VINTÃO

Silvia Argenta

Assim que chegou ao local combinado, Jonas tocou na maçaneta de metal e percebeu que ela estava bamba. Flexionou levemente o pulso, a ajeitou no lugar e empurrou. Não deu certo. A porta de tons amarelados e que um dia foi branca estava trancada. Ele poderia forçar a maçaneta que facilmente conseguiria entrar na sala, mas preferiu esperar. Chegou pontualmente no horário da sessão, só que a assistente social ainda não estava lá. Foram dias confusos desde o primeiro encontro deles.

Já fazia uma semana. Sete dias de liberdade. Mas liberdade do quê? Ainda não tinha se acostumado com a mudança de vida. Passou os últimos oito anos num presídio cercado de pessoas nas quais não confiava. Vivia em estado de vigilância permanente com medo de ser agredido ou coisa pior. Dormia pouco e mal se alimentava. Na verdade, nem mesmo preso por tanto tempo conseguiu se acostumar. Inadequado lá dentro e aqui fora, não conseguia achar seu lugar.

Um homem passou pela calçada e Jonas foi até ele pedir dinheiro. Não comia havia dois dias. Moço, por favor. Ganhou um cigarro. Pelo menos estava aceso. Voltou para a porta e olhou o piso vermelho tomado por restos da madeira roída pelos cupins. Imaginou a porta se esfarelando, desintegrando, despencando aos poucos no chão. Deu uma tragada e depois um peteleco no cigarro. As cinzas caíram brilhantes igual vaga-lumes no escuro da noite. Ao tocarem o chão, sentiu que ele também se esfarelava, desintegrava, despencava aos poucos.

Durante seu devaneio, uma Bis chegou e estacionou ao lado da escada que dava na porta de Jonas. A assistente social tirou o capacete, logo o reconheceu e pediu desculpas pelo atraso. Puxou um molho de chaves da bolsa e tentou abrir a porta. Escolheu uma delas e não coube na fechadura. Tentou uma segunda e também não deu certo. A cada tentativa da funcionária atrapalhada, Jonas aspirava mais um pouco da nicotina. Ele não tinha pressa. Enfim, ela encontrou a chave certa e conseguiu abrir a porta. Jonas jogou a bituca e a esmagou com o pé no piso vermelho.

A sala tinha móveis grandes, desproporcionais ao tamanho do cômodo. Duas mesas ocupavam quase todo o espaço e ao lado tinha um armário com tanto papel que não dava para fechar as portas. Ele se sentou numa das cadeiras enquanto ela ligou a cafeteira e abriu uma pasta com todo o histórico de Jonas. De acordo com o alvará de soltura, ele deveria se apresentar à assistente social por no mínimo dois meses para que ela lhe desse suporte até que ele restabelecesse sua vida.

– Vejo aqui que nos encontramos há uma semana. Você não quer reencontrar tua família, que você diz que te rejeitam, e te encaminhei para o abrigo. Como foi?

– Fui lá e só dormi uma noite. Não gostei de dividir um quarto com mais dez pessoas, dormir em beliche, essas coisas…

– Ué, mas não era assim na prisão?

– Era e por isso mesmo não quis ficar. Não quero nada que me lembre daquele lugar e daí resolvi dormir na rua nas outras noites. Pra dormir olhando pro céu.

– Sei. Você entende que isso dificulta tua reinserção no mercado de trabalho e tudo mais, né?

– Entendo, mas decidi fazer minhas coisas no meu tempo, meus horários.

– Lá você ganha café e sanduíche pela manhã e também tem um lugar para tomar banho. Tua aparência piorou, tenho de te dizer. Está magro demais e esse teu cabelo está o fim. Não pode se entregar desse jeito.

– Ah, pois é.

Ela se levantou, serviu o café numa xícara e abriu um pacote de bolacha que estava na gaveta. Esfomeado, ele devorou a Bono sabor chocolate. Pela velocidade com que comeu, não deve nem ter sentido o gosto. O café nem deu tempo de esfriar. Com a mesa cheia de farelos, ela continuou.

– Então me conte. O que aconteceu na semana?

– Nada fora do normal. Fiquei andando pela praça e pelas ruas pedindo dinheiro, um prato de comida. Sei lá, oito anos atrás as pessoas não eram tão mesquinhas assim. Só porque sou preto não mereço atenção?

– Elas são desconfiadas, Jonas. Você ficou oito anos longe. Ver tudo diferente causa impacto.

– Foram oito anos injustamente.

– Tudo bem. Injusto ou não, se você devia ter saído da prisão antes, agora não importa.

