
Dez anos atrás, a produtora RT/Features me convidou a organizar o projeto Essa História Está Diferente. Rodrigo Teixeira me deu carta branca pra convidar 10 escritores a reinventarem 10 canções do Chico Buarque, cujos direitos ele havia comprado integralmente. (Sabem quanto ganhou cada autor pra escrever um conto de 30 mil toques? R$ 20 mil. É. Pois é.)
Verissimo, no entanto, entregou um texto de 17 mil toques. Preocupado com o critério isonômico, afinal havia solicitado o mesmo a gente como João Gilberto Noll, Mia Couto e Mario Bellatin, cheguei até a pedir pra ele para engrossar o caldo da matéria. Mas ele disse, mui humilde, “acho que meu conto tá bem redondinho, não queria mexer não”..
Fazer o quê? Você conseguiria brigar com o Verissimo, mestre supremo da ficção breve?
Bem, o texto é esta delícia supimpa aí embaixo.
(Ah, sim: a antologia está na décima reimpressão. Saiu pela Cia das Letras.)
“Feijoada completa”, de Chico Buarque
mulher
você vai gostar
tô levando uns amigos pra conversar
eles vão com uma fome que nem me contem
eles vão com uma sede de anteontem
salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
e vamos botar água no feijão
mulher
não vá se afobar
não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
e prepare as linguiças pro tira-gosto
uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
e vamos botar água no feijão
mulher
você vai fritar
um montão de torresmo pra acompanhar
arroz branco, farofa e a malagueta
a laranja-baía ou da seleta
joga o paio, carne-seca, toucinho no caldeirão
e vamos botar água no feijão
mulher
depois de salgar
faça um bom refogado, que é pra engrossar
aproveite a gordura da frigideira
pra melhor temperar a couve mineira
diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
e vamos botar água no feijão
“Feijoada completa”, Luis Fernando Verissimo
Carolina olha Pedro dormir. Está acordada há tempo. Tem dormido mal. Acorda várias vezes durante a noite. Está assim desde que tomou a decisão de deixar o Pedro. Não sabe como dizer que vai deixá-lo. Que não pode mais, que não aguenta, que chega.
— Pedro…
— Ahn.
Carolina não consegue ir adiante. Pedro está sorrindo. Dormindo e sorrindo. Até dormindo o filho da puta é simpático.
Dizer o quê? “Pedro, acorda que eu quero te dizer uma coisa. Eu vou embora. Nosso casamento acabou, viu? Não deu certo. Ponto final. Agora pode voltar a dormir.”
Não. Melhor deixar para outro dia. Ou não dizer nada. Ir embora e pronto. Telefonar da casa da Milene, dizer pelo telefone.
Isso. Sem precisar ver a cara dele, sem ele poder mexer com o cabelo dela e dizer “Carol, Carolzinha, o que é isso?” como sempre faz quando ela perde a paciência com ele. Com voz de injustiçado. Isso, melhor dizer pelo telefone. Sem remorso.
Não. Agora. Tem que ser agora.
— Pedro.
— Quê?
— Acorda.
Ele abre um olho.
— Que horas são?
— Não sei. Sete.
— Sete? Ó, Carol! Hoje é sábado!
É mesmo. Ela tinha esquecido. Sábado. Dia de acordar tarde.
Dia do futebol dele. Dia de feijoada depois do futebol. Ela botara o feijão de molho na noite anterior, como fazia todas as sextas-feiras. Como podia ter esquecido? Era a falta de sono.
— Dorme, vai.
Nove horas. Os dois na cozinha, ela fazendo o café. A barriga dele esticando a camiseta, o umbigo à mostra.
— Como é que você pode jogar com essa barriga?
— Sou meia-de-ligação. Não precisa correr muito. Cadencio o jogo. Tudo em cima pra feijoada?
— Vão ser quantos?
— Os de sempre. O Toca, o Binho, o Alaor, talvez uma das mulheres.
— Não me diz que vem a Luizinha Bundinha.
— Não. Ela e o Binho se separaram.
— Eles eram casados?
— E eu sei? Acho que eram.
— É, às vezes não dá certo.
— O nosso deu, né, nega?
Agarrando-a por trás. Agora, pensa ela. Só uma frase, para prepará-lo. Um preâmbulo para o que virá. “Será que deu certo?” Ou: “Não tenho tanta certeza…”. Mas não. Ela não tem coragem. Diz:
— Não esfrega essa barriga nojenta em mim.
Olhando ele tomar café, xícara numa mão e pão na outra, de pé, pronto para sair correndo para o seu amado futebol, ela pensa: é um pobre tipo. Onde foi que ouviu aquilo? Pobre tipo.
