Saia da beira

por Américo Paim

EXT. TERRAÇO – NOITE

É festa de Natal no Edifício Miragem, em um bairro classe média de Salvador. Há uma mesa decorada, com comes e bebes, a árvore com cartões e embrulhos e canções clássicas são ouvidas. A noite é agradável, com brisa marinha. As pessoas conversam animadas, umas de pé e outras nas cadeiras plásticas. Em instantes terá início o tradicional amigo secreto do condomínio.

LOURDES – Absurdo essa escada! Vinte e um degraus, eu contei! Como o elevador não chega até aqui?

ALTINO – Calma, bem, falta pouco. É um prédio antigo, lembra?

LOURDES – Ninguém merece! Não matei meu pai nem minha mãe…

ALTINO – Sente aqui e descanse.

LOURDES – Na boca desta pirambeira? Tô fora!

ALTINO – Pronto – muda a cadeira de lugar.

LOURDES – Tá vendo a puta olhando pra cá? – aponta com a cabeça.

ALTINO – Que é isso… Lisete é uma boa moça.

LOURDES – Oxe, ali é putaça… E aquela calça apertada? Só porque é magra. Deve ser meu vestido.

ALTINO – Achei que esse tá folgado.

LOURDES – Me chamou de gorda? – encara.

ALTINO – Não, amor, falei à toa… Pensou no meu pedido? – muda o papo.

LOURDES – Do amigo secreto? Nem fudendo…

ALTINO – Fala mais baixo…

LOURDES – Nada! O couro vai comer. Tô entalada faz tempo!

A conversa do casal é interrompida por Arnoldo, o síndico, que bate palmas e pede atenção. Como Osvaldo e Núbia chegaram, não falta mais ninguém.

ARNOLDO – Boa noite, amigos. Vamos à troca!

MAURÍCIO – Você começa, engenheiro!

ARNOLDO – Tá bom, já imaginava.

CELINA – Bora, enrola não!

ARNOLDO – Muito bem, vamos lá. Todo mundo gosta do meu amigo secreto, um jovem trabalhador,                      verdadeiro cavalheiro!

GERALDO – Sou eu todo – levantando-se, para gargalhada geral.

ARNOLDO – Eu disse jovem! – mais risadas. Esse meu amigo diz que não quer casar…

NÚBIA – É Miguelzinho!

ARNOLDO – Acertou! – vai a Miguel e lhe dá o presente.

MIGUEL – Agradeço e reforço: casamento ainda não – arrancando mais risos. Bem, minha amiga secreta                  chegou há pouco tempo no prédio, tem cabelo comprido e é muito dinâmica – ninguém fala,                   mas já se sabe quem é – vamos lá, pessoal, tá fácil.

LOURDES – Mais dicas! O que ela faz da vida? É banda-voou? – a voz irônica.

MIGUEL – Está de calça preta – tenta sair do embaraço e caminha para Lisete com o mimo.

LISETE – Obrigado – com sorriso frio. Respondendo à pergunta, sou independente – incisiva e para Lourdes,                 o que deixa a mulher sem graça e com medo.

LOURDES – Viu isso? Só um cachação nessa vadia! – para Altino, que ri para si e não diz palavra.

LISETE – Meu amigo secreto é misterioso, parece ter segredos interessantes. Sempre gentil quando me                cumprimenta. É discreto e não se mete na minha vida, o que já é ótimo exemplo para outros seguirem. É casado com uma ótima senhora e isso já elimina alguns aqui.

ANDRÉ – Me chamou? – ri e tenta quebrar o climão instalado.

LISETE – Não. Ele é mais velho.

CELINA – Então deve ser o Rosalvo!

LISETE – A senhora conhece seu homem – vai a ele e entrega o brinde.

ROSALVO – Agradecido, senhorita – sorri e já sai a falar. Minha amiga secreta é uma das mais antigas                      moradoras, foi síndica e é casada com um sujeito gente boa – após algum silêncio, ele vai um                      tanto constrangido a Lourdes e lhe entrega o presente.

