Silvia Argenta
Lembro-me dos olhos de Thundera e da agilidade da musa Cheetara.
Lembro-me da antena parabólica para ver MTV.
Lembro-me de me contarem que meu namorado foi preso em flagrante na rodoviária depois de um assalto a uma casa de onde roubou um videocassete e uma televisão.
Lembro-me de ficar indignada com os perdidos da Caverna do Dragão. Por causa deles, nunca fugi de casa.
Lembro-me de estar com caxumba, ter o luxo da TV no quarto e chorar quando a Lassie sumiu depois de cair na cachoeira.
Lembro-me de sentar no chão do corredor do cinema lotado para ver Lua de Cristal.
Lembro-me de pessoas de pijama na rua para ver o eclipse do sol, às sete da manhã.
Lembro-me das longas viagens de carro, deitada no banco de trás, vendo a noite escura e ouvindo Milton e seu:
‘Cavaleiro marginal lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
Sem querer descanso nem dominical’.
Lembro-me dos mergulhos noturnos nos raros momentos de mar quente em Floripa.
Lembro-me de deitar na grama para ver o céu primaveril por entre as flores da sakura.
Lembro-me do rio de água cristalina.
Lembro-me de velejar sozinha o barco do timoneiro que caiu na lagoa e não sabia nadar.
Lembro-me de correr para o mar ao ver a briga de dois calangos numa praia deserta e depois ser despejada da água por uma onda com tamanho maior do que eu havia calculado.
Lembro-me das tripas do besouro retiradas pelas unhas da amiga japonesa sorridente.
Lembro-me de ir num gatil com oitenta bichanos para adotar um de qualquer cor, menos preta, e então a única gata preta escalou minha roupa e a levei para casa.
Lembro-me de três matizes de flamingos no pantanal inundado.
Lembro-me da belezura do rasante das andorinhas num vale onde se escondiam para dormir entre as rochas.
Lembro-me de sentir todos os pelos do corpo trêmulo ao descer uma rocha a cento e cinquenta metros de altura.
Lembro-me da tremedeira nas pernas quando fiz rapel na cachoeira.
Lembro-me de subir no pinheiro e gritar por ajuda para descer.
Lembro-me do passo em falso e do cinematográfico tombo na escada caracol.
Lembro-me de quando achei que o piso cinza era uma calçada e acabei caindo numa esterqueira.
Lembro-me do dia que pensei que a lixeira era um banco, sentei e espalhei latas e garrafas no salão da boate.
Lembro-me do último gole de xiboquinha, vestida de Mônica, quando perguntei para o biólogo o que era compostagem. Lembro-me, no outro dia, da meia calça branca com os joelhos sujos do verde da grama sem saber onde larguei o coelhinho nem o que era compostagem.
Lembro-me do motorista de ônibus mais bem-humorado do mundo:
– Moço, já tirei a mala do bagageiro, mas não alcanço a porta para fechar. Pode me ajudar?
– Se vira, madame. E anda logo!
– Não consigo alcançar. É muito alto para mim.
– Vou dar a partida e o problema é teu.
– Ei, você da rua, me ajuda aqui. O moço tem a bunda colada no banco.
– Você não pode pedir ajuda para alguém que não está no ônibus. É contra as regras.
– Se vira, farabutto!
O moço velhaco se levantou do banco, desceu do ônibus e veio possesso na minha direção. Eu fugi correndo e carregando minha mala rosa de rodinhas pela rua de paralelepípedos.
Lembro-me de ser salva por um desconhecido enquanto eu virava boneco de posto sendo arrastada na areia da praia por uma pipa fora do meu controle.
Lembro-me de quando minha mãe desistiu de me explicar a diferença entre movimento de rotação e de translação.
Lembro-me do restaurante giratório no alto de um hotel.
Lembro-me de recusar a escrever para o jornal sobre o salto de bungee jump de um ator pornô para a propaganda de um energético.
Lembro-me de ser demitida depois de amassar e jogar no lixo um papel com instruções impossíveis de serem cumpridas.
Lembro-me de me sentir acuada numa entrevista de emprego quando um homem perguntou se na minha cidade faltava tecido porque a calça estava justa demais.
Lembro-me da vergonha no espelho por não ter o corpo esguio de bailarina.
Lembro-me de não poder fazer aula de lambada por ser muito pequena.
Lembro-me do cheiro de chulé da sapatilha de ponta.
Lembro-me do incenso calmante e da massagem que relaxa o trapézio.
Lembro-me de rodopiar no salão de forró.
Lembro-me da coreografia da ilha do amor Madagascar Olodum.
Lembro-me dos moshs nos meus quinze anos com minhas amigas de permanente no cabelo encostadas na parede sem coragem de dançar.
Lembro-me do suor no rosto pouco antes de me apresentar como bailaora no palco para quinhentos homens num churrasco de final de ano. Foi a única vez que ganhei dinheiro com minha arte.
Lembro-me do LP dos Menudos voando janela afora.
Lembro-me da fita K7 que ouvia quando criança, mesmo sendo proibida.
Lembro-me de entender tudo errado e cantar “te empurrei” em vez de “tempo rei”.
Lembro-me da jarditriste, por que estás tão neira, mas o que ceu que te acontefoi?
Lembro-me das coisas fora do lugar e achar que o doce era de chocolate, mas na verdade era de feijão.
Lembro-me das peças de salame penduradas no varal da cozinha do sítio.
Lembro-me do café da manhã mineiro com cheiro de pão de queijo e cheio de fofoca.
Lembro-me da bronca do meu pai quando eu parava de jantar para reparar na vida dos outros no restaurante.
Lembro-me do tule rosa manchado de café.
Lembro-me do whisky com guaraná derramado nas camisas floridas no baile do Hawaí.
Lembro-me dos abraços afetuosos nos garrafões de Sangue de Boi durante o rock no bosque.
Lembro-me do barulho e do cheiro da cerveja quente jogada no chão.
Lembro-me do muçulmano temente a Alá que colocava whisky na xícara e fingia tomar chá.
Lembro-me das taças de champanhe imóveis na mesinha do trem a mais de duzentos quilômetros por hora.
Lembro-me de não entender nada de física.
Lembro-me de amar a professora mais amada quando ela propunha uma redação com tema específico. Lembro-me de odiar a professora mais amada porque eu achava que precisava ter visão além do alcance e por isso nunca sabia o que escrever quando a redação tinha tema livre.