Está sempre bem-humorado. Simpático até dormindo. E com toda a simpatia não ultrapassa sua cota mínima como vendedor do laboratório, não progride, não traz dinheiro para casa. Mas não perde o bom humor. Pobre tipo. Quem é que dizia aquilo? A Jeanne Moreau. Naquele filme francês, qual era mesmo? “Pauvre type.” Os cantos da boca virados para baixo. Significando desdém absoluto. Era o que ele merecia. Era um “pauvre type”. Ela pensa:
às vezes faz falta uma boca como a da Jeanne Moreau.
— Tchau, nega. Beijo.
— Tá. Tchau.
Carolina e Milene no telefone.
— E aí, mulher?
— Não consegui. Não tive coragem.
— Você só está prolongando a agonia, Carol.
— Eu sei, eu sei. Mas sei lá.
— Sai daí agora. Pega as tuas coisas e vem pra cá. Deixa um bilhete.
— Um bilhete? Você acha?
— Fica mais fácil.
— Não pode ser só um bilhete. Tem que ser no mínimo uma carta.
— Então escreve a carta.
— Você acha?
O Pedro gosta de dizer que a mulher estudou. Que lê, sabe línguas, vai ver filme francês. E que ele é um grosso. Que ela casou com ele pela sua beleza física. Só pode ser, já que pelo intelecto não foi. Sim, ela vai escrever uma carta. Escrevia muito para o pai, em Minas, quando ele ainda era vivo. E ele respondia dizendo “Suas cartas estão cada vez melhores”. Deixaria uma carta para o Pedro. Dizendo tudo. Dizendo o quê? Que não aguenta mais, que chega. Mas com jeito.
— Vou escrever a carta.
— Você quer que eu vá até aí ajudar você a trazer suas coisas?
— Não, não. Pode deixar.
Perto das onze, o Pedro telefona para casa.
— Carol, escuta só. O seu Menezes está jogando futebol conosco.
— Quem é o seu Menezes?
— Quem é o seu Menezes, Carol? É só o dono do laboratório.
Ou o chefão deles aqui no Brasil. O Alaor falou do nosso jogo e ele veio. Puta surpresa. Ele e mais o Estevão de vendas. O meu chefe, Carol. Os meus dois chefes. E escuta: os dois vão
comer aí em casa. O Menezes já tinha ouvido falar da nossa feijoada e quer provar.
— Pedro…
— Em suma: põe mais água no feijão. Vai chegar todo mundo com uma fome e uma sede de anteontem. Como é que nós estamos de cerveja?
— Não sei, não sei. Tem que ver.
— Põe no freezer.
— Mas pra quanta gente?
— Um batalhão, Carol.
E agora? Liga para a Milene. A Milene não ajuda.
— Sai daí, Carol. Não faz essa feijoada.
— Mas vem o patrão dele. Vem um batalhão. Vai ser importante pra ele, no emprego.
— Azar. Ou melhor assim. Desse jeito acaba tudo com um desastre. Um vexame. Uma feijoada negada. Nada marca o fim definitivo de uma relação como uma feijoada negada.
— Também não é assim.
— Tem que ser assim, Carol. Um corte total. Ele não está acostumado a chegar em casa e estar tudo pronto, feijão no fogo e couve cortada? Pois deixa ele ver como vai ser sem você. Sem a escrava dele obedecendo ordens.
— Ele sempre foi carinhoso comigo, Milene.
— Nunca te deu valor, isto sim. Foi um songamonga. Um imprestável. Escreve a carta e sai daí, Carol.
— Já escrevi a carta.
— Então sai!
Dez minutos depois, o Pedro de novo.
— Como é que está indo?
— Pedro, eu…
— Não precisa se afobar. Olha, na mesa não vai dar pra todo mundo. Arruma a mesinha da sala, ou a da cozinha. Outra coisa: prepara umas linguiças pra tira-gosto. Tem linguiça?
— Acho que tem.
— E caipirinha! Cumbuca de gelo, limão… Como é que nós estamos de cachaça? Acho que sobrou do sábado passado.
— Pedro, você não está jogando não?
— O seu Menezes entrou no meu lugar. Eu pedi pra sair.
— Por quê? Sentiu alguma coisa?
— Não, foi só pro seu Menezes entrar de meia-ligação. Ele está em pior forma do que eu. É ruim que dói.
— Pedro, olha…
— Ih, acho que o seu Estevão se machucou. Está caído no campo. Vou ter que desligar. Não esquece a linguiça!
