Fábio Kalvan
A Sapataria Passo Doble funcionava no mesmo lugar há trinta e três anos e tinha como vizinhos um petshop (que já fora floricultura, ateliê de costura e depois salão de beleza) à esquerda e um escritório de contabilidade (antes um consultório médico popular) à direita. Raros foram os dias em que Seu Antônio faltou desde que ali começou a trabalhar, um pouco depois da inauguração, primeiro como empregado e aprendiz, depois como dono. Foi porque Seu Genaro se apegou ao rapaz dedicado e porque não conseguia mais tocar a loja, tanto pela idade quanto pela tristeza depois que Dona Dirce morreu, então o velho espanhol fez um preço camarada, facilitou os pagamentos, e o rapaz, não mais tão rapaz assim, ficou com o negócio, com as ferramentas e com a freguesia. Ali fez a vida e ali nasceu Raul.
Nos anos mais recentes uma rotina foi se somar às demais: chegar por volta das sete e meia, levantar a porta e jogar uma água com desinfetante, porque havia sempre um cachorro, um morador de rua ou um bêbado para urinar ali.
– Filhos da puta, dizia Seu Antônio enquanto executava a limpeza.
Um observador qualquer veria que o prédio não conseguiu acompanhar os passos rápidos do tempo. As cores das paredes eram indecifráveis, havia lâmpadas queimadas e tomadas inúteis, além de um letreiro descascado que divulgava um número de telefone de sete dígitos apenas. O interior se casava com o exterior. Seu Antônio passava o dia sentado atrás de uma bancada de madeira, óculos de leitura de lentes riscadas pendurados no pescoço, poucos cabelos, grisalhos, só dos lados do crânio, radinho ligado, à espera de clientes que foram rareando com os anos. Afinal era cada vez mais fácil comprar um sapato, uma bolsa ou uma bola de capotão do consertar os antigos, mais fácil entrar numa Renner ou numa C&A ou numa Decathlon, no crediário facilitado ou no cartão de crédito da loja, do que resolver tudo à moda antiga.
– Filhos da puta, era o que Seu Antônio dizia baixo quando clientes potenciais diziam que iam “pensar melhor” após ouvirem o preço de um orçamento.
Falava para si, pois não havia funcionário, tocava a loja ele mesmo, nem esposa ou companheira, tocava a vida sozinho. Quando muito, quem ouvia os resmungos do homem era Raul, filho único, não se sabe bem como, de Seu Antônio com Maria Aparecida, mulher de origem incerta e destino nebuloso, que vivia apenas nas memórias indecisas do filho ou no amargor que a menção ao nome dela gerava no sapateiro. Não seria exagerado dizer que a sapataria fora até bem pouco o mundo do rapaz de vinte e dois anos, já que ele mais o pai viviam na edícula dos fundos da oficina.
Um mundo com cheiro a couro, a cola e a calçados usados, habitado por pés de ferro, alicates, latas de graxa, tesouras, máquina de costura e escovas de crina. Um mundo que estava rachando.
– Pai, a gente deveria aceitar a oferta da Dona Sílvia.
– Não, tá doido? Não posso aceitar aquela mixaria. Foi daqui que tirei nosso sustento, foi aqui que te criei. E minhas ferramentas, vão pagar por elas? E se eu vender, como você vai trabalhar?
– Pai, eu não quero assumir a sapataria.
– Você não sabe o que fala. O ponto é bom, você tem tudo o que precisa aqui, não vai se preocupar com nada.
Difícil saber se Seu Antonio tentava convencer o filho ou a si mesmo, no contrapelo do que a realidade do faturamento decrescente ou o desinteresse do filho pelo ofício mostravam. O bairro passava por uma onda de valorização imobiliária e a dona dos imóveis vizinhos fez uma proposta irrecusável aos olhos e aos sonhos de Raul. Mas a teimosia de Seu Antônio atrapalhava que naquela ponta do quarteirão aparecesse um prédio de salas e lojas, alto e espelhado.
– Que Dona Sílvia e a oferta dela vão para a puta que os pariu, era como o sapateiro tentava encerrar a conversa quando o assunto surgia.