LOURDES – Agora é minha vez!

ALTINO – Meu bem, pense no que lhe falei! – apreensivo.

LOURDES – Meu inimigo secreto… Sim, inimigo! Não é amigo de ninguém aqui! E não vai ganhar nada!

MAURÍCIO – Que merda é essa, véi? – fala ao ouvido de Arnoldo.

ARNOLDO – Não faço ideia, mas essa bozenga é barril dobrado, espia só – comenta tenso.

LOURDES – O lugar dele é na cadeia! Roubou o condomínio o ano passado todo e só começou a pagar                      porque entramos na Justiça! – o burburinho é imediato. Por causa do canalha tivemos um                      processo da construtora que não recebeu pela reforma da fachada! Deveria ter vergonha nessa                      cara suja e não aparecer aqui!

ARNOLDO – Dona Lourdes, a senhora se acalme, por favor! Discutimos isso em reunião ordinária e todos                       concordaram que ele participaria. Ele já se desculpou, reconheceu o grave erro e está pagando                       – todos olham para Turíbio, o ex-síndico.

LOURDES – Eu não concordei!

As pessoas se levantam e vão comer e beber, a festa dispersa, mas a discussão continua. Altino leva a mulher de volta à cadeira, mas ela segue com os impropérios. Turíbio se limita a olhá-la provocativo.

LOURDES – Esta festa não é pra gente da sua laia! – aponta na cara, descontrolada.

TURÍBIO – A senhora precisa se acalmar… Assim vão saber o porquê desse chilique todo…

LOURDES – O que é, ladrão safado? Só uma surra de gato morto…

TURÍBIO – Para de fazer enxame, minha filha! Se plante! Tá recalcada porque minha mulher Zuleide foi                    promovida a gerente do banco e não a irmã dela. Que baixaria. Aceite que dói menos – fala bem                    alto para todos e ganha atenção.

LOURDES – Que culhudeiro da porra!

ALTINO – O senhor não fale assim com ela! – já sem paciência.

TURÍBIO – Fica na sua aí, dominado…

ALTINO – Como é? – fala e já parte para a ignorância…

ARNOLDO – Calma, meu povo, Natal é tempo de paz! – segura Altino.

ANDRÉ – Isso! Vamos deixar de briga – puxa Turíbio.

LOURDES – Filho da puta! “Geddelizou” o condomínio! – a beber água que Celina lhe dá.

CELINA – Calma, amiga. Deixa quieto…

Formam-se pequenos núcleos de conversa. Como não há mais clima para o amigo secreto, as pessoas circulam para distribuir seus presentes.

ALTINO – André, tome aqui. É coisa simples, não repare.

ANDRÉ – Seu Altino, muito obrigado. Mais calmo?

ALTINO – Sim. Eu temia por isso. Lourdes anda muito nervosa.

ANDRÉ – Que treta, né?

ALTINO – Pois é. Mas é Natal. Vamos relaxar.

ANDRÉ – É melhor.

TURÍBIO – Acalmou sua fera? – encosta nos dois e provoca Altino.

ANDRÉ – Turíbio, o assunto já encerrou, por favor!

ALTINO – A minha tá calma. Resolver a sua dá mais trabalho… – em tom que deixa Turíbio cismado.

ARNOLDO – Seu Altino, deixa disso – chega na conversa.

ALTINO – Eu até ia, mas não vou aguentar insulto de corno manso…

TURÍBIO – É o quê?

ANDRÉ – Calma, pessoal…

ALTINO – Devia olhar mais sua mulher, galhado. Fica aí trabalhando até tarde e a égua tá amarrada no                   pasto, fácil de chegar e montar.

TURÍBIO – Que porra é essa? – parte para ele, mas é contido por André. Junta mais gente.

ARNOLDO – Seu Altino, o senhor me prometeu…

ALTINO – Sim, mas não vou ouvir lero de chifrudo!

