por Américo Paim
– Preciso sim, venha, amiga.
– É o tempo de me arrumar aqui, mas fique calma, mulher, vai dar tudo certo.
– Lhe espero pro café – você encerra a ligação.
Anda até a sacada. Tenta tragar fundo a maresia. Você sempre gostou desse cheiro e mudar-se para um apartamento no Rio Vermelho foi um movimento certo, ainda mais com essa vista do nono andar. Você olha a Igreja de Sant’Ana ao longe e aceita que toda ajuda seria válida. Lá embaixo a vida segue seu ritmo normal, pessoas na malhação, o barulho do trânsito, aves bailando por comida, o mar a quebrar forte nas pedras, próximo à quadra de futebol que já está bem movimentada e lá longe um navio que parece ser grande. O vento da manhã de verão mistura os cabelos que você ainda nem penteou. Você vai ao espelho do banheiro e cumprimenta sem paciência suas velhas remelas em forma de centopeia, que só se desfazem com água. Pensa que poderia chorar logo o que está lhe sufocando e aproveitar para limpar tudo junto, mas não passa de um soluço. Seu rosto amassado no espelho não lhe dá pistas sobre como fazer o dia de hoje ser diferente dos outros.
Você vai fazer café. Núbia ainda deve levar uma hora. Você conhece bem a rainha do atraso e nem fica agoniada com isso. O que precisa mesmo é de alguém que lhe dê um chão, ajude a clarear. Ela é boa nisso, fala na tora. Você pega xícaras, pires, talheres, pão e manteiga, mas o queijo lhe escapole e cai. Na hora você pensa na desastrada que é sua amiga e começa a rir, lembrando das tantas confusões em que estiveram juntas. A mais recente não lhe sai da cabeça. Como é possível alguém confundir uma lata de lixo com um banquinho, sentar nele e esparramar latas, papeis e garrafas pelo chão da boate, bem na hora em que acabou de ser apresentada ao carinha com quem queria ficar? Você ri mais alto.
Como ainda tem algum tempo, você aproveita para arrumar a bagunça na mesa da sala. Sempre que decide mexer nas fotografias e outras coisas antigas para organizar melhor, acontece o mesmo desfecho. Se perde em devaneios e não termina nem dez por cento do que planejou. Ontem não foi diferente, claro, mas foi divertido olhar as fotos, em especial as dos avós paternos. Dona Alice era tão bonita e lúcida, você recorda. Que falta me faz sua cabeça cheia de histórias para me acarinhar e abrir os olhos. Volta à cozinha e pega um pêssego que não quer comer, mas ficar alisando a fruta com delicadeza, só para lembrar a textura da pele macia e finíssima de sua querida avó. Seus olhos marejam. Você anda mais sensível desde o fim do tal namoro, ainda mais como acabou.
Quando Núbia chega, você acha que está melhor. Ela traz metade de um bolo de aipim e já vem toda em sorrisos e gestos, sem lhe dar espaço para lamúrias.
– Minha filha, que calor é esse?
– Tá brabo, né?
– Olha como eu tô – ela lhe mostra a testa suada.
– Vai lavar a fuça!
– Tira esse bolo do saco aí. Tá uma delícia! – fala enquanto vai ao banheiro.
– Tá com uma cara boa mesmo – você diz.
– Minha filha, que bagunça é essa na pia, bebê? – ela volta.
– Ah, deixa aí. Comecei e parei. Depois eu resolvo. Vamos pra sala.
– Oxe, deixo mesmo. Ainda mais com esse cheiro enjoado de detergente de morango! Me dá ginge!
Depois de muita atualização durante o café com bolo, você propõe a varanda para continuarem a conversa. Mais ar não fará mal, pensa. Sentam-se e ela lhe lança aquele olhar de atenção que bem conhece. Você fecha os olhos, respira fundo e vai falar, quando ela se adianta.
– Ressaca de Gilberto de novo, né, nega?
– Ai, ai, lá vem…
– Não, pera, tô errada? Conheço essa carinha de acarajé sem vatapá que você faz toda vez que tá fudida por causa de homem. Desembucha.
– Você é de lascar. Não é como tá imaginando, não.
– Ué, o que pode ser?
– Fui chamada para depor na delegacia.
– Outra vez, meu Jesus Cristinho? Não tava tudo resolvido?
– Pois é, deveria, mas parece que não ficou só naquele flagra.
– Explica aí.
