por Américo Paim
Me Lembro
De minha mãe me segurando sentado na janela para que eu pudesse ver o Carnaval em Santo Amaro.
Que toquei o cabelo com laquê de uma mulher e achei aquilo me deu muita gastura.
Que eu ria muito quando ouvia a palavra “gasguita” e meu irmão quando alguém falava “fronha” (na verdade, acho que ele ainda ri).
De meu tio Zé coçar o queixo com a carta do baralho sempre que ele cavava um coringa no jogo de buraco.
De o povo “bebendo o morto” na roça, perto de Cachoeira.
De como era bom o sorvete de baunilha da kombi com aberturas laterais da Sorveteria Primavera.
Que tive um tênis Bamba branco, que minha mãe jogou fora por eu insistir em usar quando ele já era lixo.
Que vi peixes voadores na beleza do azul cobalto do mar trabalhando nas plataformas na Bacia de Campos.
Que meu vizinho tinha uma caixa de carrinhos Matchbox. A rua toda era pura inveja (eu incluído).
Do Maverick verde escuro do meu tio Fêdo.
Que conheci um menino com um apelido no gerúndio: “Dormindo”.
Do gosto bom da bala de banana “A Leoneza”, com sua embalagem em preto e branco que me lembrava a camisa do Botafogo.
Que em um acampamento me cortei feio no pé com arame farpado e a ferida foi “desinfetada” com cachaça Saborosa.
De beber Campari com um primo mais velho sentado no fundo da Brasília de meu tio, voltando da praia em Porto Seguro. Ficamos presos em um engarrafamento e o carro de trás pediu um copo. Foi atendido.
Que fui multado duas vezes vindo de carro sozinho, de Campinas para Salvador. Eu tinha um Escort XR-3 turbinado e pisava bonito.
Como fiquei apavorado ao saber que minha filha tinha sofrido um sequestro relâmpago quando roubaram meu carro que estava com ela, em Salvador.
De ter rido muito quando meu filho foi para a festa do trote na UFBA e saiu de lá com o prêmio de “calouro tchuco”, com direito a uma gravura de “Johnny Bravo”.
Da TV marca Telefunken.
Que um professor de Física na faculdade andava sem mexer os braços e sua barba escondia completamente o pescoço.
Que o céu parecia um mapa hidrográfico tal a quantidade de raios na tempestade em Cubatão.
Das revistas VIGU.
Da minha emoção no Aeroporto de Lisboa, em 2001, ao ficar frente a Jimmy Page, conversar uns minutos, conseguir um autógrafo e um aperto de mão.
Da sensação de medo e desamparo quando apagamos todas as lanternas em uma caverna na Chapada.
Do dia em que eu, meu irmão e mais quatro amigos choramos abraçados e esgotados porque conseguimos escapar de um afogamento quando salvamos um banhista na Praia do Flamengo.
Que era massa ir com os amigos para o BAxVI na Fonte Nova.
Da final do campeonato universitário de basquete, quando fomos campeões por uma cesta.
Que a placa do meu primeiro carro, um Chevette branco a álcool, era UA-5155.
Que nem conseguia sair para o banheiro na primeira vez que vi “Doze homens e uma sentença”.
Que achei uma preciosidade a frase de Cazuza “… vamos pedir piedade pra quem não sabe amar e fica esperando alguém que caiba no seu sonho…”.
Que comi todo o chocolate que havia comprado em Bruxelas para dar de presente. Comprei cedo demais.
Que a chaparia do TL era dura como pedra.
De descer o morro com meus amigos, na lama, dentro de uma caixa de geladeira.
Dos carurus com discos de rock na casa de Aninha.
Do dia em que uma menina terminou o namoro porque descobriu que eu era mais novo que ela.
Da cara de surpresa de todos que estavam à volta da moça, azarando a pobre em uma boate no Rio de Janeiro, quando eu cheguei, não falei nada, estendi a mão, ela sorriu e veio dançar comigo. Me senti em uma cena de cinema e fiquei me achando por um bom tempo.
De ter levado doze foras em uma festa. Nós contávamos isso. E não peguei ninguém.
Do sexo na praia com uma mulher que tinha sido miss em uma cidade do Espírito Santo.
Das revistas de sacanagem que eu e meu irmão escondíamos nas páginas das enciclopédias no escritório de meu pai, em casa.
De um dinamarquês correndo disparado para se jogar no mar porque comeu acarajé com muita pimenta na praia de Pitangueiras em Porto Seguro.
De como fiquei feliz com a minha canção, que havia feito apenas porque me encantara pelo tema, virar trilha sonora de um programa mundial de treinamento da ABB, em Horgen, na Suíça.
De meu avô tocando violão para minha avó e ela, na cama, muito doente, talvez nem estivesse mais ouvindo.
Da experiência muito estranha de me sentir fora do corpo quando ouvi o final da “Suíte do Pássaro de Fogo”, sozinho em casa, deitado no chão, no escuro total. Não me lembro se havia bebido.
De como foi difícil lidar com uma morte na minha equipe por acidente de trabalho, em Camaçari.
De como fiquei emocionado lendo a poesia de Florbela Espanca.
De escrever versos e frases no caderno de Carola e ela no meu quando as aulas estavam chatas.
Do guaraná Fratelli-Vita.
De ver todo fim de tarde, duas ruas atrás da nossa, um senhor de cabelos grisalhos empinando um cação vermelho que todo mundo queria cortar e ninguém conseguia.
Da embalagem do leite Alimba em forma de pirâmide.
De dirigir em São Paulo com o Guia Quatro Rodas no porta-luvas.
Do meu aniversário em Liverpool, com “parabéns” e bolinho no Casbah, que me foi entregue pelo guia da visita, Rory Best, irmão do baterista Pete Best, o antecessor do Ringo nos Beatles.
