
Chegou na rodoviária fazendo a maior pose, tirando onda, andando pra chamar a atenção. Afinal, a roupa era toda nova, especial para o evento. Comprou no carnê. Quando apontou para a fila dos táxis, o primeiro era um fusca. “A zorra que eu vou de fusca para esse reggae, não vou de carro peba não. Vou esperar o Passat ficar livre”. Deu meia volta, fingiu que estava procurando alguém e, assim que o outro táxi ficou na dianteira, correu logo e sentou no banco de trás. “Ói, carro de quatro portas, massa!”.
– Meu amigo, bom dia, meu nome é Regivaldo, eu sou de Santo Estevão, do lado de Feira de Santana, muito prazer. – Ficou com a mão no ar – Eu vou para o aniversário de minha prima no clube.
– Mas qual clube?
– Oxe, e tem mais de um, é?
– Olhe, tem vários aqui em Salvador, qual é o nome?
– Um instantinho que eu anotei aqui em algum lugar.
– Véi, eu não tenho instantinho não, o colega aqui de trás quer pegar o passageiro dele.
“Eita taxeiro estressado da porra”
– É um clube chique que minha prima me falou.
– Ave Maria, tem muito: Clube Espanhol, Associação Atlética, Bahiano…
– É um que tem um monte de barco.
– Então é o Yatch.
– Isso, é com “I”.
O motorista saiu cantando o pneu de raiva. Regivaldo tentou continuar conversa, mas não tinha resposta. “Se retou. Cabra agoniado da desgraça”. Abriu o vidro e colocou a cabeça pra fora olhando tudo e falando sozinho. Quando o carro passou pela praia, ficou de boca aberta até ouvir a pergunta:
– É na entrada do restaurante?
– Deve de ser. Ela disse que ia ter era comida!
Contornaram por trás do morro da igreja de Santo Antônio, e o carro foi pela rua sem saída, que terminava no restaurante.
– É aqui. Não sei nem se tá aberto; tá muito cedo.
– Oxe, dez e meia! O forró já deve tá comendo no centro!
– Forró?
O motorista não falou mais nada e foi acompanhando devagar pra ver se Regivaldo ia ser barrado na porta, esperando para dar uma risada. Um segurança de terno e gravata preta na porta, medindo 2m x 2m, olhou com desdém pra ele e perguntou:
– O que o senhor deseja? O restaurante não vai abrir hoje, está reservado para uma festa particular, só para convidados.
– Apois, eu sou convidado. É a festa de minha prima.
– Como é o nome de sua prima?
– Samanta. E eu sou Regivaldo o primo dela, de Santo Estevão, do lado de Feira. Muito prazer.
– A festa é de Dona Samanta sim, mas nenhum convidado chegou ainda. Nem a lista chegou pra mim. O senhor vai ter de esperar.
O segurança olhava para Regivaldo de cima a baixo. Negro como ele, com o cabelo grande e enrolado, óculos estilo ray-ban espelhado, de camelô, camisa Lacoste listrada, calça jeans clara Pierre Cardin e um sapato de bico fino preto envernizado. A roupa de festa do tabaréu.
– Mas, mas, quem é esse pessoal aí dentro conversando na mesa?
– É a família do noivo dela.
– E ela tá noiva?
– Tão falando que essa festa é de noivado também.
– Será que embuchou? – deu uma risada – E eu não posso entrar pra ficar com eles?
O segurança fechou a cara e saiu para falar com o pai do noivo.
– Seu Epaminondas, tem um sujeito aí dizendo que é primo da Dona Samanta, de Feira.
– Aquele crioulo ali? – Nem se preocupou com qualquer reação do rapaz a sua frente.
– Ele é estranho mesmo, mas disse que quer falar o senhor.
– A Samanta falou que chamou uns parentes de Feira de Santana.
– O senhor quer que eu mande ele embora?
– Não, pode deixar, eu vou falar com ele. Pode ser algum empregado de lá.
Ficou encasquetado. “Desde quando Samanta tem preto na família?”.
Epaminondas era empresário, dono da maior rede de lojas de tecidos da Bahia, amigo do governador, conselheiro do Vitória e membro da alta sociedade soteropolitana. A camisa social de linho branca com as mangas dobradas, a impecável bermuda azul e o mocassim marrom contrastavam com a indumentária de Regivaldo. Chegou olhando de cima dos seus metro e noventa, mantendo a distância determinada por seu barrigão.
– Você é primo de Samanta?
– Eu mesmo, muito prazer, Regivaldo, seu criado, Seu… Como é mesmo a sua graça?
A cara do velho se contorceu.
