Você pega o trem às 5:30h pelo segundo dia consecutivo sem dormir. De Santo André para o centro de São Paulo. Esmagado pela quantidade de pessoas mal humoradas e mal pagas, como você. Com a diferença que as tragédias na sua vida acontecem numa intensidade maior do que o número de orações sinceras pelo bem do mundo já feitas no Vaticano por todos esses anos que vieram depois de Cristo. E, não bastasse, tem uma adolescente do seu lado, com cara de quem está virada de alguma festa em plena quinta-feira: não conseguiu voltar antes do metrô fechar e ficou na rua até de manhã. Ela ouve uma música tão alta no fone que nem precisaria deles. Fones de $15 reais da Phillips. Se o volume do celular não está no máximo, tudo que você ouve da orelha pra dentro é o barulho do metrô. E a pessoa que está do lado escuta quase que melhor do que quem está com o fone mesmo.
A garota deve ser roqueira, porque a música é pesada. Entre ruídos agudos, uma voz feminina canta repetindo “no meu braço/aos pedaços/no meu braço/aos pedaços”. Os olhos da menina quase fecham, mas a quantidade de gente e o barulho da música só deixam ela com uma cara de que ela não está ali. Você pensa que se essa garota cansada, mas com cara de quem tem uma vida mais ou menos normal, soubesse o que se passa com você, ela estaria ali mesmo, voltando ao amanhecer de uma festa bem no meio da semana, com os olhos borrados de preto. Não dá pra adivinhar se ela ainda vai conseguir ir em casa tomar um banho e depois trabalhar. Ou se ela não trabalha ainda e vai poder dormir o resto do dia. Mas você, você está indo trabalhar.
Você só tomou um café preto. Não pode atrasar nenhum dia. Faltar? Nunca mais arruma trabalho na praça se faltar. Não interessa o motivo. Veja só, são dois dias (inteiros, você sabe o que é isso?) sem dormir. Você só pôde cochilar no trem. Por que? Porque você pensa que devia ter notado. Ou melhor, que devia ter levado em consideração o que você notou, mas não deu a devida importância. Que a Milena, casada com seu filho do meio, estava realmente gorda. Aquela barriga, braço e pescoço que cresciam incessantemente, em poucos meses, não fazia sentido. Mas não era você quem tinha que dar conta disso. Todas as mulheres ali do bairro engordam muito com os anos. E Milena, depois de três filhos, estava sendo um padrão. Tireoide, talvez a aproximação da menopausa, essas coisas que mulher passa. A única coisa que ela sempre cuidou foi o cabelo, pretíssimo, alisado, sempre chanel. Mas a saúde da Milena nunca foi das melhores. Fora que, enquanto homem, você não pode falar nada sobre esses assuntos. Mas e sua mulher, não tinha notado? Porque ela não fez nenhum comentário sobre, nem na frente da Milena, nem no quarto no fim de noite. Não sobre isso, claro, porque reclamações sobre a nora ela tinha muitas: folgada, não ajuda a arrumar o almoço, não vai na venda trazer mistura, deixa os brinquedos dos meninos espalhados pela sala.
Você está no trabalho. Reformando o bar asqueroso do seu Eliseu. Você nem sabe quem é mais asqueroso, o velho ou o lugar. E ele ainda está transformando a espelunca num kilo, mas que também tem a opção de “coma quanto quiser”. Ele disse que vai custar $12,99. Não fosse o velho tão nojento, você diria a ele que fechasse em $13, pra dar mais sorte nesse ano de eleição. Mas você não fala nada porque tem que render no trabalho. E enquanto corta o azulejo, o dia inteiro escutando aquele agudo insuportável, pensa que não sabe o que é pior, se passar o dia ouvindo a maquita fazendo sinfonia na obra ou se o ouvido da menina que escutava a música de ruídos agudos e voz grave, “no meu braço/aos pedaços”. Você não tira a música da sua cabeça. Nem a fadiga daquele trabalho. Nem a história da Milena. A Milena teve uma hemorragia há dois dias, por isso que você não dorme. Eu também não sei se gosto tanto da Milena – é que a casa vive tão cheia que é difícil saber se você gosta da mulher, do filho, dos agregados ou se está só existindo. Mas a Milena, ninguém sabia o que ela tinha. O susto você não sabe se foi maior na hora, enquanto ela corria de hospital em hospital sem diagnóstico, ou se depois. Foi a mulher quem descobriu a bronca toda do problema de peso da Milena.
