorei pelos dois. Sabia que eu estava diante de uma grande revelação, e não é todo dia que as testemunhamos. Aí os dois saíram do quarto e a luz do banheiro, no fundo do corredor, acendeu. Enquanto eles tomavam banho, fui pra cozinha e servi mais um gole de uísque para brindar à distância o futuro que se inaugurou para os amantes. Mas quando retornei, assisti da janela ele se despedindo dela e ela indo embora pelas ruas. Depois ele entrou na casa, subiu as escadas, apagou as luzes verdes e fechou a janela. 

Vinicius Massala, num quarto de sua casa

Tá vendo essa porra dessa mancha aqui? Tá sentindo a porra desse cheiro? Puta que pariu, velho, como você é nojento. Te abro a minha casa para você trazer a gata e você transforma o lugar num chiqueiro? Eu tive que pegar essas porras dessas almofadas, essa bosta desse cobertor e deste colchão e levar tudo pra pegar sol no quintal. E depois trazer de volta. Isso, claro, quando terminei de transformar o quarto numa piscina de desinfetante, porque francamente, não sei o que vocês andam bebendo, mas se a dieta consiste em óleo de carro, gasolina, é melhor rever suas opções. Por que da próxima vez você não vai fazer isso na casa da sua mãe? Por que você não vai fazer isso na porra da Argentina, seu portenho escroto? Meu Deus do céu, velho, não tô acreditando. O que? O que você disse? Eu não entendo? Eu não entendo o quê, porra!? 

 O colchão, ao sol do quintal

Sinceramente? Sem comentários. 

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