A COROA DO MAGO

Silvia Argenta

Robson entra na sala pouco iluminada. Apenas quatro pendentes no teto estão acesos, não permitindo que ele tenha uma visão nítida de todo o ambiente. As luzes que saem das mesas de fliperama enfileiradas o ajudam a ver a silhueta de algumas pessoas. Apesar de ninguém estar jogando, as máquinas estão ligadas e, por causa do som alto, não consegue conversar. Se encosta no balcão da lanchonete e percebe as mãos tremendo. Posiciona as duas palmas em cima do móvel para tentar conter os movimentos involuntários. É a primeira vez que o garoto americano do Soho se vê em risco. Ele identifica o apresentador do evento, que toma coca-cola logo à frente. Chega perto dele e, nem mesmo cochichando bem próximo ao ouvido, eles se entendem. Se comunicam por leitura labial e mímicas. Ele aproveita para soltar a tensão das mãos. Há meses se preparando para defender o título do campeonato, que nunca perdeu, diz que está a postos e aguarda sua vez de ser chamado, fazendo um joinha com o polegar. O apresentador compreende, dá dois tapinhas em suas costas, se levanta da banqueta e some na escuridão da sala, engolido pela fumaça do gelo seco, deixando para trás o copo cheio de refrigerante.

Do outro lado da sala está o até então desconhecido inglês Tommy. Sentado numa cadeira, espera pacientemente o aviso para se posicionar em frente ao fliperama. Não treme, não sua, não bebe, não come nada. Nem sacode as pernas, naquele gesto típico de quem aguarda por algo, batendo rapidinho o calcanhar no chão várias vezes. A coluna e a cabeça estão retas, e as mãos, apoiadas nas coxas. Parece uma estátua. Pelo menos, dá a impressão de que respira. O apresentador se aproxima, passa a mão no seu ombro e não fala nada. Sem mudar a expressão sisuda no rosto, Tommy estica o braço direito para o lado, coloca a mão na mesa e fica de pé na frente do fliperama.

No microfone, o apresentador chama Robson, o jogador mais experiente em atividade, e, com a voz empolgada, anuncia a grande final do campeonato de fliperama. Segundo ele, a final mais importante da história do jogo em todo o mundo. Os garotos da plateia ficam alucinados e começam a gritar e a bater os pés no chão e as mãos no que encontram pela frente. O barulho do batuque fica até mais alto do que o das estridentes máquinas. Os dois jogadores estão lado a lado, se ignorando, na frente dos dois melhores fliperamas já fabricados nos anos 70. Robson ajeita a franja encharcada de gel e Tommy, o cós alto da calça amarela de tergal. Os fotógrafos aproveitam para registrar a preparação do duelo histórico, disparando os flashes em cima dos protagonistas, nessa tarde de outono em Brighton. Feitas as fotos, o apresentador se coloca entre os dois competidores, bate cada uma das mãos no vidro das duas máquinas e declara, sorridente: que comecem os jogos!

Robson e Tommy têm o reflexo da velocidade da luz. Já tinham passado a manhã toda em diversas rodadas eliminando adversários – e dos grandes. Por isso, estão bastante aquecidos e espertos às rápidas reações que o jogo exige. Assim que o apresentador autoriza, os dois puxam, com a mão direita, a alavanca que aciona uma mola e arremessa a bola prateada de metal na mesa levemente inclinada. A esfera vai até o alto e volta para a parte de baixo da mesa por conta da gravidade. Na sequência, eles comandam duas palhetas para definir a trajetória e a velocidade da bola a cada jogada. Ela percorre todos os cantos da mesa retangular de fundo azul com a imagem da cara de um palhaço e passa diversas vezes por cima do nariz vermelho, bem no centro. Conforme a bola vai batendo em determinados objetos na mesa, os contornando ou num percurso em linha reta, os jogadores vão ganhando pontos, o que faz acionar um letreiro luminoso e colorido. Sempre que há esse impacto da bola de metal em choque com as peças, a mesa também emite sons agudos e repetitivos, o que deixa eufórica a plateia, que se aproxima cada vez mais dos fliperamas. Cercados pelos jovens admiradores que gritam o tempo todo, os dois competidores tentam durante horas manter o ritmo frenético da bola na mesa.

Fora da sala de jogos, as pessoas não estão interessadas no que acontece ali. Coisa de jovens desocupados. Alguns poucos repórteres aderem à rotina diária de cobrir os eventos da cidade. Na falta de assunto no final de semana, aparecem no campeonato para cumprir tabela. Muitos não acreditam que se trata de um duelo histórico e logo devem ir embora. No entanto, os jovens que estão dentro da sala não arredam o pé. Poucos são os que vão até o banheiro ou a lanchonete pedir algo para comer e beber para o lamento do dono que não lucra como gostaria. Eles estavam tão ansiosos pela grande final que agora estão de pé ou em cima das cadeiras para enxergar melhor, hipnotizados com a agilidade dos competidores. Não é sempre que se vê jogadas tão precisas e rápidas.

A noite chega, os jovens se mantêm de pé ao lado dos fliperamas e a iluminação permanece precária como antes. Apesar do breu da sala, quem está mais próximo consegue perceber, pela luz que sai da máquina, que a franja de Robson gruda na testa. Inclinado em cima do fliperama, as gotas de suor caem da ponta do nariz, escorrendo pelo vidro da mesa. A aparente exaustão física parece começar a comprometer o jogo. Tommy, ao contrário, só move as mãos nas palhetas. A coluna e a cabeça ficam retas, até mesmo quando ele sacode a mesa com as mãos, com um movimento ágil e ao mesmo tempo tranquilo, para soltar a bola que fica presa entre dois objetos. Ele sabe o que está fazendo. Parece fazer parte da máquina, sentindo todas as batidas e jogando por intuição. Não se distrai com os sons nem com os dígitos do placar. Parece uma estátua com os pulsos flexíveis e os dedos alucinados.

Já os dedos do americano começam a falhar nas palhetas. Aos poucos, a bola passa a andar mais devagar pela mesa, por vezes até sem força para alcançar os objetos, até que cai na canaleta, na parte de baixo do fliperama. Game over. A gravidade vence depois de cinco horas. Mesmo com o fim do jogo, a mesa continua piscando. Robson se apoia nela e lamenta por perder a assinatura de um ano da revista Rolling Stone. Se vira para o lado e vê Tommy ainda fissurado nas suas jogadas, sem perder o entusiasmo. O apresentador anuncia no microfone: temos um novo mago do fliperama! A sala de jogos quase vem abaixo com tantos gritos e pulos. Tommy continua mantendo o ritmo alvoroçado da bola prateada até que o apresentador passa a mão no seu ombro. Se deixasse, ele ficaria dias jogando.

O som estridente e alto das máquinas, a iluminação fraca e o gelo seco se mantêm na comemoração. Os jovens enfim vão até o balcão para pedir seus martinis e cuba libre. Sem mais partidas, ninguém repara na imagem do palhaço, que acaba com a tinta do nariz descascada. Robson sempre foi o rei do fliperama. Abismado com a habilidade do oponente, aceita facilmente a derrota. Entrega a sua coroa para o vencedor, fazendo um joinha com o polegar para a plateia, que o responde com berros e copos levantados. Apenas um repórter fica até o final da competição e tenta uma entrevista com o inglês. No outro dia, a foto de Tommy estampa a capa do tabloide com a manchete: Garoto surdo, mudo e cego vence campeonato mundial de fliperama.

Link: https://monkeybuzz.com.br/materias/a-historia-de-tommy-narrada-por-the-who/

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