O pio da coruja

por Américo Paim

Não faz muito tempo. Foi coisa de rotina. Ele tinha dúvidas sobre cadastro e veio a mim.

– Senhor, onde arquivar o caso do José Honório? Chegou ontem e ainda tá na triagem.

– O que matou o velho da fazenda na Bahia?

– Santa memória! – opa, desculpe.

– Meu jovem, qual o seu cargo?

– Sou Auxiliar de Encardido II, mas tenho exame para Assistente no mês que vem.

– Aprenda: esse tipo de palavreado, não. A coisa mais fácil aqui é se queimar. Me passe a ficha dele.

José Honório dos Santos – irônico isso – ladrão e homicida, sessenta e um anos, temperamento agressivo, pouco inteligente, obcecado por riqueza. Nascido pobre, em Serra Preta, Bahia, Brasil, filho de José Angelino dos Santos, alcunha Zé do Cabresto, trabalhador, mas cachaceiro e fraco das ideias e Dona Maria Francisca da Hora, bonita, amorosa, mas fofoqueira e manipuladora – hum, ótima cepa. Dois irmãos mais velhos, Juraci e Romério, tidos como bons – o cadastro está desatualizado talvez – e um mais novo, Benedito, falecido ainda criança por picada de cobra durante caçada com o pai – vacilão. Honório foi criado na roça dos pais agricultores com excessos de religiosidade; vivia atrás de bicho, batendo baba, trepando em árvore – que simplório. Aos oito anos, ao roubar um cavalo – precoce, gostei – tomou uma queda que o deixou com uma perna um pouco menor que a outra, um andar tipo tá fundo tá raso e alguma dificuldade de equilíbrio na corrida. Ganhou o apelido de Troncho, o que o irritava muito. O pai, bêbado ou não, batia nele com regularidade e mãe e irmãos eram coniventes. Começou com pequenos delitos, frutas, galinhas, mercados. Evoluiu muito bem para carros e propriedades. Ainda novo já era conhecido no interior.      

Refleti que apenas a ficha não seria suficiente para o rapaz levar a tarefa a cabo e dei outro rumo ao assunto. Decidi contar-lhe a história principal do condenado. Facilitaria para ele saber como arquivar. Reproduzo aqui o que lhe disse.

Uma noite quente, ele com trinta e cinco anos, já meliante experimentado, estava escondido no mato, perto de Morro do Chapéu, fugido após roubar um armazém nas redondezas. Era famoso por escapar bem. Difícil pegar o cabra. Sentado perto de um pé de mandacaru, ele suava muito, fumava um cigarro de palha e pensava na vida que levava, cheio de angústia. Sentia-se na encruzilhada – momento perfeito para mim. Achava que quase nada que fazia dava certo e que ganhava pouco. Sem casa, dinheiro ou mulher, bateu o cansaço, aquela agonia por dentro e ele murmurou baixinho: “Dava qualquer porra pra ganhar uma bolada e sair dessa merda de vida…”. Aí ouviu um barulho estranho atrás dele. Passou a mão no revólver. Apurou o ouvido. Pensou que fosse cobra – elas caçavam àquela hora da noite – mas quase ficou bom da tronchice quando virou e deu de cara com aquela figura à sua frente, ou seja, eu. Caprichei no visual: alto, magro, barba e bigode cheios, cabelo desgrenhado e para trás, pele queimada de sol, rifle preso às costas. Na cintura um facão enorme e um trabuco 45. Ele se sentiu queimar por dentro – um dos meus efeitos preferidos. Nossa conversa começou.

– Boa noite, Honório – minha voz era macia e sinuosa, feito a jararaca caminhando.

– Eu lhe conheço?

– Faz tempo que acompanho seus passos.

– Oxe, tô no mato tem três dias e ninguém tá no meu rastro não!

– Falo da vida, homem. Venho de olho em você.

– Mas nem sei quem é você, como pode?

– Posso me sentar aí perto? Tô meio cansado hoje.

Ele estava cheio de desconfiança, mas acatou. Sentei do outro lado da pequena fogueira e comecei a falar. Contei várias passagens da vida do pobre e a cada história ele se assustava mais. Não entendia como eu poderia saber tanto, em detalhes. Depois de um bom tempo ouvindo, não aguentou e interrompeu.

– Oxe, homi, mas quem é você, pelo amor de Deus?

– Mas já vai chamando pelo outro…

– Oxe, nem o Cramulhão ia saber esse tanto de merda que eu já fiz!

– Não me subestime. E eu não gosto muito desse apelido. Tem outros mais elegantes…

– Ué… Não, não pode ser… Então você é o…

Parou a frase e se afastou, boca aberta e olhos pocados. Ele era só medo. Pensou em correr, em pegar o revólver, mas sentiu o corpo paralisado – outro truque que gosto.

– Que besteira… Me dar tiro? Logo em quem vem lhe ajudando esses anos todos?

– Ai, meu Jesus, é o Capiroto!

– Olhe, pare de chamar o outro pessoal. E esse nome também é feio. Prefiro Demônio. Mais universal, tem    boa aceitação na praça. Se acalme, vim aqui a negócios. Tenho como ajudar de novo, mas dessa vez não será de graça, afinal você já passou da fase de formação, já é macaco velho. Está pronto para o que tenho a oferecer.

– Tá falando de que, Seu, Seu… Demo?

– Agora sim, melhor. Tenho a solução para sua aflição.

– Tô ouvindo – sentiu o corpo voltar ao normal e uma estranha tranquilidade.

– Sei de uma oportunidade em uma fazenda não muito longe daqui. Dinheiro muito. Mais do que precisa pra sair dessa merda, como você falou.

– Você ouviu?

