APESAR DE TUDO

por ian uviedo

Ao contrário do que você imaginava, sua mãe não espera para te encontrar. Em vez disso, ela deixa o baú que ficava em seu antigo quarto na portaria, volta para o carro e dá a partida. Isso te chateia por menos tempo que dura a combustão de um palito de fósforo, e quando está no elevador você já esqueceu. Só o que interessa é o conteúdo daquela caixa do passado, uma cápsula do tempo involuntária criada por uma Melissa Zurita a quem a rebeldia, a arte e a liberdade soavam como nomes de planetas distantes. Ao entrar no apartamento, você vai direto pro quarto, e ao se ajoelhar e abrir o tampo do baú, essa cena lhe parece familiar, como se você já a tivesse assistido num filme. À primeira vista, as relíquias não são valiosas em nenhum sentido. Cartazes de filmes, dvd’s, livros, fotografias e flores secas não te dizem nada, não são o suficiente para abrir a porta da casa onde vive a adolescente que você foi, uma menina magra, de cabelos negros e pesados e a vontade de ser compreendida disfarçada com a angústia, um pouco teatral talvez, de ser incompreendida. Esses objetos todos eram cênicos, e agora, quase dez anos depois, você se esqueceu qual era a peça, o teor do roteiro, que, a julgar pelo que você encontrou, lhe parece desinteressante. A Lissa abissal, que no fundo ainda é a mesma, uma força oculta em algum ponto das suas entranhas, indiferente às fluências do tempo, que permanece inalterada independentemente da roupa que você usa ou a música que você escuta, não comparece à tarde de sábado que você reservou para analisar o seu passado. Essa ausência te dá vontade de chorar, mas você contorna esse impulso alcançando um cigarro em cima da mesa e continuando a vasculhar o resto das coisas que vieram no baú. Entre um pedaço de tecido e um ramo de alecrim desidratado, você encontra um caderno, e mesmo antes de abri-lo, sabe que era o que estava procurando. Você levanta do chão, vai até a sala, senta-se junto da janela que dá para os patamares da galeria Metrópole e o movimento da Avenida São Luís, e fica folheando o caderno, sem deter-se em nenhuma sentença, apenas observando aquelas palavras como se estivessem escritas em outra língua, quem sabe usando um alfabeto extinto há milhares de anos. Você se pergunta por que as palavras podem dizer mais sobre a história pessoal de um indivíduo do que os objetos, uma vez que todas elas são emprestadas dos dicionários e por definição transitórias, efêmeras e traiçoeiras como qualquer símbolo ou entidade tão abstrata quanto a linguagem, enquanto que os objetos, o que equivale a dizer a matéria, realmente entraram em contato com você, foram testemunhas reais de cada um dos seus passos, equivocados ou bem-sucedidos, sobre os quais você mesma despejou a resina de seu próprio tempo, e que estão impregnados com as suas digitais, quiçá até seu cheiro, e seguindo as leis da química de fato têm registrado cada um dos momentos que viveram com você ou longe de você, te aguardando pacientemente no fundo de um baú que só viria a ser aberto numa tarde do acaso, sem abandonar jamais o posto de parte integrante da sua experiência. A resposta para essa pergunta parece a um só tempo óbvia e misteriosa. Do nada, seu indicador direito estaca em uma frase. Data do dia dezenove de fevereiro de dois mil e dez (ou seja, quando você tinha dezoito anos) e diz: Ainda existem quartas-feiras chuvosas, apesar de tudo. A princípio, poderia ser uma frase tocante, não que seja quarta-feira, ainda que o dia esteja mais pra chuvoso, mas você a apreende de uma maneira ambígua, sobretudo porque não se lembra de tê-la escrito, mas é mais do que isso, já que você não se lembra de ter escrito nenhuma das palavras daquele caderno. O que acontece é que você não se lembra de um dia ter sentido ela. Você não se reconhece nela. Você não recorda se já teve qualquer coisa com quartas-feiras chuvosas em particular, o que, convenhamos, visto à luz da prática e da sensatez, não faz muito sentido, principalmente porque essa é a única entrada do caderno que contém esses elementos. Talvez você estivesse bêbada, tendo escrito isso quando queria ter escrito outra coisa, mas é basicamente impossível, já que há dez anos você tomava remédios psiquiátricos que não se