por Américo Paim e Roberto M. Socorro
Recebi a mensagem de Bob pelo celular: “Tenho uma da zorra para lhe contar. Que horas você pode falar?”. Aí ele marcou o Zoom pra o final da tarde. De fundo musical, o comentário de Jaci:
— Vocês parecem duas negas fofocando. Roberto tanto fez que agora vocês viajam de submarino juntos! Eu tenho é que ter uma conversa séria com Érika!
Cinco da tarde, internet boa, começamos:
– Fala, Doutor Américo! E aí, qual é?
– É niúma!
– Rapaz, você vai rir como a porra.
– Largue o doce.
– Eu já lhe disse que Lucas gosta de rock, né? Principalmente de AC/DC.
– Sim, tá educando bem o menino.
– Ontem, tava no escritório com o som ligado, daí tocou “Hold on”, do Yes e, niqui eu olho, tá o sacana em cima do sofá, com a guitarra de brinquedo, imitando o solo de Steve Howe hahahahahaha.
– Boa! o pai fã de Chris Squire e o filho de Steve Howe. Tudo em casa, na mesma banda.
– Chris Squire, o mestre supremo. Lembra?
– Oxe! E tem como esquecer?
Fui longe com essa pergunta, pra frase de Bob: “Chris Squire é o melhor baixista do mundo”. Eu e Aníbal de lero no corredor das salas do primeiro ano e ele entrou no meio do papo sobre bandas, guitarristas, bateristas, tecladistas. E baixistas. Cara, alguém que conhecia Chris Squire! Concordei na hora. Não havia cenário de rock na Bahia na época, aliás de nada, nem de axé. Poucos conheciam. As “novidades” já chegavam atrasadas.
– A gente começou a falar de som por causa de Chris Squire.
– Eu, você e Aníbal.
– Lucas precisa é arrumar uns amigos desses hahaha.
Não sabia como era a relação de Lucas com música aos nove anos que tem agora, mas minha referência clara era o escritório de meu pai, em casa, que o velho chamava de gabinete, com nosso único aparelho de som decente e o acervo de discos de vinil, fitas cassete e livros, dispostos nas prateleiras, encaixados com perfeição no espaço. Até as então enormes caixas de som tinham seu lugar específico. Chegava-se lá por uma porta que dava no quintal ou por outra, que conectava ao banheiro cor de rosa da suíte de meus pais.
Nos sábados, domingos e feriados, era de lei. Se não rolasse baba ou esquema com a galera, eu estaria lá. Meu pai com a coleção de selos e o uísque e eu no chão futucando vinis e fitas, curioso desde cedo com sons e fichas técnicas. Foi quando conheci música de orquestra, clássica e popular, cantores e conjuntos nacionais e internacionais, tudo com meu pai, ou seja, seu repertório. Contei isso a Bob e aí o papo mudou para como conhecemos o rock’n’roll.
– Tá rindo de que, cara?
– Véi, lá em casa nessa época não tinha aparelho de som nem livro! Meu pai e minha mãe não davam a menor pra isso. Acho que eu fui adotado.
– Porra é essa, mermão? Sério? Você, rato de livraria e loja de discos, brotou do chão, foi?
– Só tinha uma vitrola portátil da Philips, bem peba, metade caixa de som e metade toca-discos.
– Oxe, eu e meu irmão também tivemos uma, azul!
– Era com isso e com um gravadorzinho de mão, com uma capa de napa, que eu me virava. Um armengue. Ou então tinha que ir pra casa de meu tio, que morava lá na Pituba também.
– Ele tinha som?
– Som? Um som retado! Porra, pense só: receiver Marantz, tape deck Akai e pick-up Technics! Boca de zero-nove!
– Caralho, que paraíso!
– Eu ia pra lá gravar minhas fitas. E eu era bom nisso, bróder!
–As fitas! Tive tantas!
– Pois é, meu vizinho, que era um ano mais velho que eu e estudava no Vieira também, me apresentou ao Yes, Black Sabbath, Kansas, Queen, Rush, Genesis. Ele tinha disco como a porra! O tio dele era deputado e vivia em Brasília, São Paulo, Rio. Aí ele pedia pro tio trazer de lá.
– Sorte da zorra, né? Lembra que a gente só conhecia os discos atrasados? O bolachão era lançado na Inglaterra em 1974 e só chegava em Soterópolis muitos anos depois… Foda isso.
