Silvia Argenta
O pátio do colégio estava tomado por crianças que berravam e corriam para todos os lados, no retorno depois da virada do milênio. Era o primeiro dia de aula do ano, quando a diretora ainda permitia que os alunos usassem qualquer roupa. Até os professores aproveitavam para exibir modelitos que iam de conservadores até exóticos, como o macacão jeans tingido de amarelo do Clayton, que ensinava matemática. No segundo dia de aula não tinha nada disso. Os professores só podiam entrar com o jaleco branco por cima da roupa, e os alunos, com o uniforme, uma camiseta branca com o logotipo da escola Pindorama e a bermuda ou a saia pregueada bordô.
Tinha gente que amava o uniforme. Mas tinha gente que odiava. André não tinha opinião. Vestia e pronto. E já foi uniformizado no primeiro dia de aula. Aos dez anos, era a quarta vez que trocava de escola. Passou por vários psicólogos e pedagogos que cravavam o mesmo diagnóstico: problemas de relacionamento. Todos davam opinião, mas não tinham um consenso sobre como lhe oferecer ajuda. A cada semana, era uma dinâmica de trabalho diferente que logo o deixava entediado. Quando se recusava a participar, a diretora chamava os pais para explicar a importância de o menino aderir ao tratamento, mas não tinha jeito. Ele acabava pedindo para trocar de colégio para ver se encontrava sua turma.
Não era um garoto tímido, mas de tanto ser rejeitado acabou ficando calado. Também não era zoado pelos colegas por alguma característica física, mesmo sendo franzino para a idade. Como era filho único, aprendeu rápido a se entreter sozinho, brincando com Max Steel ou jogando videogame. Então, era comum para ele passar os recreios sentado na ponta de um banco do pátio, observando o comportamento dos outros alunos e comendo danoninho e sanduíche de peito de peru sem precisar dividir com ninguém.
Mas nessa nova escola, no primeiro dia de aula, percebeu uma movimentação diferente dos meninos da sua idade durante o recreio. Ao contrário dos outros colégios, em que os garotos se juntavam para jogar bola, estes se reuniram em volta de uma mesa retangular de plástico. Devia ser algum jogo de cartas ou de tabuleiro. Ele largou o sanduíche no banco e se aproximou da aglomeração. Notou que eles estavam de pé e se mexiam demais, alguns até se curvavam sobre a mesa. Chegou mais perto e se deparou com uma brincadeira com as mãos que nunca havia visto. Tinha uns vinte meninos com camisetas de todas as cores imagináveis fazendo manobras inimagináveis em mini mini mini shapes. Era o skate de dedo. Irado!
Com os ombros, foi empurrando os garotos da plateia para tentar ver melhor o que estava acontecendo. Dois meninos estavam dropando altas manobras, num domínio impressionante do indicador e do dedo do meio sobre a pequena prancha com quatro rodinhas. Usando cadernos e estojos como obstáculos, eles mandavam muito nos wallriding, pop-shovit e heelflips. Os urros da molecada não paravam porque havia reação quando os skatistas acertavam os movimentos e até mesmo quando erravam.
André chapou e exibiu os dois dentões da frente, bem maiores que os de trás, num sorriso que não podia conter. Também não segurou a onda e logo perguntou onde podia arranjar um skate daqueles para ele, apontando os dedos finos para a mesa. Mal terminou de falar, e a galera, que antes gritava, agora vaiava: cala a boca, moleque!, sai daqui, vacilão!, fora, haole! Chegou até a levar um tapa no cocuruto, mas nem chegou a doer. Se ajoelhou bem na frente da mesa para entender como funcionava a brincadeira, que ali já não era mais brincadeira, e sim um campeonato. Ele demorou para entender que os caras estavam competindo de verdade. O fato é que pela primeira vez ele teve vontade de se relacionar com alguma turma de colégio.