Na angústia da noite que a Milena foi pro hospital, enquanto Túlio, o marido, passava pelas enfermarias com ela, você e a mulher tentaram, mas não dava para acompanhar. A mulher precisava descansar, você precisava trabalhar e chegar pontualmente na reforma. E lá já tinha ido, 1h, 2h, 3h da manhã. O trem começa 4:30h. Você e a mulher voltaram para se arrumar. A mulher estava desesperada. Não sabia o que fazer. Entrou em casa e conferiu os netos. O mais velho, de nove anos, tinha ficado encarregado de avisar se os outros dois acordassem. Depois, foi para o quarto do casal jovem. Uma bagunça de lençóis amarfanhados embaixo da cama. Aquele cheiro de mofado com coisa azeda. Já está tudo tão difícil, sem higiene parece que o clima da casa pesa ainda mais. A mulher decidiu que, mesmo se a nora brigasse pela intromissão, daria uma arrumada superficial. Começando pela roupa suja. Você não interfere nessas horas, só deixa a pessoa nervosa fazer as coisas para ver se o sangue esfria.
Quando a mulher pegou os lençóis, quase desmaiou com o fedor. E sentiu uma coisa dura dentro. Era um feto formadinho, no mínimo uns sete meses. O bebê mal começava a entrar em estado de decomposição. A mulher ficou branca, roxa, azul, vomitou e não sabia o que fazer. Gritou e depois ligou para o filho. Você faz o que nessas horas? Cala e tenta achar uma solução.
Túlio, o filho, veio. Todo desengonçado, como sempre. Aquele espigão, alto, magrelo e costas inclinadas para a esquerda. Você não é assim que nem ele, tirando a magreza, tem os músculos que as obras, uma após a outra dos 15 aos 45, deram. O bronzeado também, mas o Túlio tem a pele desbotada. Ele chegou, mas a Milena continuava internada. Ele jurou de pé junto que não sabia. Parecia tão chocado quanto a mulher. A mulher acreditou nele. Chamaram a polícia, que chamou o IML. Antes, pesquisaram no Google pra saber quem deviam chamar. Ou se poderiam simplesmente sumir com o feto e caso encerrado. Quando abriram o computador viram as pesquisas que a Milena não conseguiu fechar antes de passar mal. Ela queria saber quanto tempo ficaria na prisão se descobrissem o bebê. E descobriram. Mas o pior seria no hospital. Com a hemorragia, se fizessem exame de sangue, detectariam HCG. Fora que uma raspagem no útero seria imprescindível, e ela seria pega. Era melhor que o corpo do bebê aparecesse, por isso ligaram. Depois eles se juntariam pra resolver a Milena.
Naquela noite, ninguém conseguia nem pensar em dizer se a Milena era uma vaca ou uma coitada. Você pode achar estranho, mas dá pra entender. Três filhos. Desempregada. Morando com os sogros. Aborto proibido. Aborto execrado pela vizinhança. Você imagina que no parto o bebê praticamente caiu pra fora dela. E agora que a ferida se abriu, nunca mais vai estancar. O crime foi esconder a gravidez. Mas o exame revelaria. E revelou: traumatismo craniano. Seria possível que ele tivesse sofrido isso no parto desajeitado? Ou foi ela mesma que não quis dar tempo nem dele chorar? Um parto sozinha no quarto, enquanto o Túlio fazia os corres dele, trabalhando três turnos. O bebê saiu inteirinho, mas prematuro. Você faz o que nessas horas?
Não dá pra cair duro no chão, você engole o café e vai trabalhar. Parece até que a música da menina que voltava da balada faz sentido, “no meu braço/aos pedaços”. Pode ter sido isso que a Milena sentiu antes da hemorragia, você pensa. Ah, o bar do seu Eliseu. Hoje eu vou olhar no olho do véio. Vou dizer que ali não volto. Que o bar dele feche. Que ele não sabe de quanto sangue e placenta é a vida da gente, para tratar os pedreiros do jeito que ele trata. Eu, por mim, nem termino a reforma. E se ele me ameaçar, termino, sim, mas já ligo hoje mesmo para a Tonha para separar a galinha preta. E sábado na encruza a gente vai saber se esse kilo tem futuro.
Passa na carne a navalha
Se banha de sangue
Sorri ao chorar
Cobre o amor na mortalha
Pra ele não acordar
Sente no fel deste beijo
O agouro da morte
A se revelar
A vida sem endereço
E sem lugar pra ficar
Vem despedaçado
Vem, meu bem querer
Vem aqui pra fora
Vem me conhecer
A ferida se abriu
Nunca mais estancou
Pra você se espalhar
Laceado
Mas o chão te engoliu
Toda a lida findou
Pra você descansar no meu braço
No meu braço
Aos pedaços
