por Américo Paim
É a minha versão da história, trinta anos depois. Fragmentos, mas entenderão. Omiti uns pontos, mas não os principais. Por que só agora? Já são dois anos da morte de minha mãe, tão criticada à época. Fez a coisa errada, cravaram. Será?
Passarinhos
Seu Ariston era aposentado do Banco do Brasil e morava com sua mulher, Dona Carminha. O casal não tinha filhos. Na Rua dos Limoeiros só ali tinha um piso superior e com varanda. Era ampla, com piso em cerâmica, tapetes, enfeites, duas poltronas, um banco rústico de madeira e, claro, duas gaiolas com seus curiós, Orlando e Sílvio. No começo era um espaço para seu descanso, mas depois passou a receber amigos por lá. Eu tinha dez anos e meus irmãos, sete e cinco. Quando saía de casa, ouvia o canto, olhava à esquerda, via as gaiolas e nunca o vizinho.
Minha mãe, muito bonita em seus trinta e cinco anos, achava a varanda chique. Meu pai, um cinquentão sedutor, ironizava:
– Ariston é muito do esperto, isso sim. Fez um andar na casa e a mulher não consegue subir.
– Carminha não é idiota.
– A pobre é aleijada. Ele se esconde dela lá. Deve ser chata que dói.
– Chega disso, ela é minha amiga! E se ela fizesse uma varanda só para ela?
– Como? Ela paga alguma conta ali?
– Que absurdo machista!
– Ué, ele trabalha e ela só ganhando comida no bico?
– Para, estou cheia dessa insensibilidade. O que você sabe dela?
– Abaixe sua voz. Vai assustar os meninos. Depois resolvo isso do jeito certo.
As coisas não iam bem, mas os filhos não sabiam. Seria a diferença de idade? Ou ele controlador e ela liberal estava no limite? Muito depois ela nos contaria o que passou naqueles anos. Em poleiro dele, galinha não piava.
Referências
Por ter sido em um pleno sábado de sol, a rua movimentada, a saída da jovem morena de corpo perfeito de dentro do Fusca causou um alvoroço. Era a Maricota. Vinha trabalhar na casa de Dona Conceição, por indicação de minha mãe, as tais referências, costume da época. Os meninos mais velhos, poços de hormônios logo cercaram o carro e se ofereceram para carregar a única e surrada mala que a moça trazia. Ela sorria, desconsertada com tanta atenção.
Minha mãe falava que se soubesse não teria sugerido pois logo era impossível ignorar os longos olhares de maridos, visitantes, trabalhadores. De tomar informação a dar conselho, apareceu foi gente. Não demorou e sua patroa criou mais restrições para que a moça mal saísse de casa.
Dona Conceição visitava muito Dona Carminha. Maricota às vezes ia junto para ajudar em algum serviço e matar a saudade de passarinho, acostumada com os bichinhos na roça.
Barriga
A gravidez foi o assunto por dias, mas quase ninguém viu o outro embarque de Maricota quando foi levada de volta para Cruz, uns seis meses depois da chegada triunfal. Era uma noite de terça e lembro que ela chorava, carregando a mala sozinha. Dona Conceição com fisionomia grave, enquanto seu marido arrumava os últimos detalhes do carro.
Quem era o pai? Falou-se em muito dinheiro envolvido ou ainda que o pai se revelou e ela foi embora por causa do escândalo. As mães foram pra cima de seus filhos tarados. Todos negaram, mas gostariam muito da experiência, sem a gravidez, claro. Para alguns essa fala custou uns bons tapas.
Lá em casa a temperatura subiu também. Eu não conseguia ouvir, mas foram várias discussões. Minha mãe passou a ter uma tristeza que se perdia no horizonte e se aproximou ainda mais de Dona Carminha. Com o tempo, porém, ninguém mais falava de Maricota.
Alguém
Robson, dezoito anos, era o cara mais bonito das redondezas. Físico de atleta, tímido, o queridinho da rua. Filho único, se aproximou de Seu Ariston e Dona Carminha por querer ser bancário e estava sempre na casa. Dona Carminha gostava demais dele e o estimulava. Um dia, uma conversa entre minha mãe e a amiga:
– Como Robinho está bonito…
– Hum, tá viva então…
– Ué, só reparei que ele cresceu.
– Pois é, melhor que seu “farsamento”.
– O que é isso, amiga?
– Precisa saber da conversa que ouvi aqui outro dia.
