Por um clique

Helô Mello

Por um clique

Marcos achava sua timidez um defeito. Tinha inveja das crianças que riam alto na sala de aula. Era conhecido como Marcolento porque andava devagar como se tivesse sapatos pesados que não desgrudavam do chão. Apelido e movimento sincronizaram- se como um nome de batismo. Marco não era lento. Seus pensamentos, ágeis, ficavam emperrados na parede invisível atrás da censura que a sua língua exercia. Para se vingar, escrevia. Enfiava o nariz no papel, penetrava mundos e se dava bem nos seus contos e nas notas do boletim. Andava vagaroso porque, não conseguindo romper a barreira entre ideias e fala, ficava irritado. Concluiu que, quanto menos se movesse, mais invisível ficaria evitando amolação.

Plinio, seu inimigo, era extrovertido. Marcos via nele tudo que não era: alto, forte, o atleta preferido no futebol do recreio. Foi Plinio quem deu seu apelido, Marcolento, que se espalhou com facilidade. No começo chorava de ódio no banheiro, mas depois transformou o choro em raiva e descontava em histórias onde Plinio se dava mal. Ficava tão encurvado sobre a mesa que seu corpo formava um arco que só deixava um curto espaço reservado para a caneta se mover no papel. Todos saíam se atropelando da classe quando tocava o sino, mas Marco permanecia para se transformar em herói, voar e ser o protagonista de suas histórias.

Um dia Plinio chegou com uma câmera fotográfica Kodak Instamatic. Se ele já era exibido, virou o centro. De sua cadeira Marcos não interrompeu sua escrita e, pelo cantinho do olho, entre respirações e sílabas que custavam a sair de sua mão, via fragmentos daquele objeto. Uma caixa preta que cabia na palma. Na frente a lente saliente era protegida por pequenas argolas fixas. A inveja só cresceu proporcional à curiosidade. A cada clique, uma foto e uma punhalada de curiosidade e inveja. Só os melhores amigos estavam autorizados a encostar no tesouro. E novos amigos apareceram de outras classes, os mais velhos e os mais fortes. Marcos não se enquadrava em nenhuma categoria, alias nem era notado. Espiava miúdo, quase um inseto.

Foi quando Dona Julia chegou na classe para acabar com seu tormento. Ele se identificava com seus óculos grossos de tartaruga que escondiam um rosto miúdo. Não demorou para a professora dispensar os visitantes e fazer todos se sentarem. Como nada surtisse efeito, tomou a câmera fotográfica das mãos de Plínio. Por um instante, Marcolento achou que haveria uma rebelião como nas suas histórias em que Marco Herói salva os amigos das garras de Plinio Pinico. De aparência frágil, Dona Julia era firme. Não precisava gritar, sua fala assertiva e a ameaça de mandar os bárbaros para a diretoria era o suficiente para encerrar motins.

A classe não piscava e agora Marcos podia apreciar a máquina fotográfica em cima da mesa da professora. Sentava-se na primeira fila e teve o privilégio de apreciar a estrela de camarote. Se transformou em polvo e seus braços deslizaram nos contornos arredondados da câmera, sem pressa. Descobriu o botão de cor prata, de onde brotavam os cliques, no canto superior direito que tinha discretas ranhuras, para que o dedo não escorregasse no instante decisivo. A pequena lente central era barriguda e

logo acima, no canto esquerdo, se localizava o visor. A placa brilhante trazia o logo Kodak Instamatic. Estava hipnotizado quando escutou Dona Julia quase em cima dele, com a voz um tom mais agudo do que o normal, o chamando para voltar ao livro. Levou segundos vagarosos para recolher os olhos do fundo do mar e ancorar na sala de aula. Então escutou a gargalhada geral fazendo lembrar seu apelido áspero.

Pela primeira vez, foi obrigado a ir para o fundo da classe como punição, para não se perder em imagens que não revelou. Teve que se levantar, a contragosto, escutando o coro sussurrar Marcolento, anda, Marcolento, andaaaaaa. Foi se sentar ao lado de Plinio Pinico. Se curvou desejando desaparecer na mesa, esperando os alfinetes de costume. Mas Plinio lançou um olhar gentil. Marco até olhou para o lado, mas não havia ninguém, não foi engano. Dona Julia tinha preparado uma prova surpresa. A última do ano e Plinio seria jubilado já que seu boletim formava um colar de pérolas: zero, zero, zero, zero. Na reunião de conselho, por muita insistência de seus pais, poderosos, deram uma última chance para se manter na escola. Deveria ir bem nessa prova que Plinio, mesmo que tivesse estudado, não teria capacidade de enfrentar, a ponto de recuperar o ano em que não abriu cadernos ou livros.

Marco, que escutou tudo isso no sussurro desesperado do vizinho, entendeu o pedido de socorro, como de quem está a beira do abismo e encontra um ser que ao estender a mão pode evitar um destino trágico. Marco se manteve imóvel. E Plinio fez a oferta final: se desse cola poderia ficar com o seu tesouro, a Kodak Instamatic, fariam uma troca. Pela primeira vez, Plinio se dirigiu a ele e não o insultou. Marcos viu um Plinio que não conhecia, de olhos arregalados, mãos suando e boca retorcida. Era sua chance de ganhar a passagem para romper a timidez. Já se imaginava com a Kodak nas mãos e todos ao seu redor, o paparicando, e agora poderia ser ele o centro das atrações, o poderoso.

O papel pousou na sua mesa. Dona Julia, que conhecia a rivalidade entre eles, distribui as provas e foi se sentar na frente da sala. Plinio suplicava com o olhar as respostas e alternava o movimento da cabeça, mostrando a câmera que oferecia em troca.

Marco, resignado, obediente, a cada questão completada, passava o resultado a Plinio, que sem nem ler o enunciado, copiava. Como um casal dançando tango, os dois completaram rapidamente a prova. Marco respondia uma questão, pausava, esperava Plinio copiar e seguia para a próxima ate a última. Quando completaram a prova, Plinio, ágil, deu um pulo da cadeira e entregou a prova. Peito estufado, parecia um chester. Resgatou seu tesouro pousado intacto na mesa de Dona Julia. Na saída da sala, parou, virou se para trás, com um gesto estudado para ser dramático, deu uma olhada superior a Marco, que ainda se mantinha paralisado em sua mesa. Plinio saiu confiante, pois seu futuro estava garantido, iria gabaritar a prova, como usual nas provas de Marco.

Marco demorou a sair. Apareceu no corredor, leve pela primeira vez, como se tivesse jogado pela janela seus sapatos velhos. Os colegas repararam e pela primeira vez não o chamaram de Marcolento. Abriu um sorriso quando passou por Plinio. Ambos agora

sabiam quem seria o líder da classe no próximo ano. Marco sabia que iria demorar muito tempo para conseguir sua primeira câmera, mas ganhou o clique da liberdade.

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