O pai dela dizia: “Ele não é homem para você, Carolina”.
Era simpático, certo. Boa-praça. Mas… O pai não dizia “Ele não está à sua altura”, mas era o que pensava. Não criara e educara a filha, piano, Aliança Francesa, história da arte, para casar com alguém como o Pedro. Mas ela casara com o Pedro. Ele era um homem bonito, antes de engordar. E era carinhoso. Sempre fora carinhoso. Quando ela perdia a paciência com ele, ele afagava sua cabeça e dizia “Carol, Carolzinha, o que é isso?”. E os diálogos eram sempre os mesmos.
— Francamente, Pedro!
— Carolzinha… Desculpe!
Ela se adaptara à vida e aos gostos do Pedro. Tolerava o sagrado futebol dos sábados no sítio do Alaor, que era propagandista do mesmo laboratório e ganhava o dobro do que o Pedro em comissões. Aprendera a fazer feijoada com a mãe do Pedro. Tolerava os colegas de trabalho que o Pedro trazia para casa depois do futebol. O Binho, que tocava violão e cantava, ou pensava que cantava, e cujo repertório era de matar. O Toca, que era
sempre o último a sair e às vezes precisava ser corrido para casa.
Tolerava até a Luizinha quando o Binho a trazia, Luizinha e seu shortinho apertado com metade da bunda de fora. Uma noite, depois de beber um pouco, Pedro começara a falar
sério. Deitado na cama, enquanto ela se preparava para dormir. Ela nunca o ouvira falar daquele jeito. Até a chamando de Carolina em vez de Carol.
— Eu atrasei a sua vida, não é, Carolina?
— Como, atrasou a minha vida?
— Tudo o que você podia ter sido. O piano…
— Ó, Pedro. Que piano? Eu só estudei piano porque papai insistiu.
— Mas você tocava bem. Me lembro do nosso noivado. O que era aquilo? Chopen?
— Mozart.
— Você tocava bem. Podia ter sido uma concertista. Podia ter tido outra vida.
Ela se deitara ao seu lado. E mentira:
— Minha vida é ótima.
— Podia ter tido outro marido
Ela o abraçara e mentira de novo:
— Estou satisfeita com este.
— Desculpe, viu, Carolina.
— Ó, Pedro, você é engraçado. Quando não bebe é alegre como um bêbado. Quando bebe, fica sóbrio.
— Eu sou um atraso na sua vida.
— Não seja bobo.
E ele dormira com a cabeça no peito dela e a boca aberta.
Carolina no quarto. Mala, onde tem mala? Nos filmes, sempre que alguém vai sair de casa abre uma mala e começa a jogar roupa dentro. Ela não encontra nem a mala. Está no armário do corredor. Ela abre a porta do armário. A mala está embaixo do aspirador, de mil coisas. E vou levar o quê? Minha roupa toda não cabe numa mala. Levo pouca coisa. Roupa de baixo e pouca coisa mais. Numa sacola. Depois venho buscar o resto, quando acertar a situação com o Pedro. O Pedro nunca vai aceitar a situação.
O Pedro vai ter um troço. O Pedro…
Toca o telefone. É o Pedro.
— Nega, me lembrei. Não esquece o torresmo. Frita um montão.
— Ahn.
— Não esquece o arroz branco e a farofa. E a malagueta.
— Eu…
— Laranja-baía ou da seleta. Cê tá ouvindo?
— Estou, Pedro.
— Paio, carne-seca, toucinho…
— Eu sei, Pedro.
— Adivinha de onde eu estou ligando? Do hospital!
— O quê? Por que…
— O seu Estevão levou um pisão no pé e eu trouxe ele aqui pra tirar uma chapa. Não foi nada. Estão enfaixando o pé dele. E o jogo continua.
— Mas ele está bem?
— Está, está. Foi se meter a jogar de centroavante, a defesa era só de gente do departamento que ele chefia, tudo com bronca dele… Já viu, né?
— Mas… Vocês vão voltar pro jogo?
— Eu vou. O seu Estevão acho que vai pra casa.
— Pedro, quem sabe a gente…
— Deixa eu ir embora que quando eu saí o jogo tava cinco a cinco.
— Pedro…
— Bota água nesse feijão!
Carolina pensa: ele deve ter se apresentado para abandonar o futebol e levar o chefe ao hospital. Típico do Pedro. É sempre o que se apresenta, o que quer ajudar. Não foi para fazer média com o chefe, disso ela tem certeza. Seria um sinal de esperteza, de ambição. O Pedro não tem maldade nem ambição.
