Maria Boa

Maria Boa (Assis Valente, 1936)

Que vantagem Maria tem?
É boa
Como é que Maria vive?
À toa
Com quem é que Maria vive?
Comigo
Onde é que Maria mora?
Não digo

Não digo, não digo porque tenho certeza
Certeza porque sou escolado
Mulher é negócio de lado
E amigo é melhor separado

Que vantagem Maria tem?
É boa
Como é que Maria vive?
À toa
Com quem é que Maria vive?
Comigo
Onde é que Maria mora?
Não digo

Não digo, não digo porque tenho certeza
Certeza que a minha Maria
Não vai com a cara do homem
Que tem a falinha macia

https://www.youtube.com/watch?v=GyIA-7IR6GI (Maria Alcina)

https://www.youtube.com/watch?v=y5c7rFEz28Y (Bando da Lua)

https://www.youtube.com/watch?v=r058BDVOg1Y (Ney Matogrosso)

https://www.youtube.com/watch?v=0me_ML7sT8E (Rolando Boldrin)

Maria Boa

por Américo Paim

O Zé Nilton, vinte e cinco anos, saúde boa apesar da magreza, aparência de gente confiável, andava feliz, mostrando os dentes por aí. Era de se ver. As coisas enfim estavam acontecendo na vida dele.

Por um tempo houve muita preocupação, pois desde que veio de Santo Amaro para a capital foi tudo difícil. Conseguiu o emprego de ajudante no mercado de Seu Carlito pouco antes de o dinheiro pequeno dado pelos pais acabar. A moradia foi conseguida por intervenção do seu padrinho Aderbal, que lhe indicou um caso antigo de sua juventude, agora Dona Maricota, uma simpática senhora viúva. Antes de ajudar no assunto, ela lhe contou que terminou um namoro para ficar com Aderbal – “o outro menino era meio atoleimado”, disse à época. Ela lhe alugou um apartamento pequeno, mas limpo, seguro e perto do serviço. Dava para ir andando e economizar o dinheiro da condução.

Agora, dois anos depois de chegar, tudo mudou. Ele era o principal funcionário do mercado e já considerava que em breve tudo ficaria sob sua responsabilidade, por ter a confiança total de Seu Carlito, que já estava velho, sem filhos. Com o tempo suas boas ideias foram aceitas, as vendas aumentaram muito e isso permitiu até a ampliação das instalações. Não é um supermercado, mas quem viu o que era antes e como está agora, entende porque o Zé tem tanto orgulho.

Apesar de já poder, Zé nunca saiu do bairro do Saboeiro e a razão tinha nome: Joana. Ela era a personificação do que ele achava melhor em uma moça, apesar de a ver como inalcançável. Por onde ela passava virava o foco dos olhares. A morena era honesta, trabalhadora, linda com seus olhos negros, cabelos idem e um jeito livre que o hipnotizava. Ela também era do interior, de Seabra, trabalhava na farmácia Santa Maria Esmeraldina, a maior do bairro e morava a uns dois quilômetros do apartamento de Zé. Ele a conheceu há seis meses, na missa dominical, programação rotineira que passou a fazer por influência direta de Dona Maricota, para acompanhá-la. A velha senhora conhecia a moça e, sabendo do interesse do jovem, apesar de sua dificuldade de lidar com as mulheres, da timidez e dos ciúmes, os aproximou e eles engataram o namoro. Zé nunca pensou que conseguiria uma mulher tão bonita e às vezes sofria para viver o papel de forma plena. Algumas pessoas lhe diziam: “sem jeito mandou lembranças”.

Também foi nessa época que ele conseguiu entrar na faculdade de Contabilidade, pelo desafio de uma melhor educação, o que achava que lhe faltava. Bem recebido por lá, foi logo incluído em um grupo de amigos: Pedro “Radiola”, braço entortado em um acidente de carro, era um baixinho sem graça, com uma pequena cicatriz no queixo que ele contava ser por um beijo maluco de uma aspirante a atriz; Sebastião “Nego Bom”, em referência ao conhecido doce, porque era bem preto e se achava o pegador das mulheres e o Sérgio, um sarará boa praça chamado de “Mané Gostoso” porque tinha junta mole, igual ao boneco. Eles chamavam o Zé de “Muriçoca” ou “Magro”. A convivência era quase restrita à faculdade e nenhum dos três trabalhava. Zé gostava deles, mas se sentia intimidado por percebê-los mais experientes. Uma noite de sexta-feira aconteceu esta conversa.

