O seu sobrenome

por Bruno Vicentini

1.

Me lembro de Gersino, um velho amigo seu. Me lembro de um outro amigo que se chamava Kiodi. Eu achava engraçados esses nomes.

2.

Me lembro de você dizendo que, se tivesse jiló, nem precisava de mistura.

3.

Me lembro do médico explicando que o seu tratamento era de controle, e que eu não entendi exatamente o que ele queria dizer com aquilo.

4.

Queria dizer que me lembro de cada uma das vezes que você me convidou pra ir pescar, mas isso seria uma mentira. Queria dizer que eu sempre aceitava esses convites, mas isso seria uma mentira ainda maior.

5.

Me lembro de Titio, o cachorro que você tinha quando era criança.

6.

Me lembro das suas cicatrizes: no supercílio esquerdo, de quando você era pequeno e caiu embaixo da grade do trator; no dedo anelar esquerdo, que você prendeu na máquina de moer cana; a maior de todas, nas costas, a única que eu não sei como você ganhou.

7.

Me lembro do cheiro azedo do seu travesseiro. Me lembro ainda do seu próprio cheiro, mas o estou esquecendo aos poucos.

8.

Me lembro dos bares onde você bebia: o Treviso, o Pinguim, o Cine. Atrás da lanchonete do Ferrari, num balcão meio secreto. Uma cerveja e um steinhaeger e nunca se demorava.

9.

Me lembro da esposa do Kiodi, a Dona Rosângela, que é religiosa, indo rezar você no hospital, nos últimos dias. Quando a mãe te perguntou se você se lembrava da Dona Rosângela, você a repreendeu com o olhar e balançou de leve a cabeça, como quem diz: mas é claro.

10.

Me lembro de você me recomendando cuidado, porque as corujas arrebentavam o estilingue. Não me lembro de jamais ter visto uma coruja.

11.

Me lembro do dia em que você me deixou espiar o skate que seria o meu presente no próximo Natal. A mãe não tava em casa e eu te mostrei onde ela tinha escondido o pacote, dentro do guarda-roupas.

12.

Me lembro de você chegando em casa animado, depois da primeira paracentese.

13.

Me lembro de um videocassete e de ir contigo alugar filmes de ação, sempre na sexta-feira. Uma vez, vimos um filme pela metade. Você chegou do trabalho na segunda e me encontrou na sala, terminando de ver o filme sozinho, e eu quis ver raiva nos seus olhos, mas vi apenas uma gigantesca decepção.

14.

Me lembro de você quebrando copos nos churrascos em Araruna. Você os jogava contra o muro do fundo do quintal, que ficava longe das pessoas. Um copo de massa de tomate com bolinhas coloridas sobreviveu a três arremessos. Depois disso você desistiu e o copo virou uma espécie de objeto sagrado. Acho que ainda esses dias o encontrei, lá na casa da Tia Edi.

15.

Me lembro da sua parte da família, que a gente frequentava pouco. Eu não sabia quem era quem e quando cresci passei a sentir vergonha por isso.

16.

Não me lembro muito bem do dia em que cheguei em casa devastado e contei que cheirava cocaína, mas me lembro da sua reação, quase como se já soubesse e nos seus olhos aquele mesmo sentimento gigantesco.

17.

Me lembro de uma irmã que você ia visitar e me levava junto. Embaixo da casa dela tinha uma vendinha e eu ganhava um Pirulito do Zorro.

18.

Me lembro de que os caras que instalaram a rede de proteção na nossa sacada queriam se atirar correndo contra ela, pra provar que funcionava, mas você não deixou.

19.

Me lembro de uma área, nos fundos do Ferrari, onde o pessoal do comércio se reunia pra beber e jogar baralho depois do expediente. Pra chegar lá a gente atravessava um corredor tão estreito que você quase não cabia.

Você não jogava, preferia assistir. Dizia pro Paulão que ele não tava vendo os adversários roubando no jogo. Deixa eles achar que são herói, o Paulão respondia. Herói tem três ali enterrados na grama.

20.

Me lembro da operação de te tirar da cama pra por na cadeira de rodas, e de te tirar da cadeira de rodas pra por na cama, com um abraço de urso que eu te dava pela cintura, um abraço que eu gostava de te dar, porque não deixava de ser um abraço, mas que era também outra coisa, uma coisa que eu odiava.

21.

