Silvia Argenta
A caixa das memórias estava escondida no fundo do armário. Você certamente entende do que estou falando. Era para continuar lá quietinha no seu devido lugar, mas a mudança para um apartamento menor te obriga a remexer nos objetos para uma nova seleção. Você sabe que não vai conseguir jogar muita coisa fora. Mesmo assim, abre a caixa e vê jogos, bichinho de pelúcia que ganhou do ex, camiseta do uniforme assinada pelos colegas da escola no final do ano. Tudo aquilo guardado e você nem sabe para quê. De qualquer forma, a cada vez que mexe na caixa, você foca em um departamento específico para não se sobrecarregar. Na última limpa, há cinco anos, você encarou os lápis de cor guardados desde a primeira série. Não eliminou tudo, mas deu uma bela organizada. Só que isso não foi suficiente para a tampa da caixa de papelão passar a fechar direito, e você precisou lacrar de novo com uma fita crepe para evitar que as coisas se espalhassem pelo armário. Sim, porque tem horas que as coisas, assim como as memórias, parecem ter vida própria. Nem sobre elas você tem controle.
Dessa vez, o foco da organização são os papéis. Tem algumas pastas socadas de escritos e desenhos que você não faz a menor ideia do que sejam. Como não tem jeito de adiar a saga, abre uma por uma e começa a separar os papéis em cima da cama conforme o assunto. Você tenta encontrar algum tipo de lógica para o que vai manter e o que vai jogar fora. As pilhas vão aumentando e então você decide que não vai mexer nos desenhos e os coloca de novo nas pastas. Fica para uma próxima. Você agora está de olho nos envelopes, papéis de carta, bloquinhos e cadernos. Mexe neles e encontra confissões, desabafos, redações antigas. Algumas anotações te remetem a uma vaga lembrança, mas sem muita certeza do que se trata, até que você encontra um diário de capa cinza e decide abrir.
Você não encontra nenhum registro de data, mas reconhece sua letra do tempo de pré-adolescente nas poucas folhas usadas. Começa contando de um pesadelo em que um ladrão entrou na sua casa enquanto você estava dentro de um banheiro de azulejos rosa, olhando o espelho do armário embutido em cima da pia. Você, indefesa, enfatiza a imagem do ladrão no espelho. Apesar de não ter escrito os detalhes físicos dele, essa situação deve ter te impressionado muito, pois acordou assustada. Depois, você divaga sobre o porquê de ter sonhado com isso e acha que os azulejos rosa apareceram por causa do cheiro de detergente de morango da sala de aula, onde você passava boa parte do dia. Era o mesmo cheiro que anos antes você tinha sentido em todos os banheiros do Uruguai. Devia ser entorpecente e estava marcado na memória. E ainda está. Tanto que ao ler, você volta a senti-lo mesmo às voltas com papéis, que nada lembram morangos nem detergentes.
Na página seguinte, você fala do mimeógrafo, aquele aparelho do século passado, que também tinha um cheiro de entorpecer. Você diz que gostava de ir até a sala onde se faziam as cópias estampadas com ursinhos para levar aos seus colegas as folhas recém-passadas pela máquina à manivela. Aqui deve ter sido naquela fase antes de virar tímida, já que você escreveu que ficava conversando com os adultos enquanto esperava as reproduções ficarem prontas. Numa dessas andanças, você contou para os professores que estava na cidade de sua avó quando leu pela primeira vez a palavra “funilaria”. Sem nunca tê-la escutado, você leu “funilária” e achou que era da família da “funerária”. Todos na sala riram e você se sentiu bem por ser notada. Mas apesar de gostar do cheiro do mimeógrafo e da companhia dos adultos, você narra como te deu uma gastura quando, sem querer, tocou o cabelo com laquê da professora. O nojo perdura até hoje.
Depois disso, você pula várias páginas em branco e encontra mais anotações no final do diário. Você lê sobre os passeios no bosque pelas manhãs com sua mãe, antes de ir para a escola. Conta que uma das partes do ritual de caminhada era entrar numa mata fake que tinha uma nascente de água de verdade. Sua mãe te deixava tirar o tênis e pisar na água, mas você nunca gostou de colocar de novo a meia no pé sujo e melado. Noutras vezes, ficava em pânico de tentar pular a nascente e pisar de tênis dentro da água. Também fala de quando o zelador te levou para a coordenação porque você ficou amarrando o tênis diante do portão da escola, um pé depois o outro, e assim por dez minutos. Era para enrolar e chegar atrasada na aula de educação física. Pelo menos nesse dia não precisou ir à aula. Esse tênis era tão xodó que você desabafa, como último texto do diário, sobre o dia que sua mãe jogou o Bamba branco fora. Apesar da tua insistência em ficar com ele, ela disse que era lixo e você nunca mais o viu. Para substituí-lo, sua mãe te deu uma sapatilha horrorosa e a partir daí não houve mais passeios no bosque.
Você está quase fechando o diário quando encontra colado com durex na contracapa um cadarço azul. Você nunca teve um tênis azul. O Bamba era branco com cadarço branco. Às vezes encardido, mas era branco. Por que teria um cadarço azul e ainda guardado ali no diário? Estranhando isso, você passa a desacreditar das histórias tão distantes. Você então entende que são memórias de segunda mão, daquelas que não aparecem espontaneamente na sua cabeça. Precisa de um estímulo para que você se recorde da situação e, mesmo que as memórias de segunda mão estejam documentadas, não parece que foi você quem as viveu. Pelo menos não nessa vida. São experiências suas, mas que alguém já pode ter passado por isso. Nada do que acontece com você é inédito no mundo. Você sonha com a imagem do ladrão no espelho e fica abrigada no banheiro cor de rosa. Será que você não viveu isso de verdade? Ou sonhou porque viu algo parecido na televisão? Você descreve como ficava bem entre adultos. Consegue perceber que você queria evitar seus colegas? Ou não é nada disso? Você faz essas reflexões e então se pergunta qual a importância de guardar memórias que não estão frescas na sua cabeça e que são experiências provavelmente já vividas por outras pessoas.
Na dúvida se as memórias e as palavras são suas ou emprestadas, você decide guardar o diário novamente. Não é dessa vez que ele vai para o lixo. Talvez você ainda precise manter as lembranças escritas do seu tênis preferido, que agora não tem certeza se era branco ou azul. Depois de analisar tudo e ter conseguido jogar poucos papéis fora, o volume da caixa das memórias permanece quase o mesmo e continua transbordando. Você precisa passar a fita crepe mais uma vez e assim vai carregando a caixa de mudança em mudança com medo de desapegar das memórias esquecidas e ao mesmo tempo com receio de que elas fujam por conta própria.
