A única garota embaixo do balão gigante cheio de doces

por Bruno Vicentini



Você é a única garota embaixo do balão gigante cheio de doces.

Os meninos se provocam e se empurram, rindo, tentam tirar uns aos outros de debaixo do balão, dos arredores do ponto exato onde eles acham que mais doces vão cair, onde em breve vai ter uma chuva de chocolates e balas recheadas, mas nenhum deles se atreve a interagir com você. Você fica lá, sozinha, de vestido verde listrado, os cabelos num rabo de cavalo muito alto e apertado, que foi a Tata quem fez. Você olha pra cima, pro balão gigante cheio de doces, e espera.

O balão está cheio de doces que você não conhece, de marcas que você nunca provou. Você sabe que dentro do balão tem também alguns pirulitos daquele do Zorro, que você adora, Vô Preto às vezes deixa pegar um quando vai na lanchonete da rodoviária e leva você junto. Dentro do balão gigante, bem lá no fundo, no meio dos doces, tem também alguns brinquedos; miniaturas, você sabe, iguaizinhas àquelas que tem dentro do ovinho de chocolate de duas cores, que também tem lá na vitrine do boteco da rodoviária, mas esse, o ovinho de duas cores, esse Vô Preto não deixa.

Você sabe bem certinho tudo que tem dentro do balão gigante cheio de doces, porque diferente dos meninos você também está ali mais cedo, assistindo à Tata montar a festa. Só você vê quando ela coloca os doces e os brinquedos lá dentro, um por um, tomando cuidado para não furar o balão, que vazio parece uma bolsa amarela de água quente, tipo a bolsa que a mãe coloca nas costas quando deita no sofá de noite, só que bem maior.

Você quer entender. Tata diz que é uma brincadeira, que todas as crianças adoram aquilo, é o momento mais esperado da festa. Ficam todas debaixo do balão gigante cheio de doces e então alguém vai lá e estoura o balão. Quando os doces caem, Tata diz, os que você pegar são seus.

Você não consegue explicar, mas percebe que tem algo de errado com aquela brincadeira.

A festa ainda não começou. Você vê a caixa de isopor em cima da mesa e sabe que ali dentro tem bolo gelado, que também foi a Tata quem fez, cada um dos pedaços embalado em papel metálico. As letras de isopor na parede, atrás da mesa do bolo, dizem em cima FELIZ ANIVERSARIO e embaixo MATHEUS. Em volta da mesa tem balas de coco enroladas em papel crepom, mas essas você não sabe se foi a Tata. A decoração da festa é do Homem-Aranha. Você adora o Homem-Aranha.

Dona Martha aparece e encontra você ali, sentada, assistindo à Tata enquanto ela recheia o balão gigante com doces. Ela sorri e chama a Tata pra perto dela, um momentinho. As duas nem chegam a sair do salão. Você consegue ouvir o que elas conversam. Os adultos acham que os ouvidos das crianças são curtos como as pernas.

Dona Martha diz que é pra Tata te convidar pra festinha. A Tata diz que não precisa, Dona Martha, imagina, eu só trouxe ela porque não tinha com quem deixar, porque hoje é sábado. Dona Martha insiste, diz que não é certo a garota ficar vendo todos os preparativos, a decoração, a festa sendo montada, e depois simplesmente ir embora, ela tem a idade do Matheus e dos amiguinhos, faço questão que ela fique. Tata agradece, diz que não precisa, que você não tem nem roupa de festa. Bobagem, diz Dona Martha.

Tata volta. Passa a mão nos seus cabelos, com carinho, mas não te diz nada. Ela se senta na sua frente, olha pra você, sabe que você escutou toda a conversa. Começa então a soprar dentro do balão gigante cheio de doces. Você acha que ela não vai conseguir, porque o balão é grande demais, mas acaba que ele começa a encher. Você não gosta que ninguém passe a mão nos seus cabelos, nem mesmo Tata.

Mais tarde, no banheiro, Tata desamassa com as mãos a frente de seu vestido. Saca da própria mochila um elástico muito forte e prende o seu cabelo num rabo de cavalo. Dói um pouco quando ela puxa. Ao mesmo tempo, segura entre os dentes três grampos e duas presilhas, que ela também vai usar no seu penteado. Você acha graça da Tata com tudo aquilo na boca, com os beiços pra dentro. Parece um alien, você diz, que é um monstro de um filme que você viu na TV. Você ri. Tata também começa a rir e derruba os grampos. Você ri mais ainda.

Tata ergue você pelos sovacos, pra te mostrar o penteado no espelho. Reclama que você tá pesada. Você diz que ficou bonito no final. Ela então te coloca no chão, olha sério pra você e diz que é pra você se comportar, não é pra aprontar nada, ela diz, por favor. Você diz que não quer ficar em festa nenhuma. Ninguém perguntou o que você acha daquilo tudo. Você quer ir pra casa. Tata diz que não, que você não entendeu. Que é melhor não contrariar a Dona Martha. Que aquilo é de propósito, o combinado era que Tata não trabalhasse na festa, mas agora ia ter que ficar. Tata fala baixo, agora ia ter que ficar, como quem conta um segredo. Você escuta a voz de Dona Martha gritando o nome de Tata. Vai se divertir, está tudo bem, Tata diz. Logo nós duas vamos pra casa.

Dona Martha encontra vocês duas saindo do banheiro e elogia o seu penteado. Você tá linda, diz, ficou muito melhor assim. Pede pra Tata ajudar na cozinha com os refrigerantes que chegaram, são dois engradados, tem que guardar no freezer pra não esquentarem. Você vem comigo, pequena. Ela leva você até o filho, Matheus, o aniversariante. Matheus está com alguns amigos. Eles se calam imediatamente e olham pra você como olhariam pra um porquinho-da-Índia. Você não liga. Tata traz uma bandeja com refrigerantes e salgadinhos, o que serve de distração por um momento.

Quando o silêncio volta, é você quem propõe: vamos brincar de esconde-esconde? Os meninos se entreolham, riem. Um deles diz vamos, eu conto. Você se esconde na garagem, atrás de um carro, e sabe que ninguém vai vir te procurar. Tudo bem. Você gosta de ficar sozinha. Você fica esperando a hora de ir embora. Depois de um tempo, depois de um bom tempo, um dos meninos vem até você, vão estourar o balão, é pra você vir, Dona Martha que chamou.

Você é a única garota embaixo do balão gigante cheio de doces, o momento mais esperado da festa. Quando os doces caem os que você pegar são seus. Você olha pra cima, pro balão gigante cheio de doces, e espera.

O marido de Dona Martha estoura o balão com a brasa do cigarro. Você pula em direção aos doces que caem, um microssegundo depois do menino à sua esquerda, o suficiente para lhe passar uma discreta rasteira antes do pulo. Você pula em direção aos doces que caem, um microssegundo antes do menino à sua direita, Matheus, o aniversariante, o suficiente pra estar no ar antes dele e pra então golpeá-lo no nariz com o cotovelo, com toda força. Você, ainda no ar, levanta a barra do vestido e faz com ele uma espécie de rede, conseguindo assim capturar a maior parte dos chocolates, das balas recheadas e das miniaturas.

Matheus berra, com o nariz jorrando. Alguém corre com ele pra longe. O outro menino, ao cair, tropeça e dá de boca numa cadeira de lata. Grita ainda mais, sem os dois dentes da frente. Uma clareira de adultos e crianças se abre, todos igualmente assustados. Você fica lá, no meio do círculo, embaixo dos restos do balão, com o vestido levantado e segurando os seus doces.

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