Ela escrevera isso na carta: você não tem ambição, não tem um objetivo na vida e eu não posso continuar assim. Não queria magoá-lo, mas não aguentava mais.
A Milene tinha razão. Era melhor sair daquele jeito. Com um corte impiedoso. Imaginava ele chegando em casa com os amigos, com o seu Menezes, com um batalhão, e não encontrando nem ela nem a feijoada. Ele lendo a carta, a lista das coisas que ela não aguentava mais, o adeus. Ele… Ele o quê? Tendo um acesso de raiva? Chutando os móveis? Chorando. Provavelmente chorando. Típico do Pedro. Onde deixar a carta? Na mesa da sala de jantar, não. Ele teria que ler na frente dos outros, seria constrangedor. No quarto. Em cima da cama. Em cima do travesseiro dele. Pronto. Feito. Fim. Vou-me embora. Sem remorso, pensa ela, chaveando a porta da frente, levando roupa de baixo e pouca coisa mais numa sacola. A carta explica tudo. Depois a gente conversa. Ele vai acabar entendendo. Sem remorso.
Ela já está quase chegando na casa da Milene quando seu celular toca.
— Nega? Telefonei pra casa e você não tava lá.
— Saí pra pegar mais cerveja no bar do seu Lírio.
— O dinheiro vai dar?
— Não sei. Vamos ver. Onde você está?
— No campo. O seu Estevão veio junto. Com o pé enfaixado.
— Ele não ia pra casa?
— Veio pra tirar satisfação do Foguinho, que foi quem deu o pisão no pé dele. O maior rebu. Quis brigar. Eu tive que defender o Foguinho.
— Pedro, você brigou com o seu chefe? E ele com o pé enfaixado?
— Briguei. Amigo é amigo. Nessas horas não tem chefe.
— Pedro…
— E tá dando tudo errado. O seu Menezes foi bater um lateral e mexeu num ninho de marimbondo. Levou a maior ferrada. Tá lá o Alaor tratando do inchaço, só falta chupar o pescoço dele, mas o seu Menezes não quer conversa. Acho que também vai embora.
— Pedro, quem sabe a gente suspende a feijoada?
— O quê? Que nada. Agora mesmo é que tem que sair. Alguma coisa tem que dar certo hoje. Você se lembrou de fazer um bom refogado?
— Fiz. Não, ainda não.
— Aproveita a gordura da frigideira pra temperar a couve.
— Tá, Pedro.
— Essa feijoada tem que ser especial. E olha, se o dinheiro não der, pede pro seu Lírio pendurar. Ele é nosso irmão.
— Eu sei.
— Beijo. O jogo tá recomeçando. Eu vou entrar no lugar do Menezes. Lá pelas três a gente está aí.
Na casa da Milene. As duas sentadas na cozinha. Milene:
— Você fez a coisa certa, Carol. Não fica com essa cara.
— Será que fiz?
— Fez, Carol. Esse casamento não tinha futuro. Vá tratar da sua vida. Você pode ficar aqui o tempo que quiser.
— Sei não, sei não.
De repente, Carol se levanta e pergunta:
— Que horas são?
— Quinze pras duas.
— Eu vou voltar.
— Carol, não seja…
— Eles vão estar chegando lá pelas três. Vou fazer a feijoada.
— Tá louca, Carol. Fazer uma feijoada em meia hora?
— Na panela de pressão, dá.
— Carol…
— É uma feijoada especial. Ele vai chegar chateado. Provavelmente perdeu o emprego, depois de brigar com o chefe. Vai querer esquecer tudo, com os amigos, com a caipirinha, com a cerveja. Ele vive para esses sábados, pro futebol e pra feijoada, Milene. Eu não posso fazer isso com ele. Eu não sou um monstro, Milene.
— Ai, meu santo…
— Me empresta um dinheiro pra comprar cerveja?
— Ah, não. Eu não vou financiar essa loucura. Aí fico eu com remorso.
— Você tem linguiça em casa? Me empresta umas linguiças.
— Você enlouqueceu, mulher!
Na volta para casa, Carolina faz um inventário mental. Torresmo tem. Arroz branco, farofa e malagueta, tem. Cachaça e limão, acho que tem. Paio e carne-seca, acho que não. O toucinho vai ter que trabalhar dobrado pra dar o gosto. Esquece a couve mineira, esquece a laranja, esquece a linguiça. Passo no seu Lírio e peço pra pendurar as cervejas. Depois corro pra casa.
Vai dar. Com sorte, vai dar.