– Pra comprar disco de rock em Salvador, só na loja de Marcelo Nova, a Néctar. No rádio só tocava merda.
– Cara, eu lembro bem de ouvir no rádio, aquelas baladas americanas e vários artistas brasileiros cantando em inglês! Tudo novinho, começando a carreira. Fábio Júnior era Mark Davis, Jessé era Tony Stevens!
– Puta que pariu, era isso mesmo! E o famoso Morris Albert, que era Maurício Alberto?
– Era tudo trilha sonora de novela! E essas músicas tocavam nas festinhas, né? Momento pra dançar música lenta com as meninas.
– Era nossa única chance.
– Quando queria colar na menina, falava com quem estivesse perto da vitrola para colocar umas duas lentas na sequência pra dar tempo de tentar alguma coisa!
– Adiantava o quê? Podia tocar 300 seguidas que a gente não pegava ninguém. Tudo com fama de esquisito.
– Cruel… E a coisa só piorou quando a gente passou a gostar de rock. Aí, lascou de vez.
– Peraí que tenho que ligar aqui pro trabalho. Só carniça enchendo o saco nessa disgrama. Vamos fazer um intervalo.



Aí eu viajei até a primeira metade dos anos 1970. Meus pais tinham ido ao México e trouxeram um system, tipo “três em um”, da Crown, muito peculiar. Era no formato de maleta 007, só que mais grossa. Metade da mala se dividia em duas caixas de som, com forro em azul claro. Na outra metade, toca-discos, toca-fitas e rádio, além de dois microfones. Eu e meu irmão André herdamos a maleta quando meu pai comprou equipamento mais moderno pra ele. Foi na maleta que me iniciei no rock.

Aníbal, aquele do papo com Bob, já era fã de rock há mais tempo e seu irmão Zé Manoel tinha discos ótimos, mas era bem ciumento com eles. Aí Aníbal esperava uma chance, pegava esses discos e ia pra minha casa: “Boston”, “Led Zeppelin II”, “Made in Japan” do Deep Purple, “Frampton comes alive”, “Alive” e “Alive II” do Kiss e “2112” do Rush. Foi a primeira e definitiva experiência que consolidou meu amor pelo rock’n’roll. Horas e horas ouvindo, tentando repetir as melodias, os solos, entender as letras, reconhecer o que cada um fazia na banda. Foi transformador e me levou a aprender a tocar um instrumento e me afundar em música. Quando Bob voltou, contei essas histórias e ouvi como foi pra ele.
– Cara, como eu não pegava ninguém mesmo, sexta à noite ficava em casa, ouvindo música. Foi nessa época que conheci o programa de Marcelo Nova na FM Aratu, o “Rock Special”.
– Grande lembrança! Sexta, era isso mesmo.
– Descobri um monte de banda ali!
– Era massa.
– Marcelo era muito doido, cara. O pai dele tinha grana. Aí ele pegava avião, ia pro Rio de manhã e voltava à noite cheio de disco debaixo do braço, pra depois tocar na rádio.
– Temos que agradecer e muito a ele!
– Colocou o rock no mapa da Bahia.
– Pô, será que se acha “Rock Special” no Youtube?
– Quem sabe? Já pensou achar uma “noite do Heavy Metal” ou “noite do Punk” que ele fazia?
– Putz! Acho que foi lá que ouvi o Clash pela primeira vez.
– E Buzzcocks, Ramones, Sex Pistols? Tudo lá!
– Ouvindo essas coisas é que a gente não pegava mulher de jeito nenhum.
– Oxe, num é? Ainda mais depois, com os shows do Camisa de Vênus! Aí fudeu Maria Preá! E no rádio eles falavam “a Camisa”. Não podia falar o nome da banda. A Bahia puritana.
– Que menina ia querer ir pra show do Camisa no Circo Troca de Segredos? Ia mandar eu me lascar bonito.
– Mulher no show? Nem pensar! Cheio como a porra, meia Bahia lá dentro, e os malucos fazendo roda de pogo girando corrente com a mão. Se pegasse em um, lascava de banda. Eu menino amarelo lá olhando tudo. Minha mãe não podia nem sonhar, tava fudido de azul, vermelho e branco.
– Rapaz, me lembrei porque comecei com as aulas de violão.
– Por que?
– Meu irmão estava aprendendo com um professor, Mestre Avelino, violão de seis cordas daquele famoso grupo de chorinho “Os Ingênuos”.
– Lembro desse grupo. Tocava muito nos clubes de Salvador.