TURÍBIO – Como se atreve a falar comigo assim? E respeite minha mulher!

ALTINO – Eu até respeito, mas o Carlão… Por isso que o pobre do Arnoldo mandou o zelador garanhão                  embora – Turíbio lhe arregala os olhos.

ARNOLDO – Seu Altino…

ALTINO – Arnoldo, meu jovem, não se culpe. Se eu pegasse a mulher do enfeitado aí na garagem, no bem                   bom com o Carlão, eu faria a mesma coisa. Fogo da porra, hein? Não guentou nem procurar um                   lugarzinho mais macio. Na escada mesmo… Rapaz…

Osvaldo, André e Miguel seguram Turíbio a tempo. O barulho atrai mais pessoas. Zuleide se aproxima do marido para entender a conversa e ambos se afastam com ele aos gritos, rechaçando suas tentativas de segurar-lhe o braço. Altino bebe, ri e desconversa quando Lourdes chega perto. Turíbio é visto ao longe batendo boca com a mulher. Em outro ponto do terraço, à beira do parapeito, Lisete está só e olha a vista, quando Maurício se aproxima e fica ao seu lado.

MAURÍCIO – Você não responde minhas mensagens – sem olhar a moça.

LISETE – Não tenho nada pra falar. Amanhã eu checo a minha conta e se o valor não estiver lá, vou passar                 Informações úteis para você sabe quem – ele a mira com ódio, saliva e morde a boca ao pensar um                 empurrão e o corpo dela a rodopiar no vazio.

LISETE – Não é esse macho todo. Se eu sofrer um arranhão, a cidade inteira vai saber – ela o assusta com a                 intervenção fria e segura.

MAURÍCIO – Tá blefando. Não tem nada contra mim.

LISETE – Pague pra ver.

MAURÍCIO – Você está me extorquindo, sua vaca.

LISETE – Não ligo para os elogios, contanto que pague. Vou facilitar seu comprometimento com a causa –                 manipula o celular, encaminha mensagem de áudio para ele e o avisa que confira; ele se afasta                 para ouvir.

MAURÍCIO – Você não teria coragem! – volta assustado.

LISETE – Depende da sua escolha. Aliás, saia da beira. É perigoso. – diz sarcástica e se afasta.

Maurício a contempla sair e reflete que se o áudio que ouviu vazar, está liquidado profissional e pessoalmente. Nervoso, pega mais uma bebida e anda de um lado a outro. Sua mulher o observa de longe, mas não interfere. Lisete vai até o topo da escadaria, solta a fumaça do cigarro no ar. Maurício vê a cena e enquanto hesita por um instante se deve ir a ela e resolver o assunto ali mesmo, Turíbio e Zuleide passam por ele e chegam bem perto de Lisete, à beira dos degraus.

TURÍBIO – Vamos embora!

ZULEIDE – Não vou, já falei.

TURÍBIO – Você vem agora! – puxa-lhe o braço.

ZULEIDE – Me solte!

TURÍBIO – Você vai aprender a me obedecer! – segura o braço e tenta novo puxão, mas ela se desvencilha.                     Ele perde o equilíbrio e cai de costas escada abaixo, batendo muito forte a cabeça.

ZULEIDE – Turíbio!

O grito dela atrai a atenção de todos e uns acodem. Osvaldo desliga a música. Arnoldo e André descem rápido até o infeliz, mas o sangue no chão e o corpo inerte confirmam o pior. Lisete, que assistiu a tudo, apaga seu cigarro e desce os degraus sem pressa, a tempo de ser vista por Maurício, que socorre sua mulher desmaiada. Ouve-se outros gritos. Lourdes se abana e sorri para Altino. Celina chora trêmula no ombro de Rosalvo que olha intrigado o diário que Lisete lhe deu. Geraldo ouve o refrão de “Jingle bells” vindo de outro prédio e sente vergonha por cantar junto alguns versos.

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