Aquilo irritava Raul mais e mais. Mas não era só a teimosia, era o que ela lhe jogava na cara: o pai rude, obtuso e alheado que tinha. Raul não herdara a habilidade com as mãos nem o gosto pelos detalhes, mas isso não contava para o pai, assim como não contaram, nunca, as vontades e os desejos do filho. Como quando Raul tinha seus quinze, dezesseis anos e o pai lhe deu um sapato que um cliente nunca mais voltara para pegar.
– Mas pai, eu calço é 37, esse é 36.
– Não tem importância, é pouca diferença. Além disso, é um 752, igual ao do Maluf. Sapato de homem.
Não quis ou ainda não conseguia contrariar o pai, então Raul foi para a escola com o calçado apertado. Doeu. No dia seguinte se calou e apertou o pé outra vez. Não saberia dizer o que incomodara mais, se os pés machucados ou o fato de estar de sapatos quando o ele queria mesmo era um adidas ou, sonho dos sonhos, um le coq sportif.
Raul deixara o 37 para trás, passara pelo 38, pelo 39 e agora o 40 lhe servia bem. Do mesmo modo, foi aos poucos se dando conta de uma vida além da sapataria. Não queria ser sapateiro, não queria ser como o pai.
– Pai, vamos embora daqui. A oferta da…
– Raul, não quero falar disso. Não começa.
– Mas pai, a oferta é boa, a gente vai conseguir outro lugar, uma casa melhor. O senhor pode se aposentar, o senhor já tem tempo.
– Já falei, não começa.
– Pelo amor de Deus, pai. O senhor não tá cansado de trabalhar?
– Tô sim, não aguento mais esses clientes folgados, cambada de filhos da puta que valorizam um serviço de qualidade. Mas só vou descansar depois que você assumir tudo.
– Já falei que não vou assumir nada.
– Ah vá, você não sabe o que quer.
– Pai, para de me tratar como se eu fosse criança, já tô bem crescido.
– Raul, a oficina tá montada, tem tudo, tem clientela, eu te ensino.
– Acorda, pai, que clientela? Isso tá cada vez mais vazio, o senhor reclama todo santo dia. Desculpa, pai, mas as sapatarias tão sumindo.
– Não fala uma coisa dessas.
– O senhor quer morrer trabalhando, nem consegue pagar as contas direito? Vamos vender a sapataria.
– Eu não te entendo, muita gente daria tudo para ter isso aqui. O que mais que você pode querer?
– Caramba, pai. O que eu quero? Muita coisa, muita coisa. Já quis tanta coisa. Já quis fazer teatro lá na escola mas o senhor não deixou, disse que era “coisa de desocupado”. Já quis brinquedos, roupas, uma bicicleta mas o senhor disse que “não era para filho de sapateiro”. Já quis saber mais da mãe, como vocês se conheceram, porque ela nos deixou, porque ela nunca manda notícia, mas o senhor diz que “melhor assim”. E quero muitas coisas, quero sair daqui, quero estudar, quero uma vida melhor, para mim e para o senhor.
– Você ainda é novo e não sabe o que fala, fica quieto.
– Sei sim, pai. Aí que está. O senhor sempre querendo dizer o que eu devo fazer, como devo pensar, como devo me comportar. Eu cresci, pai. Não sei por que cargas d’águas você acha que tem o direito de afogar tudo aquilo que sinto no meu peito.
– Não sei do que você tá falando. Tenha respeito que sou seu pai e fiz muito esforço para te criar sozinho, sem ajuda dela.
– Fez esforço sim, nunca faltou comida e remédio em casa. Mas o senhor pede respeito e isso sim faltou, o senhor nunca respeitou minhas vontades, pai. O senhor tem que respeitar minhas vontades.
– Essa proposta da Dona Silvia virou sua cabeça. Tá vendo como você é fraco, como não sabe das coisas?
– Pai, o senhor não entendeu nada. O senhor não entende nada.
Raul pegou a mochila que estava sobre o balcão e saiu.
Aonde você vai, Raul? Volta aqui.
– Vou procurar um sapato maior, pai. Eu já escolhi o sapato que eu quero.
– Do que você tá falando, Raul? Volta aqui!
