DEPOIS DO LIVRO
Helô Mello
O caminho pareceu mais distante naquela manhã sem sol e sem palavras. Plinio pai e Plinio filho foram chamados para uma reunião com a diretora da escola, depois da prova de fim de ano. Amor entre os dois nunca foi notado. Plinio Jr olhava para o chão, para o tênis encardido de terra, resquícios do último jogo de futebol. Tentava se agarrar nessa lembrança em pó. Mas o seu gol da vitória não aumentaria a sua nota, de que tanto precisava, para não ser jubilado.
Na véspera do exame varou a noite estudando. Ao sair de casa, atrasado, sem tempo de tomar café da manhã, viu a nova Kodak Instamatic que seu pai tinha comprado. Estava proibido de chegar perto, mas sem resistir à tentação, colocou a câmera no bolso para acompanhá-lo no exame, qual um amuleto ou uma distração.
Dona Tatá, sua professora, não se sensibilizou ao ver aquele objeto nas mãos de Plinio quando entrou na classe com o maço de provas. Era comum Plinio gerar risadas, sempre performático. Fingia ser um fotógrafo, rodeado de modelos, quando Dona Tatá confiscou seu equipamento e o depositou na sua mesa. Cabisbaixo Plinio se refugiou no fundão, pensando no que aconteceria se não se desse bem no teste. Foi surpreendido com a chegada de Marco que sentou-se ao seu lado. O cara só tirava dez, já tinha passado de ano, era sua salvação.
Chamou Marcoooo baixinho, sem retorno. De novo.
Foi nesse momento, desespero mesmo, que ofereceu a máquina fotográfica em troca das respostas. Bingo. Marco respondeu a prova toda e a trocou com Plinio, que só precisou assinar seu nome e entregar para Dona Tatá. Ela até se surpreendeu com a rapidez. Ingênuo, o que pode ser interpretado como preguiçoso, Plinio Junior não leu as respostas que Marco preparou para ele. Pousou a prova-passaporte na mesa da professora e saiu da classe, não sem antes recuperar o equipamento de seu pai. Tinha que devolver no mesmo lugar antes de Plinio Pai chegar em casa. Ia explicar a Marco que a Kodak não era sua, nem tinha filme, pegou só para descontrair. Ele iria entender. Quem sabe o convidava para jogar bola no seu time ano que vem? Marco só ficava na classe no recreio. Parecia não carecer de correr, só de escrever. O que fazia bem. Por isso Plinio tinha apelidado o colega de Marcolento. Ele não parecia se incomodar, combinava com esse apelido.
Plinio Pai e Plinio filho chegaram na porta da diretora. Pai pousou a mão na maçaneta e olhou para filho, como quem pergunta, sem palavras, qual será a sua nota. Mas o filho emudeceu no silencio do pavor, pressentiu o pior. Confiou seu destino a Marco, tão ansioso para se livrar da prova que nem a releu. Se tivesse revisto uma só resposta teria entendido que Marco, trocou as respostas por trechos do seu livro preferido. O que só deixou a diretora mais irada. Ela leu para eles em voz alta algumas questões: -Qual predador do reino animal é reconhecido pela habilidade de se camuflar? Veja a resposta de seu filho: – Eles só têm que pintar as rosas vermelhas.
Vermelho ficou Plinio. E a diretora seguiu:
– Qual a montanha mais alta do Brasil? – “Cortem a cabeça!” Foi a resposta brilhante.
Plinio Pai falou grosso. Vou cortar a sua cabeça quando chegarmos em casa.
– Quantas casas decimais tem o número pi?
A resposta foi: Por que um corvo parece uma escrivaninha?
– Quanto tempo a luz do Sol demora para chegar à Terra?
Quanto tempo dura o que é eterno? Às vezes, apenas um segundo.
Plinio Pai se levantou mais vermelho que a Rainha de Copas e pediu:
-Não é preciso continuar. Sem mesmo se despedir, saiu arrastando Pobre-Plinio para fora da sala pela orelha.
O corredor se espichou enquanto Plinio diminuía como Alice encolheu, depois de comer o biscoito. Uma rajada fria passou pelo seu ombro. Colegas surgiam e desapareciam. Via entre eles o Gato que ri, rindo dele, que caiu na cilada preparada por Marco. Só que nessa história a Diretora, Rainha de Copas, cortou a sua cabeça. Marco, não mais lento, corria como o Coelho Branco, apressado e atravessou o corredor sem tempo de tropeçar nas pragas de Plinio.
Sua vida escoou pelo buraco e Plinio virou uma lagarta azul.
Vai acordar amanhã sem saber quem é, e vai mudar várias vezes. A gaveta da alegria vai ficar cheia de ficar vazia. Quem sabe um dia vire borboleta.