– O furto da TV e videocassete, bizarro por si só, parece ser parte de coisa maior. Tem uma quadrilha ligada ao tráfico que anda fazendo isso em vários bairros aqui de Soterópolis, fia. E o abençoado tá mais sujo que pau de galinheiro.
– Deve ser sério mesmo. Essa sua cara aí…
– Tô lhe dizendo…
– Não me canso: como alguém tem esses aparelhos nos dias de hoje e ainda existe gente pra roubar isso? Então seu ladrão retrô é do crime organizado? É chique, eu não vou mentir…
– Para de fazer graça, menina! Eu tô preocupada.
– Com o que, por favor? O namoro já foi faz tempo, fim de assunto, acabou a treta. Parte pra outra. Que
cara de segunda-feira é essa?
– Não é o depoimento. Sou eu.
– É o que?
– Eu não consigo ver o que as pessoas realmente são. Os sinais estavam lá e eu passei batida.
– Mas que sinais, criatura de Deus?
– As mentiras, os atrasos, os bolos que me deu – já devia ser tudo por causa dos roubos. E minhas joias sumidas, que ele quase me convenceu que eu devo ter perdido? Tá na cara, né?
– Ainda nada?
– Tenho esperança que o delegado me fale sobre isso.
– Você tá exagerando com essa autopunição, véi!
– Claro que não! Fui muito cega! – você se levanta.
Núbia entende o que está para acontecer e vai lhe abraçar segundos antes que você desabe a chorar. Ela ainda não sabe o quanto ou todas as suas razões, mas está lá para você, como sempre. Pega um guardanapo na mesa e lhe ajuda a limpar o rosto. Ficam abraçadas a olhar o mar por alguns minutos. Você se acalma e continua a falar.
– Ontem eu tava de bobeira e resolvi assistir àquele filme que lhe falei, lembra?
– Qual?
– “Dogville”.
– Ai, minha mãe do céu… Aquele das casas sem parede? Muito cabeça, né, minha filha? Por que não assistiu a uns mais românticos, tipo Schwarzenegger, The Rock…
– Para com isso, sua palhaça – vocês riem, mas logo volta sua melancolia. Teve uma frase no filme que acabou comigo: “todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis”. Fiquei mal quando ouvi isso.
– Como assim?
– Sou eu toda! As pessoas me fazem coisas ruins e eu sempre perdoo. No fim, quem se lasca sou eu. Com Giba foi assim.
– Oi? Silvia, tá doida é?
– Viu? Até chamei pelo apelido. Como se ele fosse entrar pela porta agora e ficar comigo, normal.
– Tá impressionada com tudo ainda. Leva o carro, motô! Já já aparece um carinha decente – falou com gesto exagerado.
Você ouve a amiga, mas sabe que não é assim fácil. Se ele viesse lhe procurar, você o descartaria mesmo ou ficaria ouvindo suas explicações mirabolantes e cairia fácil? É coisa séria, é crime, você pondera em silêncio de culpa. Mas ele era retado na sedução. Ele ia falar dos mergulhos noturnos românticas na praia em Floripa, do acampamento na Chapada, quando fumaram unzinho à luz da lua, da dancinha por causa da camiseta escrito Madagascar Olodum que você usou no dia da primeira transa. Várias lembranças que, somadas à sua carência, seriam fatais. Fora o olhar pidão que ele lançava toda vez que sabia que tinha feito ou falado merda. Você se afunda em arrependimentos, mas volta ao papo.
– Binha, o que eu faço?
– Olhe só – segura sua mão e lhe olha com carinho. Não é nenhuma aula de Física que você ficava tentando entender rotação e translação e nunca conseguia. Aqui na vida real você consegue! – as duas caem na risada.
– Só você pra me fazer rir hoje…
– É sério. O cara é bandido, nega. Aí você vaza!
– Tenho que, né?
– É! Bem assim. Segura na mão de Deus e vai. Tem coisa muito pior na vida. Olha só o caso da Mariana,
aquela amiga de Recife que lhe contei outro dia.
– Aquela que o pai morreu no acidente de moto quando ela era criança?
– Isso. A pobre agora está internada tratando o alcoolismo. Tão nova. Dá pena, véi.
– Por que lembrou dela agora?
– Porque acho que a gente devia sair e tomar todas hoje, que tal?
– É uma, né? Aliás que dia é hoje?
– Já é sábado, Sil, tá tonta é?
– Sempre me perco, você sabe. E o pior é que isso me lembra o Gilberto…
– Por que raio?
– O cachorro sempre sabia os dias da semana.
