Você joga, você busca

por Américo Paim

Como lhe disse, é só um rascunho do argumento para desenvolver o livro com minhas memórias. Em alguns meses completo sessenta e cinco anos, momento bom para um balanço. Você se dispôs a me ajudar, então sente-se aí, em silêncio, e me ouça falar. Meu amigo e confidente de tantos anos, se tiver contribuições, anote, memorize, mas não me interrompa. Quero me ouvir falar, se faz sentido, se é o que idealizei, não o que me cobram que escreva. Não sei se o texto está interessante e acho provável que o tenha escrito apenas para mim. Vou começar.

Sou o mais velho de três irmãos nascidos no interior da Bahia, em 1936, 1938 e 1939. Quase não tenho lembranças de antes da doença que marcou a minha vida inteira. A primeira coisa que me vem é uma lata de querosene, daquelas de vinte litros, em que minha mãe mergulhava minha perna direita em sebo de carneiro. Depois me deitava no chão e fazia intermináveis flexões na perna, apesar dos meus gritos de dor. Acreditava que era para o meu bem, o caminho da cura. Era fé, amor e ignorância. Eu tinha poliomielite. Não havia solução. Desde muito cedo, por causa das fortes dores ao pisar com a sola, eu só tocava o chão com a ponta do pé direito, o que o deixaria muito deformado para sempre. Logo não havia mais força ou controle do joelho para baixo, então, para me equilibrar melhor ao andar, eu segurava a minha fina coxa direita e movimentava o resto da perna. Lembro de minha mãe cortando o fundo do bolso de calças e bermudas, para facilitar o acesso da minha mão à perna. À medida que eu crescia, meu corpo pendia para o lado direito a cada passo que dava e isso desenvolveria severa escoliose em futuro próximo.

No ano em que nasci, o médico polonês Albert Sabin tinha trinta anos e já estudava a pólio. Sua vacina maravilhosa só surgiria, porém, em 1961, quando me formei na faculdade, já habituado à doença. Mas nem sempre foi assim.

Na infância, por causa da doença, meus irmãos e amigos me defendiam e protegiam de forma instintiva e a isso me habituei. Em pouco tempo, porém, entendi que minha vida seria diferente e o professor foi meu pai e seu estoicismo. Ele tinha pouco mais que o primário – começou a trabalhar cedo em uma marcenaria (que depois seria sua) – mas meio que nasceu terapeutizado. Sempre enfrentou as dificuldades. De temperamento forte, que herdei, sempre franco e verdadeiro, me deu várias lições. Recordo dois episódios marcantes, que mudaram a minha forma de ver minha diferença e moldariam minha vida com a pólio.

Um dia, jogando bola com meus irmãos na frente de casa, chutei alto e a bola caiu no telhado, algo corriqueiro. Meu irmão do meio já ia subir pela fileira de cobogós do canto da fachada. Meu pai assistia à cena e o impediu. Me olhou e disse, voz pausada, que eu jogara e eu buscaria. Pelo desafio, incrédulo e com medo, escalei a parede, a despeito de perna e pé atrofiados. Cheguei ao topo e exibi a bola, feliz, em triunfo. A descida foi mais perigosa, mas saí ileso.

Em outra ocasião, cheguei da escola atrasado para o almoço. Minha mãe, preocupada, me recebeu à porta. Minha roupa suja e rasgada, rosto com marcas e olhos vermelhos de choro recente. Antes dela, meu pai perguntou o que acontecera. Sua figura não me deixava mentir. Confessei ter brigado na escola. Me olhou repreendendo a conduta, que eu sabia que desaprovava. Em lágrimas, contei que um colega me chamara de capenga. Com olhar terno, me falou mais ou menos assim: “Filho, você é capenga. É como as pessoas chamam os que mancam. Você é assim, mas não é pior que ninguém por isso. É tão bom quanto os outros. Jamais esqueça isto. Pode fazer tudo o que quiser”. O choro continuou, mas me senti seguro.

Passei a participar de todas as atividades com as outras crianças “normais” – até no futebol, que eu ficava no gol ou na ponta esquerda, para não atrapalhar. Sofria com o “bullying”, mas me impunha. Saí dessa fase sem maiores traumas. Eu ainda tinha doze anos e a família mudou para Salvador. Meus pais queriam o que não tiveram: melhor educação para os filhos. Foi preciso coragem.

Meu pai vendeu a marcenaria e ele e minha mãe abriram uma pensão no Campo da Pólvora. Lá fiz amizades para toda a vida e era tratado como um igual. Entre 1949 e 1956, completei os estudos antes da faculdade, aprendi a viver na cidade grande e, respeitando meus limites, a fazer quase tudo sem depender de ninguém. Tomei quedas (uma foi feia porque inventei de despongar do bonde) por excessos, tropeços, desequilíbrios e vivia com bolsas de gelo nos pulsos, que suportavam a carga nos meus tombos. Uma grande conquista foi aprender a dirigir. Não existiam os carros de câmbio automático. Eu apoiava a perna fraca e fina sobre o acelerador e usava o pé esquerdo colocando-o de lado, para os pedais de freio e embreagem. Tive a ideia e testei nos carros de alguns amigos que me ajudaram. Consegui a habilitação, para alegria geral. Familiares e amigos sempre me incentivavam e eu estava cada vez mais confiante.