davam muito bem com álcool. Ao ler essa frase, porém, você não sente a mesma indiferença que sentiu diante dos objetos do baú, e sim uma inquietação, como se fosse o fragmento perdido da obra de um poeta por quem você desenvolve um súbito interesse. Sim, é isso, você pensa, só pode ser o trecho de algum poema ou livro. Então você volta para o quarto, acende outro camel e abre uma nova aba entre as tantas que se ombreiam no navegador de seu macbook. Ainda existem quartas-feiras chuvosas, apesar de tudo — pesquisar. O resultado é óbvio: previsões do tempo e boletins meteorológicos, que ao menos servem para te dizer que a próxima quarta-feira será chuvosa, mas que não esclarecem em nada a frase escrita pela Melissa Zurita de dezoito anos. Você acrescenta a palavra poema ao final da sentença e tenta de novo. E, de novo, não tem nenhum resultado definitivo, e sim duas diferentes citações. A primeira é de Mário de Andrade (que coincidência! logo o autor de quem Flores recitou uns versos noites atrás, sobre o frio, navalhas e a Espanha), e diz: Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhece os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras. A segunda é de Anne Frank, e diz: Apesar de tudo, ainda acredito que, no íntimo, o homem é bom. A segunda citação acende uma memória. Você se lembra que essa frase é epígrafe do romance Galápagos, de Kurt Vonnegut, livro que você leu e adorou quando ainda morava no México, período que abrange a inscrição desse misterioso dezenove de fevereiro de dois mil e dez. A edição que você leu pertencia a um cliente de Socorro, a restauradora de livros chilena que coabitava com você na república da rua Colima, e que lhe emprestava alguns livros quando havia folga no prazo, o que não era raro, já que ela trabalhava com considerável rapidez. Mesmo tomada pela vontade de mandar uma mensagem para Socorro, em nome dos velhos tempos, você sabe que esse caminho só te desviaria do impulso original. A frase não tem nada a ver com o romance de Kurt Vonnegut. Você opta por uma abordagem mais incisiva, abrindo outra aba e procurando pelo calendário equivalente ao ano de dois mil e dez. Ao abrir o primeiro que encontra, seus olhos percorrem os dias com rapidez, tudo para se deparar com a verdade — dezenove de fevereiro de dois mil e dez foi um sábado. No Brasil, no México e em grande parte do planeta. E com certeza deve ter feito um puta dum sol, você pensa. Quando abre o caderno de novo, buscando, quem sabe, superar a busca por uma circunstância que desse sentido à frase, você percebe com espanto que todas as outras sentenças escritas, mesmo os desenhos nas margens, perderam completamente o sentido; você lê, se reconhece nos escritos, e ainda assim não se conecta a nada, como se em um segundo partículas de apatia tivessem se multiplicado em sua corrente sanguínea. As frases se desprendem do caderno, saltam pela janela e só deixam o gosto amargo dessas sete palavras: Ainda existem quartas-feiras chuvosas, apesar de tudo. Isso te aborrece. Você veste o casaco de camurça preta, calça os coturnos e vai pra rua. O centro da cidade já está quase envolvido por completo pela noite, mas o céu ainda guarda resquícios de nuvens amareladas que se esticam em direção ao leste. No instante em que você chega na Consolação, as luzes de todos os postes — ou quase todos — se acendem. Você vira à esquerda, com vontade de se embrenhar para os lados do centro velho da cidade, mesmo sabendo que o centro histórico e o marco zero de São Paulo são memórias que, assim como as suas, foram inventadas. Mais cedo choveu, e as luzes de natal, tão feias, criam um efeito bonito quando refletidas nas poças. A cidade está úmida e colorida, mas não por isso menos triste. Mais um ano vai chegando ao fim e você considera que, afinal, isso não faz muita diferença. Como medir o fim de algo que envolve tantos começos, fins e recomeços? Todas as coisas têm sua própria durabilidade, e confiar numa sincronia para eventos forjados no caos parece no mínimo imprudente. Nada vai começar nem terminar quando o pavio encontrar a pólvora e os fogos de artifício criarem padrões na escuridão do céu. No máximo um dia, uma noite, mas não muito mais que isso. Os encontros, as fodas, as ideias, os temores, as