por Américo Paim
Aquela turma era quase toda de colegas que vinham juntos desde a 5ª série e agora estavam no 2º ano, o último de liberdade, como falavam. No ano seguinte seria o pré-vestibular, a vida iria mudar. Como é bem comum, havia as “panelinhas”, núcleos de amigos que estavam sempre juntos, na sala, nos intervalos ou estudando. Em tais grupinhos, entrar ou sair nunca era indolor.
Assim era com cinco amigas, todas entre 16 e 17 anos. Magda era fã de praia, bonita, longos cabelos castanhos e uns sinais charmosos no rosto. Transitava bem entre meninos e meninas, algo incomum na época dos círculos baseados em gênero. Clarice era estudiosa e se destacava nos esportes. A “gigante negra” era o terror das adversárias nos torneios de voleibol. Monique, baixinha, era a mais nova. Esperta, observadora e muito articulada. Era a última instância quando tudo parecia perdido. Denise era a simpatia. Tinha corpo de mulher feita e os meninos viviam dando em cima. Gostava de dança e festas. Roberta era muito reservada, mas generosa ao compartilhar conhecimento. Tinha vergonha da pele muito branca, das espinhas e da falta de umas curvas. Sentavam-se sempre nas primeiras filas, no centro, de frente para o professor.
Certo dia, início do ano letivo, no meio da manhã, a Madre Superiora e diretora Maria Alice interrompeu a aula de Português do professor Adroaldo e apresentou uma aluna nova, transferida de outro colégio, pedindo a todos que “abrissem as portas para a nova colega”, que era alta, morena, cabelos negros compridos e lisos, rosto incisivo e olhar confiante. Seu nariz fino era empinado, por formação ou atitude. Se manteve impassível diante dos “fiu-fiu” de meninos das filas do fundo. Seu nome era Lisete. Sentou-se na única cadeira vazia disponível. Por semanas ela escolheu cadeiras variadas sem se incluir em panelas e conversou com poucas pessoas. As cinco amigas a ignoraram a maior parte do tempo. Em uma terça-feira aconteceu o movimento que mudaria tudo: ela chegou mais cedo e sentou-se na primeira fila, no centro. Quando as meninas apareceram, surpresas com a “intromissão”, acomodaram-se em volta da novata e não esconderam as caras amarradas. Foi Denise quem quebrou o gelo:
– Oi, tudo bem?
– Tudo.
– Que surpresa resolver sentar aqui.
– Pois é.
– Está gostando da escola?
– É apenas mais uma. Nunca gosto.
– Por que saiu da outra?
– A aula vai começar.
– Ah, claro – Que grossa essa garota…
As amigas ficaram curiosas com a resposta, mas parou aí. Como a nova colega não mudou mais de lugar nos dias seguintes, começaram a interagir, mas ela optava sempre por conversar com as meninas de forma isolada. Em pouco tempo conhecia mais detalhes sobre cada uma, mas não abria muito sobre si mesma. Um dia, muito tempo depois, entre uma aula e outra, teve uma conversa com Magda.
– Lisete, adorei seu brinco! É novo?
– Não. Foi presente.
– Hum, namorado?
– Nunca tenho namorados. Só diversão.
– Ah, eu não consigo isso.
– Pois é, pensando assim não vai dar em nada com o Márcio.
– Hein? Não entendi – Como essa aí sabe disso?
– Você é a fim dele, certo? Fica ciscando, trabalho de equipe, conversa de corredor.
– Tá dando pra notar?
– Não sou cega e lhe digo que ele gosta de você. O que precisa fazer é tirar Denise do seu caminho.
– Como assim?
– Ela não vive dizendo que ele não quer nada, que você não é o tipo dele?
– Sim, mas peraí: quem lhe contou?
– Não importa. Ela quer ficar com ele.
– Ela é minha amiga!
– Que amiga… De forma discreta observe e me diga se não estou certa.
– Que absurdo! – Será que ela tá falando a verdade?
Apesar da reação ultrajada, Magda não ignorou e passou a reparar na insistência de Denise em lhe aconselhar a se afastar de Márcio. O relacionamento entre as duas esfriou, mas como foi algo discreto, no grupo completo pouco se percebeu. Houve outro abalo em pouco tempo, em um papo com Roberta.
– Você não se cansa de ensinar tudo às meninas?
– Ah, eu gosto. Não me custa nada.
– Muito gentil, mas as coisas têm limite, não?
– De ensino?
– Não, falo de outra coisa. De sacanagem mesmo.
– O que? – Que papo é esse, meu Cristo? Onde ela quer chegar?
– Só vejo você sozinha, e o pior, sofrendo com os meninos enchendo o saco.
– Isso é antigo, nem ligo mais.
– Não liga? E aquele choro no sanitário outro dia, depois de ouvir uns deles gritando “chulada” no jogo de vôlei?
– Oh, Deus, que vergonha. Você estava lá?
– Sim, no sanitário e na arquibancada. Vi quem atiçou os meninos. Você sabe mesmo com quem anda, menina?
– Quem foi?
– Só vou lhe dizer se for fazer algo a respeito.
– Claro que vou! Quem foi? Diga de uma vez!
– Monique. E parecia estar se divertindo muito.
– Impossível! Ela não faria isso! – Essa louca tá blefando. Minha amiga não…
– Fique à vontade para apurar. Depois não me venha com frescura e chorinho.