– Epaminondas. Sou o pai de Paulo Marcelo, noivo de Samanta.
– Oxe, eu não sabia que ela tava noiva.
– Vai ficar hoje. Será uma surpresa na festa. Você é primo dela mesmo? – com voz de inquisição
– Ah, já sei, é porque ela é bem branquinha e eu sou moreninho. Sou primo de consideração. A gente se conhece de menino lá em Santo Estevão, antes de ela vir pra capital. Minha melhor amiga toda a vida. Aí que ela me chamou para essa festa porque disse que era especial, que o namorado dela que ia fazer. Vai ver que ela tá desconfiando da surpresa.
– Na verdade, fui eu que organizei. Mas ela é de Feira.
– Santo Estevão é dijunto de Feira, muita gente já se assume feirense.
– Você conhece muito ela? Ela nunca falou de você pra nós.
– Oxe, a gente se fala sempre, me conta a vida todinha. Tá apaixonada por esse namorado, disse que dá tudo pra ela. Achei até que fosse o senhor.
Epaminondas não deixou de sentir uma ponta de vaidade, apesar de não saber o porquê de dar conversa para aquele negro. Rindo, respondeu:
– Não, não, ela é muito nova pra mim. Mas entre por favor, venha me contar mais sobre Samanta, sei que meu filho não me conta tudo.
– Claro! Comigo ela nunca teve segredo.
Regivaldo foi entrando e ficou encantado com os janelões de vidro e o piso em cima do mar. “Zorra, lugar de barão, Samanta se armou mesmo”. O velho só pensava em avisar o fotógrafo da Coluna de July para não tirar nenhuma foto daquele crioulo em sua festa.
– Sente aqui. Esse aqui é meu filho Renato Maurício, irmão de Paulo Marcelo. Renatinho, esse é um primo de Samanta, do interior, o nome dele é…
– Regivaldo, ao seu dispor!
Falou com a boca ainda cheia e bateu as mãos para limpar os restos de coxinha que pegou logo na entrada. Estendeu o braço para cumprimentar o cunhado de Samanta, que retribuiu com uma cara de nojo e um toque com as pontas dos dedos, sem falar nada, só abanando a cabeça.
– Então, Regivaldo, me conte mais sobre Samanta. Quer um whisky? Garçom, por favor!
– Eitcha, Balla 12! só tinha visto desse detrás daquela vitrine trancada de Paes Mendonça! Bote mais um pouquinho aqui no copo por caridade, moço!
– Vocês se conhecem desde criança, não é?
– Isso mesmo, Seu Epaminondas, a gente andava sempre junto.
Nisso, o mâitre surge e fala para Epaminondas que ligaram da parte do governador avisando que ele se atrasaria.
– Vixe, vem até o governador, é?
– Ele é um bom amigo.
– Tem tempo que não falo com ele, desde a eleição.
– Você conhece o governador?
– Ele é de Feira, passava sempre pela minha barraca no Centro de Abastecimento e pela da família de Samanta também. Sempre cumprimentava nós.
– A família de Samanta tem barraca? Pensei que fosse só fazenda.
– Sim, barraca de carne de sol. O pai dela ia buscar em Rui Barbosa, coisa de primeira, por isso o governador ia sempre lá. A nossa vende miúdos, pra fazer sarapatel. Se o senhor comer um dia o sarapatel de mainha, não vai querer outra coisa em suas festas.
– A carne vem da fazenda deles?
– Fazenda? Só se for de fazer roupa.
– Dessa eu que entendo, é o meu negócio.
– O senhor tem armarinho?
– Eu sou dono do Mercadão dos Tecidos.
– De uma loja?
– De todas.
– Eita disgrama! É com o senhor mesmo que eu tenho que falar. Tem uns panos estampados bonitos que só a peste na loja lá de Feira que eu quero comprar pra minha tia fazer umas camisas pra mim. O senhor me arruma um desconto bom, não arruma?
O filho tenta fugir da situação, mas o pai segura seu braço e cochicha:
– Você não arreda pé dessa mesa. Só saia quando seu irmão aparecer e traga ele aqui. E não deixe sua mãe chegar nem perto. Ela vai ter um troço.
Volta a atenção para o convidado inusitado:
– Garçom, traga a garrafa e um balde com gelo. Nosso amigo aqui está com sede!
– Achei que a festa já tinha começado. Lá no interior a gente começa logo cedo a cachaçada – o riso já estava afrouxando com o whisky.
– Mas continue, falávamos então que eles não têm fazenda.
– Não, nunca tiveram, nem sítio. Gente trabalhadora, gente honesta, mas gente pobre.
