A primeira vez

O siciliano Elio Vittorini era egresso da classe operária da mais pobre das províncias italianas e não se envergonhava disso – pelo contrário, buscava na infância miserável e no convívio com as pessoas rudes do povo a matéria-prima para seus romances, contos e crônicas. Autodidata como Machado de Assis e Luiz Gama, ele entrou na imprensa através de uma tipografia – um dos raros lugares ‘intelectuais’ em que se franqueava o acesso a negros e pobres que não tinham problemas em manchar as mãos na tinta e no chumbo. Além de jornalista e editor, também foi grande tradutor, e verteu toda a grande literatura norte-americana do começo do século 20 – pode-se ver claramente a presença de Hemingway em seus diálogos secos.Ateu e comunista, desde os anos 30 militante ativo no antifascismo, foi censurado muitas vezes por sua obra retratar de modo realista os italianos pobres – e as forças econômicas e sociais que os mantinham com a cabeça pra dentro da lama. Se seu conteúdo é combativo, a forma de suas obras nunca é panfletária ou militante, porém. Na verdade, sua escrita límpida e bem-humorada escapa um pouco do realismo e até flerta com o realismo fantástico. Talvez influência de Italo Calvino, nome que revelou e que depois se tornou parceiro em jornais que editou. Vittorini também era próximo de Natalia GinzburgCesare Pavese, Alberto Moravia e Primo Levi, ou seja, da grande geração de escritores italianos surgidos no pós-guerra. 

Mas Vittorini veio antes: Conversa na Sicília foi escrito em 1937, mas só circulou amplamente após a II Guerra. Marco do neo-realismo italiano que influenciará cineastas como Roberto Rosselini, o livro narra a história de um homem chegado aos 30 anos que, sentindo-se perturbado por ‘furores abstratos’ em sua vida vazia em Milão, resolve partir para uma visita nostálgica à Sicília natal. No entanto, em vez de encontrar pessoas ‘autênticas’, acha personagens vivendo de ninharias na mais obscura pobreza, a ponto de se desumanizarem (a ‘desumanização’ é um conceito que atravessa todos esses escritores, culminando do incontornável É Isto Um Homem?, de Primo Levi).  

O romance não tem um andamento sólido, é esparso nas situações e frouxo no enredo, mas espetacular nos encontros – é um livro estruturado sobre a forma ficcional do encontroseja buscado seja fortuito. O encontro mais buscado é justamente com a mãe, a quem não vê há 15 anos. Mas, ao contrário de um encontro sentimentaloide, essa passagem é cheia de simbolismos. O narrador, Antonio, descobre a selvagem sexualidade da mãe – e também do pai -, e conhece uma mulher ativa e divertida, mas ainda totalmente presa ao passado. A sequência a seguir é a culminação de um périplo; a mãe é a enfermeira oficial do povoado, e vai de casa em casa aplicando injeções contra a malária nas bundas de senhoras e moçoilas. Quando o filho se recusa a entrar na casa de uma moçoila, a mãe se indigna e tem lugar o seguinte diálogo.

Então o narrador vai se recusar a entrar com a mãe na casa da senhorita Elvira, deixando a mãe puta da vida. Mas o resto você só vai saber lendo o livro…

PROPOSTA

Bem, esta é a singela concepção do seu conto: narrar, através da forma do encontro, uma primeira vez. 

O seu personagem vai contar a outro personagem, alguém com quem se encontrou (por um motivo concreto ou por acaso) e, no meio da conversa, vai contar como foi sua primeira vez:

  • com uma mulher
  • com um homem
  • com um livro/música/arte
  • com uma substância proibida
  • com um pecado
  • com um crime
  • com um segredo
  • com um lugar fantástico
  • com um ser sobrenatural
  • com uma pessoa importante que mudou sua vida.

Você pode narrar na primeira ou na terceira pessoa. Mas é preciso que a forma da narração obedeça ao esquema do encontro, portanto seja pautada por diálogos e descrições.

Em até 9 mil toques.

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