Me lembro de que você fumava antes de eu nascer. Sempre quis saber a marca dos cigarros que você fumava, mas nunca perguntei.

22.

Me lembro de um suco de laranja com cenoura que você fazia e chamava de cenoranja.

23.

Me lembro de nós dois revirando a terra pra catar minhocas e usar de isca, perto do muro onde você quebrava copos.

24.

Me lembro de quando era inverno e a Amanda e eu fomos te dar banho e a água quente parou de funcionar e você gritou e nos xingou e reclamou muito e chorou e depois tentou argumentar e tentou de tudo e enquanto isso nós continuamos te esfregando e tentando andar logo com aquilo porque era o que tínhamos que fazer até que nos demos por satisfeitos e o banho acabou.

25.

Me lembro de uma foto: eu, recém-nascido, no berço. Você e o Tio Cesar, vestindo paletós com ombreiras, me mostram uma revista Playboy.

26.

Me lembro de um número que você e o Tio Alírio faziam, quando tinha algum estranho no churrasco da família: fingir uma briga. Eram tão convincentes que por vezes eu até acreditava que era sério.

27.

Me lembro da casa onde moramos em Cascavel, em cima da loja. Um longo corredor, samambaias, cheiro de pilha estourada.

28.

Me lembro de outra foto: nós dois em Araruna. Eu, de sunga, os braços esticados numa pose estranha. Você jogando água pra cima com a mangueira.

29.

Me lembro do Natal, o comércio aberto até as dez, você parado em frente à loja como um maestro. No depósito, eu construía máquinas de papelão e isopor.

30.

Me lembro de prender uma abraçadeira de nylon no pulso esquerdo e de apertá-la até ficar com a mão roxa. Eu me escondi e quando me levaram até você era quase tarde demais.

31.

Me lembro de você comendo pizza com arroz branco.

32.

Me lembro da sua última noite em casa, antes de ser internado no hospital de onde você sairia morto. No meio da sua agonia, que ninguém podia aplacar, apareceu a Dona Toshie, saída não sei de onde. Quando eu era criança, ela era a síndica do prédio. Nunca tinha entrado na nossa casa.

33.

Me lembro do velório da minha vó.

Você virou uma espécie de herói pros amigos dos meus primos, todos bem mais velhos, porque disse que não adiantava ficar triste e foi buscar limão pra fazer uma caipira. Depois disso passei a ser aceito por eles, só porque eu era seu filho. Mas eu não era tão divertido.

De noite, teve um comício na cidade, com show de um grupo cover do Banana Split. Uma amiga dos primos e eu invadimos juntos o camarim das dançarinas. Me lembro de correr junto com ela pela rua vazia – balões de ar gigantes flutuando amarrados nos nossos braços.

34.

Me lembro do velório da minha outra vó, sua mãe. Você já estava muito doente e mal conseguiu caminhar até o caixão. O Tio Alírio apareceu e fez todo mundo rir, até você, com uma história que tinha acontecido com ele no fim de semana anterior, e que envolvia uma orelha de porco e uma dentadura quebrada. O Tio Alírio também morreu de câncer.

35.

Me lembro de você garganteando que não tinha ninguém pra bater você e o Gersino de parceiros no truco, mas a verdade é que o Gersino morava em Cascavel e você jogava truco muito mal.

36.

Me lembro do carro parado na beira da estrada. Você era um barulho de espigas sendo partidas no meio do milharal. Eu me agachava no chão do carro, em pânico, com os olhos fechados.

37.

Me lembro de uma das noites que passei contigo no hospital, quando perdi o controle e chorei na sua frente. Disse que te amava muito, que queria que você sempre soubesse. Você disse que me amava também, só não queria que eu voltasse a cheirar. Eu me assustei, de ver que você ainda pensava nisso. Perguntei se você tinha medo de que acontecesse e você disse que não.

38.

Me lembro de você imitando viado.

39.

Me lembro de quando você perdeu o apetite e só conseguia comer ovo cozido mole.

40.

Me lembro de ir com o Tio Alírio escolher o local da sua sepultura, numa espécie de mapa. Os jazigos próximos à entrada do cemitério eram caros demais.

41.

Me lembro que seu apelido na faculdade era Pai, por ser bem mais velho que seus colegas de classe.

42.

Me lembro da última vez que te levei pra cortar o cabelo.

43.

Me lembro de que foi a mãe quem me fez querer escrever. Não me lembro quando foi que escolhi usar o seu sobrenome.

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