– Meu avô também tocava. Ficavam os três na sala e eu passava batido, acredite. As aulas eram em cima de mpb, samba e música que a gente achava de velho. Eu não me ligava nisso ainda.
– Nem eu.
– Depois um amigo da rua, Beto, começou a aprender também e juntava um monte de menina. Aí, a coisa mudou de figura e eu tratei de aprender a tocar.
– E aí, pegou alguém? hahahahahahahaha
– Que merda… Elas colavam nele, nada a ver com a música. Continuei sem pegar ninguém.
Bob então contou como se virava com seu gravador e toca-fitas. Era à pilha, que quando ficava fraca parecia que o cantor estava meio bêbado. Era onde ouvia trechos do “Rock Special” que gravava com “rec e pause”, para tentar aproveitar as melhores músicas. Marcelo Nova reclamava que faziam rock até na Austrália (usando o AC/DC, banda nova na época) e em Portugal (como a banda “Chutos e Pontapés”), mas no Brasil não acontecia nada. Havia no Sudeste e no Sul, mas na Bahia, além, claro, de Rita e Raul, o máximo que ouviam, e com muita dificuldade para encontrar, eram as mais antigas, como Casa das Máquinas, O Terço, Made in Brazil, Patrulha do Espaço e por aí vai. Bob lembrou que ainda havia o problema de não o deixarem ouvir música sem fones em casa. Então ele se mandava para a garagem do prédio para ouvir no volume ideal, ou seja, no máximo, no carro do pai. Depois ganhou um system 125 da Gradiente e um fone, alcançando a liberdade total.

– Como é mais fácil ouvir música hoje em dia!
– Nem se compara. O cara lança a música e você escuta na mesma hora!
– Antes era um ritual. Eu guardava meus discos com todo cuidado, só eu mexia neles, vivia limpando, cuidando da agulha. Agora basta celular, internet e streaming. Mais fácil que pescar de bomba.
– Com certeza, mas hoje ouvem umas coisas que não dá, véi.
– Eu tô rindo aqui, mas a gente também torceu muito o nariz para a disco music na época, lembra?
– Hum, verdade. Eu só ouvia nas festas. Até aprendia as dancinhas. E pra quê?
– Tentar pegar mulher!
– Exato! Não vou mentir.
– Eu comecei a ficar mais eclético nessa época. Gravava umas fitas maneiras Aí o pessoal começou a me chamar para as festas, pra “dar som”. Lembra disso?
– Claro, foi a época das discotecas em Salvador: Parafernalha, Close-up…
– Maria Phumaça, Clock, Bual’Amour…
– Muita festinha por lá…
– Só muito tempo depois a gente viu como tinha gente boa fazendo aquele som.
– Porra, nem fale. Instrumentistas, cantores, arranjadores, muitas feras, além de músicas boas.
– É, malandro, ouvir rock lhe transformava quase em um ser exótico!
– A gente ficava com fama de oreba.
– Não é o quê? Repare. Uma vez, veraneando no Conde, cheguei lá com minhas fitas de rock e uma camisa com aquelas estampas emborrachadas, com uma imagem do Led Zeppelin. A banda já estava no fim e, acredite: ninguém ali sabia que miséria era aquela.
– Incrível. Por isso que eu fiquei impressionado quando você falou de Chris Squire! Cara, alguém que gostava do Yes e do baixista? Ninguém reparava em baixista.
– Oxe, no máximo conheciam o cantor e, aqui e ali, dependendo da banda, o guitarrista.
– Isso é da cultura do encarte do LP. A gente lia de cabo a rabo, pra saber as letras, a produção, o estúdio e o escambau, né?
– Então, foi o rock que ensinou a gente a ir fundo em tudo da música, dos discos, das bandas!
– Concordo. Será que vai ser assim com o Lucas?
– Cara, ele tá naquela fase de descobrir coisas e ainda não pintaram as meninas.
– Será que as meninas torceriam o nariz por causa de um tipo de música?
– Sei lá, você já viu a renca de mulher que tem nesses shows de sertanojo? Que nem água batendo no meio da canela.
– O apelo é forte hahahaha.
– Eu vou fazendo o que posso por aqui. Vai ganhando livro e ouvindo rock. Vai que acha umas doidas que gostem disso também.
– Bem, que bom que parece que o streaming ainda vai durar. Dá pra resgatar as músicas da nossa época.
– Sim, bom para nós, que já estamos quase virando dois véio brôco.