Não me sentia diminuído por nada ou ninguém, a despeito de várias brigas, algumas de porrada mesmo (quando passavam dos limites), das piadinhas, de ser preterido por meninas pela minha condição física. Havia, porém, o sentimento de pena de alguns e as olhadas constantes de curiosidade sobre a disparidade física entre minhas duas pernas e o meu andar claudicante. Eu reparava, mas tentava olhar o mundo sendo tão meu quanto de qualquer um. Me sentia forte e capaz. Aos poucos, o que não podia fazer não mais me frustrava. Em 1957, porém, força mental e convicções foram colocadas à prova.

Em abril, dois meses depois de eu ser aprovado no vestibular de Direito da Universidade da Bahia (depois Federal), faleceu meu pai, meu maior incentivador. Foi duro. Senti o golpe. Na faculdade, também não foi fácil. Desde o primeiro ano experimentei hostilidades e perseguições de colegas e de um professor. De onde eu não esperava, da classe social “iluminada”, o preconceito veio. Não compreendia e muito menos aceitava as abordagens daquele professor. Implicava com a caligrafia, a forma que eu sentava e com minhas respostas e intervenções. Um colega espalhou que ele teria dito que ali não era lugar para aleijados, que me faltava força moral e outros absurdos. Nada foi provado, mas aquilo ali não era normal. Nos enfrentamos por três semestres seguidos. Sempre fui ótimo aluno e minha resposta foi com notas boas, mas a indignação era grande por ver pessoas com ideias, discursos e condutas tão reprováveis posarem de referência e oráculo, com direito a seguidores e admiradores. Aquilo foi um grande teste.

No mês de julho, conheci a mulher que anos depois seria minha esposa e mãe dos meus filhos. Era estudante de Letras. Nos conhecemos em uma festa. Ela me conquistou logo, me mostrando de que era feita. Eu estava com amigos e ela chegou com um grupo. Sentou-se ao meu lado. A criatura mais linda. A pele tão branca em contraste encantador com os longos cabelos negros, os olhos amendoados e um sorriso que me deixou bobo. Conversamos e eu a tirei para dançar. A minha condição se mostrou, mas ela não se incomodou com minha dança limitada. Na sequência, fui eu quem trouxe o assunto e ela só quis saber se foi acidente e se eu sentia dor. Logo namorávamos, o que incomodou a alguns. Soube por amigo comum que umas ditas amigas a abordaram, interessadas em saber as suas razões para se relacionar com o ”mulatinho aleijado de cabelo duro”. Respondeu-lhes algo como “quantos dias vocês têm para ficarem me ouvindo”? Ela me via inteiro. Conheci a história da sua família e ela era neta de escrava liberta. Eu a entendia muito. Porém, a extensão do preconceito que nos cercava me chocava cada vez mais.

No fim do ano, a gota d’água. Um dos colegas, de origem humilde, inteligente, bem-humorado, que era carteiro enquanto estudava na faculdade, foi tratado com deboche e ironia por aquele mesmo professor em frente a todos, por uma nota ruim. Era o preconceito racial e de classes (o aluno era negro e pobre). Me levantei e protestei em voz alta, o que quase me custou o afastamento das aulas, mas ganhei admiradores e um amigo para toda a vida. A partir desse dia, decidi focar minha carreira contra o preconceito e a favor da inclusão. Eu achava que o meu problema físico era o foco, mas era nada diante do racismo, por exemplo. Algumas condições físicas e socioeconômicas eram até ajustáveis. A cor da pele não.

Me formei e fui trabalhar. Por toda a minha carreira, apesar de ter construído ótima reputação, nunca faltaram olhares, comentários, piadas. A diferença agora é que eu lutava de forma aberta. Não hesitava em interferir, fosse comigo ou com outros. Minha motivação era tentar mudar o padrão.

Nos casamos, tivemos dois filhos, criados à maneira do pensamento livre e da força interior. Logo cedo perguntaram sobre a minha perna e se poderíamos jogar futebol. Sempre participei de tudo com eles enquanto aguentei. Cresceram sem preconceitos e me ensinam também. Me convenceram a ser menos teimoso e vaidoso. Troquei para carro automático assim que pude e quando o meu peso e a idade avançaram, passei às muletas e cadeiras de rodas, em especial ao me deslocar nos aeroportos pelo mundo afora, onde dou minhas palestras e conferências, sempre garantindo que nos lugares exista acessibilidade, tradução simultânea em todos os idiomas que se façam necessários (e não apenas nos dos países ricos) e mesas debatedoras com igual participação de homens e mulheres.

Sou também professor universitário e tento levar esse espírito de confiança e coragem a meus alunos, para que lutem contra as limitações e se inspirem nos bons exemplos. Afinal, para um moleque capenga, que escolheu transformar o que parecia um obstáculo intransponível em um trampolim para seus saltos, eu não fui mal. Ainda costumo pegar uma foto surrada do meu velho marceneiro e sorrio de saudade pensando que se estivesse aqui diria que sempre soube que tudo daria certo. Seria a primeira mentira que me contaria na vida.

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