Dá. Quando a turma chega a panela de pressão ainda está vibrando no fogão mas o feijão está quase pronto. Em vez do batalhão vieram os de sempre, mais a namorada nova do Binho, uma anti-Luizinha discretamente vestida de blusa solta e jeans, que não tira os óculos escuros e não fala com ninguém. Todos comentam o jogo, que terminou oito a sete, e os desastres do dia. Estão provavelmente todos despedidos do laboratório, com exceção, talvez, do Alaor, que só faltou carregar o seu Menezes no colo depois do ataque dos marimbondos.
A caipirinha acaba logo mas a cerveja não. O Binho ameaça pegar o violão no carro para cantar, como faz todos os sábados, mas sua nova namorada diz: “Por favor, não”, conquistando a simpatia geral. Depois que sai o Toca, que é sempre o último do grupo a sair, Pedro abraça Carolina por trás e diz:
— Sabe o que a mamãe diria de feijoada feita em panela de pressão? “Que pecado!”
— Eu me atrasei um pouco, Pedro. Foi o que deu pra fazer.
— O que é isso, nega? Foi a melhor feijoada que eu já comi.
— Não estava completa, mas…
— Estava ótima.
Depois, no banheiro, antes de se deitar, se olhando no espelho, Carolina tenta imitar Jeanne Moreau dizendo “pauvre type”. Os cantos da boca puxados para baixo. “Pauvre type.” Não consegue.
Ele é um pobre tipo. O que se pode dizer de alguém que defende um amigo sabendo que pode lhe custar o emprego? Que é apenas o Pedro sendo o Pedro, um que nunca vai ser outra coisa.
Que nunca vai ser nada na vida. E eu vou ser nada ao lado dele, por todos os sábados da nossa existência. Não consigo imitar a Jeanne Moreau dizendo “pauvre type”. Me falta a boca da Jeanne Moreau. Eu não sou um monstro.
Nisso o Pedro bate na porta do banheiro e pergunta:
— Carol, que envelope é esse em cima do meu travesseiro?
PROPOSTA
Bem, é mais ou menos isso o que você vai fazer. Vai pegar uma canção que você gosta e escrever uma ficção breve a partir dela.
Mas como?
Analisemos o esquema do Verissimo.
Ele parte da música do Chico em que um sujeito folgado pede pra mulher fazer uma feijoada pra turma dele. É só isso a música.
Mas como são essas pessoas?, Verissimo se perguntou. E criou as psicologias de Pedro, Carol e Milene. Pedro é um pobre-diabo gente-fina, que come bem a Carol, é bonitinho e por isso ela vai empurrando o casamento com a barriga. Carol é uma garota bacana e carinhosa que em vez de ter aproveitado o seu talento artístico, como o pai pedia, preferiu a comodidade de manter o casamento com um traste simpático e empatou a vida. Por fim, Milene é a amiga que avisa Carol que tem um feijão em seu dente, ou seja, que sua vida na verdade está uma merda e ela não está tão bem na foto assim.
Mas bem no dia em que Carol resolve colocar um fim àquela situação, aparece a famosa dupla feijoada-jogo de sábado, um evento religioso do marido de que ela faz parte como uma serviçal. Carol está dividida: ao mesmo tempo em que se vê como uma coadjuvante da vida de Pedro, gosta muito dele e não consegue se ver sem ele.
Ainda assim, resolve se separar.
A narrativa, assim, está estruturada em duas histórias. A história de Pedro, que liga o tempo todo, de modo vivaz, alegre, divertido, contando a lorota do jogo – narrativa que ela adora ouvir: Pedro é sua Scheherazade. Na outra orelha, entra a história de seu fracasso no casamento, dividido com a amiga – uma narrativa triste, porém verdadeira e que embute o seu inconformismo.
Milene é a consciência de Carol: é ela quem faz com que a narrativa ganhe tensão.
Qual das duas narrativas vai ganhar esse jogo?
Verissimo, esperto, joga pelo empate. Coloca Carol na cozinha. Mas também coloca a carta da Carol na mesa, ou melhor, na cama – aliás, na última frase, pra que não tenhamos dúvida sobre a resolução da, afinal, protagonista deste conto.
Você vai fazer o mesmo. Vai pegar uma canção que gosta muito e destrinchá-la em personagens e duas narrativas. As duas narrativas vão brigar uma com a outra até o desfecho.
Use, para narrar seu conto, as técnicas do Verissimo: diálogos, cenas curtas, rápidas pinceladas descritivas, tanto físicas quanto psicológicas. Seja sucinto, vá direto ao osso.
Narre na terceira pessoa.
E já que você não tem mesmo nada pra fazer e está preso em casa, escreva aí no máximo 10 mil toques.