Nesse dia, saiu eufórico da escola. Entrou rápido no SUV da mãe, que o esperava na fila dupla na rua, e logo pediu para ela comprar o skate de dedo. Ele queria treinar para poder participar do campeonato e das longas conversas com os meninos. Ela não entendeu do que o filho estava falando e mandou pedir para o pai quando chegassem em casa. No caminho, ficou brincando com os dedos no painel do carro e falando de um jeito onomatopeico a cada manobra imaginária que fazia. No almoço com a família, André fez novamente o pedido, só que o pai também não captou que tipo de brincadeira era aquela e, sem querer estender o assunto, disse que não achou uma boa ideia. Eles tinham condições de comprar um mimo para o garoto, que passou a semana tentando convencê-los, mas não adiantou.
Na segunda semana de aulas, ainda fissurado com a novidade e sem amigos no colégio, decidiu se intrometer no papo dos colegas skatistas e mandou:
-Por acaso vocês já viram as roupas de mão para skate de dedo?
-Não, um deles respondeu com cara de espantado.
-Maneiro, queria muito ter uma dessas. Onde compro?, emendou outro garoto.
-Posso vender as peças que quiserem porque minha mãe é do ramo, disse André.
Menos de um minuto depois, recebeu o primeiro pagamento. Um dos colegas colocou uma nota de dois reais em sua mão em troca de uma bermuda azul de skate de dedo. André logo pensou em como resolveria esse negócio e se lembrou da bermuda do Max Steel. Talvez coubesse nos dedos do seu cliente. Mas não parou por aí. Durante o recreio, a notícia se espalhou e uma fila de compradores se formou para encomendar as peças. Cada vez que um entregava alguma cédula ou moeda, já dizia o estilo e a cor da roupa que queria. Ele conseguiu juntar mais dinheiro do que jamais havia ganhado de mesada na vida dele. Já tinha aporte financeiro suficiente para empreender um negócio têxtil. Com apenas uma frase, monopolizou um império das roupas de dedo.
André ficou conhecido no colégio. Os garotos passaram a chamá-lo para assistir às manobras no campeonato, e as garotas começaram a trocar olhares com ele. A cada dia, mais encomendas eram feitas. Até professores foram atrás dele. Deixou de ser caladão e participava das melhores rodas de conversa do recreio. Os pais perceberam que o filho parecia mais extrovertido, contando sobre as novas amizades na escola.
Passados alguns dias, os clientes começaram a cobrar a entrega das roupas. André respondia que demorava um pouco, afinal eram muitas peças. Mesmo assim, continuou as vendas. A mochila já estava até pesada com tanta grana, e ele não parecia preocupado com os compromissos do negócio. Com dinheiro, comprou dois skates, começou a treinar e entrou no mundo dos campeonatos amadores. Nem ele sabia que era tão habilidoso com os dedos. Um talento nato.
Depois de um mês na nova escola, era um sucesso de popularidade, mas as cobranças sobre as roupas continuavam. E aí os problemas começaram a aparecer. Ruim de matemática e de planejamento, André não anotou as encomendas nem sabia quanto de dinheiro cada um tinha lhe dado. Fora isso, numa conversa com um dos novos amigos skatistas, confessou que a mãe não trabalhava com confecção e que na verdade ela tinha uma clínica de estética no centro da cidade.
A escola inteira ficou sabendo das mentiras de André. Durante a aula, as fofocas pipocaram e alguns dos meninos enganados tramaram um acerto de contas no final da manhã. Ele nem desconfiou de nada. O sinal tocou e ele saiu calmamente da sala. Só quando chegou na calçada na frente do colégio que viu uma parede branca formada por um bando de alunos uniformizados o encarando. Ao lado deles, o professor Clayton, que só ficou observando. Foi o começo da ruína do império da confecção de roupas de skate de dedo.
Os dedos com os quais André ficou fascinado pela habilidade em cima das pranchas tentavam alcançá-lo. Antes eles eram independentes, leves e graciosos. Agora se uniam em cada mão para socar e bater em suas costas, braços e rosto. Como a mochila estava pesada, saiu correndo do colégio com dificuldade, entrou no SUV e, quase sem fôlego, pediu para que a mãe o tirasse do Pindorama. Não aguentava mais o uniforme branco e bordô.