– E então, Nego, qual é a boa da night? Vamo tomar uma?

– Quem vai é o coelho…

– Oxe, vai bater fofo?

– Hoje eu vou fazer um favor…

– Favor? Aí tem…

– Pois é, faz tempo que Roberta quer sair com a minha pessoa e vai ser hoje…

– Roberta! Porra, tá pegando aquela delícia? – gritou Mané.

– Epa, mais respeito, meu caro. Não é pro seu bico.

– E é pro seu? Nego feio retado…

– Se saia, miseravão. Tá com inveja? Você que lute…

– Quem é Roberta? – disse Zé, tentado participar do papo.

– Uma maravilhosa aí – falou Nego Bom.

– Que massa, né?

– Pois é, Magro, nossos amigos não aguentam a competência aqui…

– Oxe, tu é sortudo, só isso – falou Pedro.

– Se feche, ô, Radiola. Com essa cara de raquete, tu só pega ônibus e se der a mão…

– Qualé, aqui todo mundo tem mulher.

– Ah, sei… Você tem Ritinha, que não enxerga bem e Mané sai com Selma, famosa por fazer caridade – emendou risada alta.

– Muito engraçado – retrucou Mané. E você, Magro? – mudou o foco para Zé.

– Eu?

– É, você. Toda vez a gente pergunta e você escorrega, Muriçoca. Tem mulher no pedaço ou o quê?

– Hum… Sim, claro que tem – falou sem convicção e os amigos insistiram.

– E quem é? Qual o nome da abençoada?

– O nome?

Zé Nilton refugou. Não queria dar espaço para ninguém se meter na sua história com Joana. Sentia que não tinha estrutura para encarar aquilo. Mesmo assim continuou a conversa, de improviso.

– Maria – mentiu, ao ver o nome em um cartaz de cartomante pregado no poste perto deles.

– Maria de que? Que vantagem Maria tem, meu filho?

– Hã? Como assim vantagem?

– O que ela tem para oferecer, véi?

– Ah… Hum… Ela é boa.

– Boa, como? Gostosa? Olha só o nosso Muriçoca… – falou Mané.

– Mas ela faz o que, vive de que, Magro?

– À toa! – falou de susto e a gargalhada foi geral.

– Que porra é essa, véi? É largada? Vive com quem?

– Vive comigo – Zé, já suando, gritou de forma impensada.

– Oxe, tu é casado, peão?

– Pera… Não foi o que quis dizer.

– Ué, mas disse. Que treta é essa? – agora Nego Bom tava cheio de interesse.

– Sem treta…

– Mas ela não vive com você? Onde é que Maria mora?

– Não digo, não digo!

Agora estava mesmo encrencado. Sua reação atiçou os amigos, que não mudariam de assunto por nada e encurralaram o pobre. Ele ia ter que continuar.

– Que chilique é esse, rapaz? Diga mais da Maria Boa aí! – risos gerais.

– Não digo porque tenho certeza! Sou escolado nisso.

– Que papo é esse, mermão?

– Mulher é negócio pra colocar de lado. Não vamos misturar as conversas.

– Tá doido, Muriçoca. A gente lhe falou das nossas mulheres e você não conta da sua nega?

– Mais respeito: minha namorada!

– Ui, ui, ui… Pegou ar, o bruto! Nega, namorada, é tudo igual, véi!

– Devia apresentar a princesa aos amigos.

– Nem pensar! – outro grito do Zé.

– Mas rapaz…

– Deixa quieto! Mulher e amigo é melhor separado.

– Oxe, véi, não vamos morder Maria Boa, não…

– Pois é. Só queremos conhecer a iluminada.

– Não, já falei! – disse Zé e saiu correndo dali, deixando os amigos rindo dele.

No dia seguinte resolveu conversar com Seu Carlito para se aconselhar. Estava preocupado com o que poderia vir pela frente. Seus amigos não o deixariam em paz. Aquilo poderia dar em problema.

– O senhor entendeu o que aconteceu?