esperanças ou seja lá o que mais brote dessa conjunção que alguns chamam de vida, vão seguir em seu próprio ritmo, indiferentes a qualquer imposição exata que lhes diga que é tempo de renovação. O fim de um amor, por exemplo, pode se dar numa quarta-feira chuvosa. Ao pensar isso, você sorri como se tivesse encontrado a Lissa de dez anos atrás. Depois você se sente meio estúpida e entra num bar para um Dreher no balcão. Parece mentira que na tv estejam falando da semana chuvosa que se aproxima, com previsão para enchentes ainda maiores que as que alagaram os bairros baixos e deixaram parte da cidade no escuro na semana passada. Como se fosse um poeta branco e europeu do século dezesseis, você pensa na chuva. Desconsidera por um segundo toda a desgraça que ela causa e foca na beleza da coisa. Vai listando nomes de livros, discos e filmes que tenham a palavra chuva. Como um pensamento se emenda em outro, ao lembrar do romance A Chuva Imóvel, do Campos de Carvalho, você se vê numa tarde há um mês, em que você e Alberto caminhavam pelas áreas mais afastadas do Parque do Ibirapuera —  isso é raro entre vocês, passeios diurnos —, e ele trazia debaixo do braço um outro livro deste mesmo autor, A Lua Vem da Ásia. Em algum momento, a troco de nada, Alberto parou sob as folhas de uma corticeira, com o sol rabiscando formas em seu casaco verde, abriu o livro na página onde tinha parado e leu: “A chuva dá de beber aos mortos”, e mais adiante: “não acredito que a sede seja o que mais importune os mortos no seu silêncio, mas a poesia é sempre necessária e é bom que os poetas estejam lembrando-se dos mortos nos dias de chuva, como uma mãe de seus filhos.” Seu vasto repertório sobre a presença da palavra chuva na arte acaba, ou se interrompe, e você começa a pensar em sua mãe, em como ela apenas deixou seu baú na portaria e desapareceu sem ao menos dar um oi; em como você e ela não tiveram nenhuma conversa mais íntima desde que você voltou do México há dois anos. De maneira geral, você não liga pra isso, mas dessa vez se sente cansada. Mata o conhaque, deixa uma nota de cinco embaixo do copo americano e marcha pra casa. Uma vez no apartamento, tira toda a tranqueira de cima da cama, joga os coturnos num canto e adormece imediatamente. Então vem o sonho, que na verdade é uma memória, mas como se ela estivesse sendo vista, digamos, de dentro da água. Tudo é muito lento, os sons são abafados e a luz se refrata em todas as direções. É uma cena da sua infância. Está de manhã, você atravessa o umbral da porta de casa e vê muitas pessoas nos quintais das casas vizinhas. Todas elas usam pijamas e olham para o céu. Você compreende que acontecerá um eclipse, e se desespera, porque pensa que aquelas pessoas ficarão cegas se continuarem assistindo ao espetáculo celestial sem nenhum tipo de proteção. Você é criança e corre para avisar a todos eles, mas por mais que você esperneie, puxe as mangas das camisas e as barras das camisolas, ninguém repara em você, ninguém sequer olha pra você, compenetrados que estão em olhar para o alto. Todos os rostos parecem vazios, e no momento alto do desespero, você já não é mais a menina, e sim você mesma, Melissa Zurita, aos vinte e oito anos de idade, assistindo de fora àquela cena que, de repente, congela. Do meio de algumas pessoas aglomeradas, surge Alberto Flores. Ele é a única parte da paisagem que se movimenta, e vem em sua direção. Alberto está diferente, como se estivesse mais velho, embora a diferença absolutamente não seja essa. Alberto, ou o homem que se faz passar por ele, ou o homem que ele se tornou, para a dez passos de distância e, por mais que você tenha vontade de abraçá-lo, você está paralisada. Aí ele sussurra uma frase, mas o que você ouve não sai da boca dele, e sim de todo o ambiente, reverberando dentro da sua cabeça. A frase é: “existe algo que você esqueceu”. O eclipse fecha o coração da manhã num mosaico e você acorda. É de madrugada, e as luzes da cidade criam padrões nas paredes do quarto. Não é preciso fazer muito esforço pra voltar a dormir. 

Só duas semanas depois, já passado o réveillon, você se dá conta de que dezenove de fevereiro do ano que ficou para trás foi uma quarta-feira chuvosa. 

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