Silvia Argenta
Depois que minha irmã saiu da casa para ver quem havia chegado à fazenda, me sentei na cadeira onde ela estava. No assento ainda quente, puxei a coberta para cobrir as pernas e continuei o que ela fazia. Com a espátula, comecei a mexer nos pinhões que estalavam na chapa do fogão a lenha. Passei alguns minutos sozinho, o que não era comum, e me incomodei com a falta de companhia. Com meus dedos grossos, afastei a cortina e olhei para Zely, toda encasacada e sorridente, ao lado de um homem alto que nunca havia visto.
O desconforto da solidão me atormentava desde que eu tinha três anos de idade. Viajava com minha mãe quando o ônibus capotou num precipício. Não me lembrava de nada do acidente, mas me recordava da sensação que tive quando o veículo parou de rodar morro abaixo. Acho que fui jogado para fora pela janela e fiquei sozinho no meio da mata, abraçado a uma rocha. Não havia ninguém por perto. Devo ter chorado e provavelmente fiquei muito tempo parado esperando que alguém me visse e me socorresse. Já minha mãe contava que não fiquei tanto tempo sozinho, pois fui encontrado logo por um dos passageiros, que me levou até ela. Mas apesar de toda a violência do acidente, o que ficou mesmo foi o sentimento de abandono.
Estávamos indo para a cidade consultar um médico. Coisa de rotina. Depois do acidente, em que nós dois sofremos apenas arranhões leves, não consegui mais articular as palavras e minha fala ficou bastante anasalada. Mesmo assim, meus pais resolveram não procurar mais ajuda médica e raramente viajamos. Fora isso, como a escola era longe da fazenda, não fui matriculado. Nunca aprendi a falar direito, então criei uma língua própria. Quando criança, conversava sozinho em voz alta, andando para lá e para cá e brincando entre Paraná e Santa Catarina, na linha imaginária da fronteira entre os dois estados que passa bem no meio da casa.
Minha família sempre deixou que eu me expressasse do meu jeito. Sorte de caçula. Eles entendiam algumas coisas, mas não tudo. Às vezes me esforçava para falar português. Teve um dia que a Zely fez polenta e quirera, duas comidas que eu não gostava, para comer com feijão no almoço. Sentado à mesa, senti o ar passando pela boca e soltei: “num sô tavalo pa cumê mio”. A comoção foi enorme. O pai, todo sisudo, até sorriu. A mãe se levantou e me deu um beijo na bochecha, espremendo meu rosto com as mãos. Meus irmãos ficaram felizes, mas logo já estavam atracados na comida que recusei, e a Zely foi para o fogão cozinhar arroz para mim.
Ao lado do mesmo fogão e com o silêncio da casa, percebi que alguns pinhões não sapecaram. Só então reparei que o fogo estava ficando fraco. Abri o baú, peguei alguns pedaços de lenha, abri a portinha do fogão e os acomodei lá dentro, tentando aproveitar as chamas insistentes com o maior cuidado para não queimar a mão. Não funcionou. Decidi pegar a tampa de alumínio de uma panela e a abanei algumas vezes na frente da portinha aberta para estimular que o fogo se espalhasse mais rápido pela lenha recém-colocada. As labaredas voltaram, fechei a portinha e coloquei mais pinhão na chapa. Com onze anos de idade, eu já dominava a cozinha. Sentei novamente na cadeira, olhei para fora e os dois continuavam conversando de pé.
Também resolvi ficar de pé. Fui até a porta de trás da casa para ver se o resto da família aparecia. Cada um tinha alguma atividade na fazenda e, como já estava bastante frio, logo eles deviam voltar. Fiquei alguns minutos curvado de braços cruzados, sentindo o vento ressecando a pele do meu rosto e pensando por que não fui com a mãe colher maçã. Se eu tivesse ido no pomar, não ficaria sozinho. Mas logo nesse dia decidi ficar em casa para ensinar a Zely a fazer pão sovado. Apesar de ser doze anos mais jovem, o meu pão era melhor que o dela.
Ali na porta, notei que já estava na hora de cortar os buxinhos que cercavam a casa. Por sorte, eles não eram altos e eu conseguia apará-los sem precisar de uma escada. Tinha de avisar o pai sobre isso para que ele me autorizasse a pegar a tesoura. Depois também poderia arrumar a pintura da porta, toda descascada pelas unhas dos cachorros. O pai teria de me deixar pegar o galão de tinta azul guardado lá na oficina. Em casa, havia essa regra de sempre avisar sobre o que eu iria fazer, e eu nunca desobedeci.
Sem autorização para fazer outra coisa que não o pão sovado naquela tarde, fechei a porta para que a cozinha voltasse a ficar aquecida. Tirei os pinhões da chapa, coloquei numa bacia e fui até a janela novamente. Os dois permaneciam do mesmo jeito lá fora. Como conseguiam conversar por tanto tempo? Quando a família estava toda reunida em casa, não tinha essa quantidade de assunto não. Nos momentos de conversa, enquanto todos falavam, eu só acompanhava a dinâmica dos diálogos, cada um emitindo opinião na sua vez ou todos ao mesmo tempo, dependendo do tema. Eu mexia a cabeça, apontando minha percepção sobre o assunto com sim, não ou talvez, sempre sentado com os braços estendidos ao longo das pernas esticadas e as mãos juntas entre os joelhos.
O sentimento de abandono foi ficando mais forte ao ver a mesa cheia de farinha espalhada e na ponta a massa pronta para ser sovada. Os imprevistos não me faziam bem. Além de sempre ter alguém por perto, tudo que eu fazia precisava de vigilância. Comecei a passar as mãos pelo rosto repetidas vezes, as fossas nasais se alargaram e as pernas tremiam. No peito, parecia que havia uma rocha pesada, querendo me ancorar. A mesma sensação do isolamento no meio da mata foi inevitável sem outra coisa para me distrair e tive vontade de chorar. Sem saber quando o restante da família ia voltar para casa, me forcei a imaginar a mãe fazendo cafuné no meu cabelo castanho para me acalmar e pisquei bem forte meus olhos pequenos. Inquieto, também comecei a falar alto no meu idioma, sem me movimentar e sem saber exatamente o que queria dizer.
Enfim, escutei algumas vozes mais perto. Em seguida, o barulho da sola da bota passando pela lâmina da raspadeira para tirar a sujeira antes de entrar na varanda e depois o ranger das dobradiças da porta. Os dois entraram na casa. Abri os olhos e corri até a sala, aliviado por não estar mais sozinho, apesar da respiração ainda afobada. Zely apoiou a mão nas minhas costas, me aproximou carinhosamente e falou: “Zico, este é o meu irmão Zauri. Não fica olhando para ele”. O homem até então desconhecido estendeu a mão e nos cumprimentamos. Ele não atendeu o pedido de minha irmã e reparou em mim. Fiquei feliz. No início da tarde, só tinha uma pessoa me fazendo companhia. No final, eram duas. Melhor assim. Fiz um gesto com a mão próxima a boca, indicando que havia comida. De súbito, o ar passou pela glote, língua e lábios. Não pude conter a explosão do meu corpo tentando eliminar o peso do peito e disse: pinhão. Sem nem esperar que eles tirassem os casacos, puxei os dois pelos braços, atravessamos a fronteira e chegamos à cozinha.