– Está se preocupando demais, meu filho. Até mentiu o nome da moça! Joana é boa pessoa. Por que não apresentar?

– Tenho medo… Confio nela, claro, mas…

– Mas o que?

– Pedro e Sérgio tudo bem, mas Sebastião…

– O que tem ele? – É bom de conversa por demais e pega mulher até calado…

– Ora, ora, que é isso…

– É como eu disse ao senhor. Eu confio e acho que ela não vai com a cara de homem com a falinha macia, mas na dúvida…

– Fica em paz, meu filho. Não tem perigo.

No domingo encontrou Joana na hora do almoço e estava um pouco mais tranquilo, mas não conseguia deixar o assunto de lado. Sua cara séria entregava e deixou a moça desconfiada.

– O que você tem, Zé?

– Quem, eu?

– Tem mais alguém aqui?

– Nada, nada. Tá tudo certo.

– Conta, menino.

– Veja só, eu lhe falei de uns amigos da faculdade.

– Sim, eu me lembro. E daí?

– Eles querem conhecer você.

– Ué, tudo bem.

– Não! Não quero você de intimidade com homem.

– Que ciúme é esse? Já disse que não gosto.

– Isso não dá certo! Essa mistura é problema…

– Que bobagem. É coisa da sua cabeça.

– Eu sei bem o que digo. Vamos deixar essa história pra lá.

Na noite de segunda-feira, na faculdade, foi cercado pelos amigos. Eles não perdoaram a fuga.

– Tá mais calminho agora? – veio Mané.

– Nunca estive nervoso.

– Então vai nos apresentar Maria Boa?

– Hum… acho que não. E para de chamar ela assim.

– Tem medo de que, rapaz? Só queremos conhecer!

– É sério, mulher de amigo meu pra mim é homem – disse Radiola. Mané balançou a cabeça, concordando.

– Eu tenho aula agora. Depois a gente conversa – disse Zé, saindo.

– O homem tá mordido de cobra – observou Mané, olhando os amigos.

– Pois é, mas vou apurar essa história – falou Nego Bom.

– Como vai fazer?

– Podem deixar comigo. Vou dar um passeio lá pelo Saboeiro.

– Vamos juntos! – disse Radiola.

– Não. Melhor eu ir sozinho. Depois eu conto.

E assim fez Nego Bom. Circulou um pouco pelas ruas, perguntando aqui e ali sobre o rapaz magro que tinha uma namorada chamada Maria. Ninguém sabia de nada. Já estava para desistir quando parou em uma certa farmácia. Lá ele ficou encantado com uma atendente morena, esqueceu sua missão e jogou todo o seu charme sobre a moça, saindo de lá com a certeza de que tinha se dado muito bem. Nem lembrou mais de perguntar sobre Zé e Maria. À noite, na faculdade, contou aos outros dois que estava doido por uma mulher que conhecera à tarde e que iria investir na incauta. Não deu mais detalhes aos curiosos amigos, mas eles sabiam do que ele era capaz.

Os dias se passaram sem que se conversasse mais sobre Maria Boa. Aos poucos, Zé observou que Joana estava estranha, cada vez mais distante dele, por vezes até o evitando, inclusive nos finais de semana, quando podiam estar juntos por mais tempo. Não demorou e a moça terminou o relacionamento. Zé ficou arrasado, sem conseguir entender o que pudesse ter acontecido para aquele desfecho. Um dia, de tão triste não foi à aula e, enjoado de ficar em casa, foi dar uma volta na praça. Mal chegou e deu de cara com uma cena que o tirou do sério: Sebastião e Joana juntos e abraçados no mesmo banco onde ele e a moça costumavam ficar. Correu para lá.

– Mas o que é isso?

– É o que, Magro?

– José Nilton para você! Joana, fale alguma coisa!

– Falar o quê?

– Eu mereço uma explicação!

– Que é isso, rapaz?

– Não se meta! Assunto meu e dela!

– Ora, tá parecendo criança. O pé do caboclo tá lá no Campo Grande se quiser – levantou-se e saiu com a moça, deixando o estupefato Zé para trás. Após alguns passos, porém, voltou sozinho até ele.

– Muriçoca, se ligue: ela pode não ser Maria Boa, mas aqui é Nego Bom…

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