– Mas você conhece mesmo ela? É de Samanta que você está falando?
– Oxe, a gente se conhece desde quando o nome dela não era Samanta.
– Era qual então?
– Gleicequéli. Só que ela odeia e mudou pra Samanta. Eu acho tão bonito Gleicequéli, nome de princesa.
– Meu Deus! Ela falou que os pais vêm hoje, vou tirar essa história a limpo com eles.
– Eu acho que não vêm não.
– Por quê?
– Porque o pai dela tá passando uma temporada aqui em Salvador e hoje é o dia da mãe visitá-lo.
– Mas ela não falou nada pra nós. Ele está doente? Está internado?
– É, internado é um jeito de dizer.
– Onde ele está internado?
– Na Lemos de Brito.
– O quê? Na penitenciária?
– É, mas foi um mal entendido. Deixaram uns cheques em branco, era pra ele preencher o valor de um dinheiro que tinha pra receber. Confiam nele porque é muito honesto, só que ele não sabia que os cheques eram roubados. A polícia chegou e não quis conversa. Agora ele tá lá. Mas vai sair logo, a tempo do casamento, o senhor vai ver.
– Nem me fale em casamento. Renato, vá e traga seu irmão aqui, agora! Arranque ele de onde estiver!
Os olhos do velho estavam injetados. Só que Regivaldo continuava a entornar e não notava nada.
– E a mãe?
– A mãe dela?
– Sim, sim, a mãe dela, o que faz?
– Agora se vira pra sustentar a casa.
– Se vira como?
– Tá trabalhando onde Samanta trabalhava, lá em Dona Rosita.
– Em uma casa de família? – Epaminondas estava engasgando com a bebida – Ela nunca disse que já trabalhou, ainda mais na casa dos outros!
– Ah, ela sempre ajudou muito em casa. E veio pra cá pra um trabalho melhor. E Dona Rosita é casa, mas não é bem de família não.
– É o quê então?
– Um cabaré.
– Cabaré????
– É, brega, puteiro – a língua dele já estava solta.
Epaminondas começou a ficar branco.
– Mas ela disse que veio estudar aqui.
– Pode até estar estudando, mas não me contou. Eu sei é que ela tá ganhando uma nota na tal da boate Eros. Foi lá que ela conheceu seu filho.
Só conseguia ouvir Regivaldo e não conseguia perguntar mais nada. Os filhos estavam entrando na hora e notaram que não passava bem.
– Painho, o quê o senhor tem, o senhor tá se sentindo mal? O que foi?
O velho suava frio. Começou um rebuliço pra acudir ele. Regivaldo não parecia muito preocupado.
– Acho que o Balla 12 não desceu bem nele não.
Ninguém lhe deu atenção. Os filhos, o mâitre e mais dois garçons carregaram Epaminondas para a enfermaria do clube. O segurança chegou para falar com Regivaldo.
– Ele passou mal?
– Acho que foi o whisky. Tava só bebendo, eu que comi o salgadinho. Aliás, gostoso como a porra. Pegue um aí.
– Não posso, estou trabalhando.
– Oxe, vai trabalhar com fome? Tome aí, tô lhe dando.
– Obrigado, amigo, mas vai me dar problema.
– Então tá. Diga aí.
– Chegou a lista dos convidados, preciso marcar seu nome. Como é mesmo?
– Regivaldo.
– Não tem nenhum Regivaldo aqui.
– Então procure por Valdo, Samanta me chama de Valdo.
– Não tem Valdo também não.
– Oxe, mas não é a festa de Samanta?
– Sim, a festa de Samanta de Amaral Pereira Góes.
– Essa né minha prima não. Minha prima é Samanta Mandacaru. Aqui não é o clube dos barcos que começa com “I”?
– Aqui é o Yatch, com ipsilone.
– Peraí que eu vou achar a disgraça do papel com o nome do clube. Tá aqui. Eitcha, né Iatche não, é Itapagipe.
– Olhe, não me cause mais problema. Entre nesse táxi que tá chegando aí e se pique, não apareça mais por aqui não. Já sei que vão botar a culpa em mim, a culpa é sempre do nêgo. Olhe, é Dona Samanta que tá chegando.
Regivaldo correu pra abrir a porta do carro e Samanta sair.
– Bom dia, Samanta. Parabéns pelo seu aniversário!
Samanta olhou com cara de quem não estava entendendo nada, mas agradeceu sem graça. Regivaldo sentou, dessa vez no banco da frente, e da janela falou:
– Vai ser um festão da porra, Samanta! Vem até o governador! E parabéns pelo noivado!