– Tem estrupador que fica preso menos tempo do que eu. Não é justo.

– Jonas, eu entendo. Mas veja bem. Tanto faz agora. O que passou já era.

– Não é bem assim. Ainda fico remoendo isso. Daí numa das noites eu estava zanzando ali na Francisco Tolentino, que não mudou nada, continua uma bagunça aquilo, e um cara me chamou para ajudar ele num sequestro relâmpago. Fiquei pensando nessa merda da minha vida e topei.

– Mas Jonas! Vou ter de te encaminhar pra psicóloga e avisar o juiz.

– Aí, ó. Achei que eu pudesse confiar em você.

– Pode sim. Desculpa. Me diz. O que vocês fizeram?

– O plano era eu chegar perto de um daqueles playboyzinhos que saem bebaços de madrugada do Blues e que estacionam o carro na rua paralela, sabe?

– Sei. Os postes nem funcionam e tem pouco movimento.

– Isso. Eu ia chegar de surpresa quando ele estivesse abrindo o carro. Ele ia se assustar com meu tamanho e o meu parceiro ia chegar por trás e ia bater na cabeça do playba com um pedaço de madeira. A gente ia abrir o porta-malas, jogar o cara ali dentro e dar umas bandas. Ninguém ia ver nada.

– Tá, e qual a vantagem disso?

– Meu parceiro ia pegar os cartões do playba e começar a fazer compra no celular ou ir no banco sacar o dinheiro. Daí cada caso é um caso.

– Entendi.

– Eu não fiquei com essa parte porque quando fui preso o celular era só para ligar e jogar o joguinho da cobrinha. Hoje é tipo um computador portátil. Não sei mexer nisso.

– É isso mesmo.

– Então, esse era o plano. Combinamos tudo tim-tim por tim-tim.

– E aí? Foram no Blues?

– Sim. A primeira vítima não deu certo porque tinha mais três pessoas junto. Continuei agachado atrás do carro esperando o próximo playba.

– Apareceu?

– Apareceu. Mas era um brutamontes dois por dois que não ia caber no porta-malas de jeito nenhum. Daí, não fizemos nada.

– E depois?

– Depois sim. Meia hora depois. De longe, eu só vi os olhos brilhando no começo da rua. Parecia dois vaga-lumes. Nem sei o que esse pessoal anda usando hoje em dia, mas brilhava muito. Foi chegando perto e era uma moça. Ela andava sozinha bem no meio da rua, trançando as pernas.

– Que perigo essa guria assim sozinha.

– Olha, posso ser um ordinário, meliante, ladrão, mas não faço nada de ruim com mulher.

– Ufa! Daí você continuou escondido?

– Não.

– Jesus, Jonas. O que você fez?

– Ela tirou a chave da bolsa, abriu o carro e se sentou no banco. Foi mais rápida do que você para abrir essa porta.

– Hmmm… engraçadinho.

– Bom, ela não tinha força ou coordenação, não sei, nem para fechar a porta do carro. Cheguei perto, falei que tinha cuidado do carro a noite toda e pedi dinheiro. Nisso, meu parceiro foi chegando.

– Crendios!

– Ela abriu a bolsa, tirou uma nota de vintão e disse: te dou cinco, me traz o troco. Cara…

– Mas que guria trouxa.

– Meu parceiro chegou do lado do carro e quando ele ia dar a marretada na cabeça dela, eu consegui pegar o toco de madeira e dei na cabeça dele.

– Meu Deus, o que aconteceu com ele?

– Ele caiu desmaiado na rua. Depois de um tempo ele acordou, estava tudo bem. Só sangrou um pouquinho. Eu disse que um cara machucou ele. Ele não se lembrava de nada. Mas também, né? Mereceu. Ele ia dar uma pancada na cabeça de uma mulher…

– Pelamor, Jonas. Pra que se envolver nesse tipo de coisa?

– Ué, sou assim.

– E a guria?

– Bom, ela…

– Quando teu parceiro acordou, ela ainda estava lá?

– Não. Quando ele estava desmaiado, eu mexi nos bolsos, achei quinze reais na carteira dele, devolvi pra moça e fiquei com os vinte.

– Jonas, teus olhos…

– Ajudei ela a fechar a porta e agradeci pelo dinheiro. Ela ligou o carro e foi embora.

– Teus olhos estão marejados…

– Fiquei olhando até o carro fazer a curva. Não sei se a senhora entende isso. Desde que entrei na prisão, essa foi a primeira vez que alguém confiou em mim.

Deixe um comentário