A raiva de Roberta não durou muito, deu lugar ao medo e ela optou por se encolher. Passou a andar menos com as meninas e a inventar desculpas criativas para não ajudar com as lições escolares. As amigas notaram, mas respeitaram. Ela se sentia mais segura por não ter que explicar o que havia. Alguns dias depois, sentida com o afastamento da amiga, Clarice procurou Lisete. Queria ouvir alguém diferente sobre o assunto – Talvez ela saiba o que aconteceu, já que ninguém me diz nada.
– Entendeu? Robertinha não tá normal. Tô preocupada.
– É mesmo? Não deveria.
– Acha que ela está bem?
– Agora está.
– Agora?
– Sim, começou a resolver alguns de seus problemas.
– Que problemas? – O que será que essa criatura sabe?
– Não tenho autorização para falar.
– Ela agora tem segredos com você?
– Não fique com ciúme, nem vale a pena. Aliás, você tem coisa mais importante. Voltou ao time?
– O treinador continua me deixando no banco. Não sei qual é a dele. Treino muito bem e não jogo.
– Ela trabalhou certo mesmo…
– Ela? Não alcancei.
– Taí um segredo de verdade. Parece que uma amiga sua conhece algo da vida do treinador que não pode aparecer. Babado forte. Sua bunda no banco deve ser coisa dela.
– Ué e onde eu entro na história?
– Lembra de algo? Tipo roubar namorados…
– Eu? Nunca faria isso!
– Bem não é a mim que tem que convencer.
– Magda não faria isso comigo. Além do mais, já faz tempo essa história! Renato terminou com ela porque quis, eu não fiz nada – Como essa louca sabe isso?
– Veja que os nomes são seus, eu não falei nada.
Entre triste e decepcionada com as revelações, Clarice hesitou em levar qualquer dos assuntos à frente. Não queria se expor. Achou que devia ficar mais esperta e manter distância, para não dar passo errado. Seu comportamento evasivo chamou a atenção de Denise que, sem sucesso com as amigas, voltou-se para Lisete, na esperança de descobrir algo.
– Não tenho a menor ideia, Denise.
– Mas tem que haver uma explicação. Está tudo tão estranho.
– Eu não sei se não há uma razão para o sumiço dela.
– O que quer dizer?
– Depois do que ela soube de você, dá para entender.
– De mim? O que foi?
– Lembra daquela pichação racista no banheiro feminino?
– Sim, claro! Um absurdo! Descobriram quem foi?
– Não sei, mas ela soube que você riu muito de umas piadinhas que os meninos fizeram.
– Quando? Que história é essa?
– Não teve uma balada outro dia na casa de Albertão? Gravaram um vídeo do grupo rindo da piada e você aparece.
– Que vídeo? – O que é que essa piranha sabe?
– Olha, eu estava lá e vi você com cachorro lambendo a boca…
– Verdade que bebi demais…
– Então. Eu só soube a história, mas não vi o vídeo.
– Que merda é essa? – Agora lascou… Quem fez isso?
– Mas você lembra do que aconteceu?
– Não…
– Pois é. Então é melhor deixar quieto. Vai que o tempo resolve.
Arrasada com a história, Denise optou por se preservar com as amigas e passou a circular com outras pessoas, esperando a poeira abaixar. O grupo estava todo esfacelado.
Poucos dias depois, Monique, que já desconfiava de Lisete, mas não conseguia juntar as peças, decidiu encontrá-la a sós – Ela é muito esperta e cheia de conexões, mas preciso descobrir alguma coisa pois tudo desandou depois que ela chegou. Não deve ser coincidência. Marcou com ela para estudarem até um pouco mais tarde na biblioteca naquela manhã, na hora do almoço. Após alguns minutos, com a escola mais vazia, as duas dentro da biblioteca, Monique começou.
– Lisete, tem observado que as meninas se afastaram?
– Hum? É mesmo, vocês não andam mais tão grudadas. O que houve?
– Esperava que pudesse me dizer.
– Eu? Por que?
– Tenho visto você de conversa com Márcio, Renato, Albertão e os outros meninos. Até com o treinador e a diretora você anda de papo. Pensa que não vi? Isso é estranho – Agora pego a vadia.
– Vocês é que são estranhas. Vivem cheias de segredos e não sabem controlar.
– Segredos?
– Inclusive você.
– Ah, é? O que acha que escondo? – Que conversa é essa?
– Não quero falar aqui. Não tem privacidade.
– Você é que tem coisas a explicar.
– Do que está falando?
– Ninguém sabe porque veio para essa escola.
– Ah, você tentou descobrir?
– Sim, mas ninguém abriu. Vai me contar?
– Como falei, aqui não dá.
– Onde?
– Vamos ao banheiro. Deve estar vazio.
Saíram da biblioteca para o banheiro, não muito longe dali. Lisete entrou primeiro e após confirmar não haver ninguém, sinalizou. Mal entrou e Monique a abordou de imediato, querendo que lhe dissesse o que sabia. Estava aflita, agitada. Sem perder tempo, Lisete a encarou e disse que ia lhe mostrar o quanto sabia de seu segredo. Aproximou-se, puxou-a pela cintura e começaram a se beijar enlouquecidas, as mãos deslizando livres. Abriu a blusa de Monique, que tirou o sutiã, jogando-o em qualquer lugar. Lisete lhe beijou e mordeu pescoço, seios e barriga, enfiando a mão dentro da calcinha. Monique estava entregue, mas mesmo louca de tesão, ainda encontrou jeito de perguntar qual a razão de ela ter saído da outra escola. Lisete parou um mínimo instante e falou ofegante ao seu ouvido, ao mesmo tempo em que a porta se abriu e apareceu a figura da diretora:
– Me pegaram no banheiro com uma menina.
