Só você

Helô Mello

Você quis se despedir antes da viagem. Escutou a voz rouca do avô, que tocava violão, para a sua avó, muito doente na cama, talvez nem estivesse mais ouvindo. Levou a foto preto e branca, na qual estavam abraçadas, que ficava na mesinha da cabeceira. Você relembrou o desamparo da separação quando apagaram as lanternas em uma caverna na Chapada. Tremeu ao fazer o rapel na cachoeira e mergulhou no rio de água cristalina para espantar a dor da perda. Ainda podia sentir a ligação entre vocês. 

Da Chapada foi direto para Bruxelas com o cara que conheceu durante na trilha. Você preferiu guardar a lembrança da avó na foto, já amassada, que levou consigo no bolso de uma das únicas calças jeans que tinha na mochila. Abriu mão das cerimonias fúnebres, sempre te deu dor de barriga ir ao velório. Chegou na Europa via Paris e partiram para Bruxelas. As taças de champanhe imóveis na mesinha do trem, a mais de duzentos quilômetros por hora, fizeram te lembrar que nunca entendeu nada de física ou de perda. 

A relação com o cara foi tão rápida quanto intensa, foi como descer o morro na lama, dentro de uma caixa de geladeira. Seis meses depois você já estava de volta ao Brasil. Comeu todo o chocolate que comprou na viagem para dar de presente. 

Retornar não foi fácil. Na primeira entrevista de emprego um homem perguntou se na sua cidade faltava tecido porque a calça estava justa demais. Lembrou que se dava melhor com os meninos na escola porque se achava um deles, que ironia. Ao sair da entrevista resolveu ir a um gatil com oitenta bichanos para adotar um de qualquer cor, menos preto, e então a única gata preta escalou sua roupa e a levou para casa. Na volta passou na frente do cinema e se lembrou de quando se sentava no chão do corredor do cine lotado para ver Lua de Cristal.

Você foi morar em uma pequena casa de vila. A vizinha, uma senhorinha corcunda, óculos fundo de garrafa e cabelo com laquê, te convidou para tomar um café, com pão de queijo e recheio de curiosidades. Você tinha acabado de se mudar. Se sentia ainda sozinha. Você quase aceitou, mas sua nova gata miou e ao agachar, para dar atenção a bichana, você se lembrou da foto que guardou de lembrança da sua avó. Ela morava no bolso direito da calça jeans que estava usando. Chegou a colocar a mão no bolso, tatear por dentro, para saber se sua avó havia sobrevivido a tantas lavagens e as secadoras. Mas parou enquanto a sua vizinha te perguntava alguma coisa, mas já não prestava atenção. Sua avó se diluiu nas águas da cachoeira, no champagne do trem para Bruxelas ou talvez nas lágrimas das noites de insônia.  Você agora vai ser só você.

Deixe um comentário