Há minutos atrás

Há minutos atrás

Helô Mello

Você acorda com medo e não chora. Lembra do passado, quando era criança. Você acordava no escuro e corria para o colo de sua mãe Anita para um abraço quente e gostoso. Chorava mansinho para não acordar seu pai Antônio, que te mandaria para a cama, com ou sem medo. Meninos não choram, ele dizia, não pode ter medo. Mas você tinha. Tinha medo dele também. Demorou anos para você entender o jeito enviesado dele te amar. Pensa se herdou, mesmo sem compreender, essa maneira estranha de se relacionar.

Hoje você acorda com medo e não chora. Olha, no escuro, para o álbum de fotos jogado ao lado de sua cama, que resgatou do que parece um baú de memórias soterradas. Você costuma enterrar passados, medos e perdas. Sentiu um abraço forte, algo que ficou pelo caminho, que não conseguiu sepultar. Lembra que Clara foi embora ontem a noite. Vê no escuro um infinito, sem presente, passado ou futuro. Sabe que ela não irá mais voltar e não quer enfiá-la no mesmo baú.

Hoje você acorda com medo e não chora. Sente que está perdendo alguma coisa. Não tem mais o colo de Anita, o medo de Antônio, e nem Clara, que você envolvia nas noites escuras. Sabe que depois da briga não vão mais se ver. Ela arrancou do álbum algumas fotos. Arrancou de você as suas poucas lembranças.

Hoje você acorda com medo e não chora. Você sabe que ela vai ficar pelo caminho escuro, mas iluminado. Você tem medo da entrega, de se descobrir ou de se perder, não sabe. Imagens que ela levou irão mofar, vão mudar a lembrança do que se perdeu. Clara levou alguma coisa que ficou inacabada. O mofo consome suas memórias despedaçadas e deixa tudo em tons pastel e, só uma coisa de Clara ficou em você. Mas ainda não sabe.

Hoje você acorda com medo e não chora. No quarto bagunçado, você não repara, mas as fotos estão machucadas, como você. Foi você quem enterrou Antônio, e depois Anita. Quis esconder o medo da solidão. Agora Clara se foi. Foi há minutos atrás.

Hoje você acorda com medo e não chora. A noite foi de retalhos, sem costura. Os corpos se fundiram, num infinito sem presente. A beleza do que aconteceu te deixou paralisado. Mas de repente você sentiu que perdeu alguma coisa morna e ingênua. Perdeu alguma coisa que ficou pelo caminho e não conseguiu recuperar. Viu ela partindo e não reclamou abrigo. Vai seguir seu caminho levando as imagens e o bolor que vão se fundir e criar novas histórias. Você levanta atento, mas sem tempo. Não vai mais sentir o abraço forte. Por isso agora você chora.

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