Skylab

Fábio Kalvan

Eu lembro de quando li aquele livro de capa dura vermelha pela primeira vez e de imediato quis ser Funes.

Lembro da Skylab, da imagem da Skylab com a Terra lá embaixo e de como ela parecia um helicóptero. Lembro sobretudo de que ela estava caindo e do medo que eu tinha de que ela caísse em cima de casa. Lembro dos dias de pânico.

Lembro da TV Globinho.

Não esqueço do dia em que vi e toquei os seios dela pela primeira vez.

Não esqueço do chão de latoja vermelha da casa da vó.

Lembro que eu quis ser motorista de ônibus.

Lembro de acordar uma noite, olhar para a porta do quarto que dividia com as irmãs e ver um clarão. Aquilo ficou como a prova cabal da existência de fantasmas.

Eu lembro de rir. Rir brincando com o Falcon. E com a berlineta.

Não esqueço do silêncio que fazia no enterro da vó.

Lembro do tapa na boca que a mãe me deu para “aprender a não ser bocudo”.

Lembro do caco de vidro que cortou meu pé num terreno baldio e do chinelo tingido de vermelho.

Lembro do Carlos, de como ele era estranho e ingênuo e do que faziam com ele porque ele era estranho e ingênuo. Lembro sobretudo de que eu nunca fiz nada para ajudar o Carlos.

“Se cair aqui, a gente não devolve”, o pai dizia a respeito da Skylab. Ele ria e eu tinha vontade de chorar.

Lembro de ter dúvidas. Uma delas: como a gente aprender a ler? Seria através de alguma máquina, como o raio-x? Ou seria por um remédio, como o xarope da bronquite?

Eu tinha esquecido mas lembrei agora das máquinas Taito.

Lembro quando flagrei, no meio de carimbos, papéis e computador, o olhar dela.

Eu tento mas não consigo esquecer do dia em que vi meus pais transando.

Lembro das maluquices do Cientista e da esquisitice do Marão.

Lembro dos latidos do Totó, da Dedeia, da Keka e da Cânis. Menos dos da Moha, que ela não latia.

Lembro da primeira bebedeira. Mas só até certo ponto. Lembro bem do mal que faz misturar vodka barata com fanta laranja.

Lembro do dia em que coloquei óculos e constatei a nitidez das estrelas.

Lembro de como ela, de repente, me deixou com as mãos geladas e o coração apertado.

Não esqueço do meu espanto de ver que o mundo continuava a girar apesar do enterro da vó.

Lembro daquela noite fria em que ouvi Smiths pela primeira vez.

Lembro sempre da mãe.

Lembro de sentir medo. Por exemplo, do medo de ser descoberto depois do vidro quebrado na escola.

Eu lembro do cheiro no ar quando ela saia do banho.

Não lembro exatamente da notícia mas sim do alívio. Do alívio que senti ao ouvir no rádio Transglobe, numa tarde ao lado da mãe, a notícia da queda da Skylab em algum oceano distante. Por que eu não estava na escola?

Lembro de, adolescente, desenvolver certa perícia para domar minha cama giratória em noites de muito álcool.

Mais medo. Lembro do medo que sentia achando que você ia embora

Lembro de quando andei no caminhão dos bombeiros. Já não queria mais ser motorista de ônibus.

Lembro da mania de grandeza do Rodrigo e da calma do Chico.

Lembro de como éramos dois estúpidos.

Lembro de aprender certas coisas, de como posições se alternam. Lembro de como me senti mal depois de brigar com o pai por causa do alcoolismo dele.

Lembro de sons, como se eles estivesse aqui do meu lado bem agora. Lembro, por exemplo, do choro mastigado dela no quarto escuro, na noite em que eu disse que queria me separar.

Lembro de invejar a beleza do Paulo e a risado do Pinelli.

Lembro das pessoas pacientes. Lembro especialmente da paciência dela comigo, das falas e dos silêncios.

Lembro de ver o mundo de ponta-cabeça quando Marão conseguiu capotar o Fusca 1969.

Lembro do Ferrorama e do Atari. E lembro do Autorama de um vizinho.

Lembro de minha irmã, uns 4 anos, chorando dentro do guarda-roupa porque o Maluf havia perdido no Colégio Eleitoral.

Lembro de várias vezes em que fui o déspota de um reino de duas pessoas

Lembro de, criança, pensar que no ano 2.000 eu seria alguém. Ano 2.000 que já vai longe.

Lembro de ter tido medo. E culpa. E arrependimento. E alegria. E dúvidas.

Não lembro quando me dei conta de que nunca seria Funes.

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