– Que foi?
– Ariston, grosso que só, quis saber se o menino já transou. Ele é virgem!
– Sei, e daí?
– Ele não quer sair com putas. Quer alguém que ele goste. Não é perfeito?
– Que bom, mas não entendi o que tem a ver comigo.
Pescaria
Robson foi ver Seu Ariston, mas ele tinha ido pescar e só voltaria no fim do dia. Foi convidado a entrar. Conversava com Dona Carminha e a campainha tocou. Era minha mãe. Muito nervosa, chorava. A amiga pediu ao jovem que fosse ver os passarinhos. Ele quis sair, mas ela insistiu. O jovem subiu e de lá tentou ouvir a conversa, sem sucesso. Quase uma hora depois, decidiu dar uma desculpa e ir embora. Já na escada, minha mãe surgiu, olhos vermelhos, maquiagem borrada. Ele a amparou e sentaram-se no banco da varanda. Já se conheciam há muito tempo.
Não fico à vontade para detalhes e nunca os saberei, mas transaram ali mesmo. Acontece que as testemunhas não foram só os curiós, mas Seu Ariston que chegou, achou sua mulher dormindo, ouviu ruídos, subiu as escadas, viu sem ser visto e logo desceu.
Nos dias seguintes, minha mãe se isolou ainda mais. Quase não falava com ninguém em casa. Um telefonema ou toque da campainha e seu rosto era só tensão. Seu rosto mostrava marcas de pouco sono e muito choro. Meu pai cada vez mais frio e grosso. Não entendíamos e eles só brigavam.
Duas conversas
– Até quando acha que vou aguentar suas putas?
– Outra vez isso? Você já disse que perdoou o maridão aqui.
– Mas ainda não é uma cicatriz.
– Que idiota ia guardar calcinha de vadia na mala? Por favor…
– Pare com essas viagens do banco. Ou me leve junto.
– Como? É meu trabalho! Tá louca?
***
– Não aguento mais, amiga!
– Outro bilhete? Calma, ninguém sabe de nada. Eu, você e Robinho não falamos.
– Como sabe? Olhe isso: “Vadia, gosta de novinho. Seu maridão já sabe?”. Alguém sabe sim. Por que
está com esse olhar estranho?
– Hum, nada não…
Comida misturada
Minha mãe deu o copo de água com açúcar a Dona Carminha e lhe pediu que se acalmasse. A amiga estava uma pilha, desconfiada do marido. Abriu a geladeira para mostrar que havia mudado a marca do seu leite, sem sucesso. Não eram normais o cansaço matinal e os apagões de memória das últimas semanas, sempre quando tinha reunião na varanda. Algo estava acontecendo.
Minha mãe e Dona Carminha passaram de vez a unha e carne e com a mesma tristeza. Passavam tardes juntas, em conversas, silêncios ou livros de receitas. Não se ouviam risadas.
Numa quinta, noite de reunião, ela fingiu seu ritual de copo de leite e cama. Mas tinha outros planos. Já alta noite, com enorme esforço, foi devagar pela escadaria e pegou o marido com uma mulher na varanda. Foi uma confusão e teve vizinho que chamou até a radiopatrulha. Ele achou que contornou, ela optou por um terrível calar. Até a notícia da gravidez de Maricota.
Entre Maricota ir embora e a morte de Seu Ariston, dois meses. Ele andava recolhido, triste. O corpo estava na poltrona, cigarro apagado, jornal nas mãos e os curiós também mortos. Pareceu algo súbito, mas o alpiste tinha sumido. Só ele mexia na comida dos bichinhos. Suicídio? Houve quem dissesse que a morte dos passarinhos foi queima de arquivo. O povo é cruel. Dona Carminha limpou a gaiola, vendeu tudo e foi embora.
Famílias
Após a morte do vizinho, meus pais se separaram e saímos daquela casa para sempre. Meu pai mudou de cidade e morreu três anos depois.
Não mais o vi, mas o Robson não virou bancário. Estudou Arquitetura. Casou-se e tem uma filha que batizou com o nome da minha mãe: Rosa.
Assim que nos assentamos, minha mãe nos contou resignada, para nosso choque, que tínhamos uma irmã, Maria Pureza, filha de Maricota.
Mãe e filha vivem em Cruz. Pureza não é tão bonita como a mãe, é ótima cozinheira e uma figura sedutora. Gosta de criar passarinho. Tem um filho que não autorizaram ter o nome do avô.