– Ouço tudo seu e faz tempo, já lhe disse. Repare, o dono da Fazenda Pedra de Fogo vendeu umas propriedades e encheu o bucho. Tudo guardado em um cofre pequeno. O homem tá velho, vive só com a mulher e nem tem tanta segurança na sede, só um capataz e dois vaqueiros. Tá fácil. Vai ficar rico e sair dessa vida – aqui é que eles todos caem – vai parar de fugir por aí.

– E como faço? Onde é? – os olhos já brilhavam.

Lhe dei um mapa e um papel com tudo que ele precisava: instruções, horários, recursos, fornecedores, rota de fuga. Mastigado. Ele já fazia planos quando interrompi seus pensamentos.

– Tudo isso por algo simples.

– É o que, Seu Satanás, aliás Demônio. Quanto é a sua parte?

– Não é quanto. Meu ramo é colecionar almas, você talvez saiba.

– Vixe, já ouvi essas coisas. Mas aí é só depois do paletó de madeira, não é? – falou e se arrependeu na hora, quando o encarei.

– Pois é, vamos acertar essa data e tudo se resolve.

– Rapaz, é mesmo? Mas esse negócio de alma não dá pra parcelar, assim feito pagar no cartão?

– Meio complicado, né? Tem que ser à vista mesmo.

– Pode ser já mais velhinho, então? Eu agora tô muito “muderno” ainda, Seu Capeta. Nem tenho quarenta.

– Sim, essa questão do prazo se ajeita. Pode ser daqui a uns quarenta anos. Tenho muito tempo. Salvo alguma oscilação no mercado, dá para fazer.

– Então está tudo certo! – Troncho ficou feliz.

– Só mais um aviso.

– É o que, Seu Tinhoso?

– Se na noite do serviço você ouvir pio de coruja, suspenda tudo e vá embora.

– Oxe, mas por que?

Nem respondi. Saí devagar, olhando para ele, e sumi na escuridão. Troncho ficou muito cismado, mas esqueceu logo. Passou uns dias a planejar o golpe. Em um mês ele tinha tudo pronto e colocou em prática.

Em um domingo, noite bem escura, rumou com dois comparsas na direção da Pedra de Fogo, que ficava perto de Ipirá, no caminho para Baixa Grande. Levaram comida, cachaça, lanternas e armas. Deixaram o carro o mais próximo possível da fazenda, foram para perto da sede e ficaram escondidos até a certeza que o casal estava sem proteção. A casa do capataz apagada a uns cem metros da sede, que só tinha a luz da varanda acesa. Entraram na casa e foram direto ao cofre. Quando estavam carregando, Troncho congelou: um pio de coruja. E outro e outro. Antes de decidir o que fazer, surgiu o dono da fazenda e eles correram até a varanda. Troncho tropeçou e caiu. O dono sacou, mas o bandido foi mais rápido e o velho morreu. Os três sumiram no mato e no mundo. Foram procurados por anos a fio e nunca os acharam – fiz a minha parte. Até que a mídia parou com o assunto e a própria polícia arquivou o caso. Troncho se aposentou, comprou terra longe dali e virou o senhor José Honório, dono de fazenda no interior de Minas Gerais.

Os comparsas dele morreram poucos meses depois, em circunstâncias que providenciei, afinal havia o compromisso firmado com o Troncho e os dois ensaiavam prejudicar o meu cliente. Há pouco tempo, porém, surgiu um fato novo. Naquela noite do roubo à fazenda havia mais um personagem, também por minha interferência. Não era um simpatizante da nossa causa, mas eu acreditava em seu potencial. Escondido no quintal da sede, Severino assoviou imitando uma coruja. Era seu sinal para a Domingas, filha do caseiro, ir ao seu encontro escondida. Com o tiro e tudo mais, não rolou nada e ele ainda teve que explicar o que fazia ali. Complicou para o rapaz, mas se safou. Há uns dias, depois de vários perrengues na vida, ele apelou a mim e fui lá negociar mais uma alma. Por essa razão, o cronograma do Troncho passou por um ajuste e ele sofreu esse pequeno contratempo do roubo à sua fazenda. Assim que aconteceu eu apareci na UTI do hospital onde ele ficou após ser baleado, para lhe dar a notícia – o desfecho deveria ter sido sem precisar de atendimento médico, mas Severino ainda não tem tanto traquejo com armas… nada é perfeito, né?

– Seu Cabrunco!

– Sempre os apelidos que não gosto…

– Seu Demo, o que foi?

– Vim lhe buscar.

– Oxe, lá ele. Que diabo é isso? Opa, desculpe. Não era pra daqui a uns dez anos?

– Precisei antecipar, surgiram demandas.

– Pô, não tem outra alma aí de bobeira?

– Não dá.

– Mas que inferno! – ih, foi mal.

– Relaxe. Vou lhe explicar. Você sempre foi do meu time. Uma maldade aqui, outra ali. Tinha uma quedinha   aqui pelo amigo, já era meio destino, né?

– É o senhor, tá certo, não vou mentir.

– Então. Acontece que no outro dia um cara que sempre esteve do lado do outro pessoal, pediu a minha ajuda e eu não pude negar. Virou uma questão de orgulho profissional, nada pessoal. Aí, usei sua data. Além disso, você ouviu o pio da coruja…

– Mas rapaz, o cofre na mão, já de saída… Não dá pra liberar, Seu Coisa-Ruim?

– Negócios são negócios.

– Vá ser caxias assim lá no inferno – opa, falei merda.

– Não é? Que coisa. Tá ouvindo esse barulho? – Honório prestou atenção.

– Eita, é pio de coruja!

– Achei que seria elegante.

Terminei e o auxiliar me olhava atônito. Lhe perguntei:

– Então, vai para que arquivo?

– Traidor?

– Claro que não! Coloca em “velho amigo”.

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