A vocação do esquecimento

Não gostava de inventar nenhum compromisso, nem com os outros, nem consigo mesma, para as manhãs de sábado. Era dia de acordar e se demorar lembrando fragmentos dos sonhos para anotar antes que esquecesse, como a analista tinha recomendado – e logo aí já se sabotar, desistindo do exercício de memória para enfiar a cara no celular. Nem escovava os dentes, ninguém tem bafo no twitter. Sábado também era o único dia de sair para fazer o que fosse na rua sem que o chefe ligasse de 5 em 5 minutos perguntando pelas pautas. E já tinha se passado uma semana desde o dia em que até o preto velho desacreditou dela: “Carolina tem que faxê banho, Carolina vai faxê? Promete pra Preto Velho? Ah, vai nada!”. 

Nos últimos anos, derramou lágrimas que encheriam todas as pias bastismais do velho mundo, até que José se tornou, mesmo, só uma lembrança insossa. Agora, a figura dele era só uma marolinha. Tinha ajudado o fato de Carolina e ele nunca mais terem se cruzado na porta do cinema, na saída da Prefácio e em ponto nenhum do baixo Botafogo. E foi por pura sorte, ações coordenadas pelo inconsciente ou alguma mudança nos hábitos. Talvez ele evitasse os lugares que sabia que ela poderia estar. Ela com certeza. 

Carolina acordou por volta das 7h, como sempre. A menstruação descia como se fosse tromba d’água em cabeceira de rio. Se enrolasse mais 2 minutos na cama, o lençol viraria a cena de um crime horrendo. E, por consequência, a capa do colchão e o colchão. E aí sim perderia o ar preguiçoso da manhã, tendo que lavar o estrago. Era um sábado bonito. Apesar do céu um pouco embaçado, fazia calor. Já que precisou levantar, poderia ir andando até o centro. Lembrava que tinha uma loja de ervas na 7 de abril. Se essa não estivesse aberta, pelo menos era caminho para algumas outras que já havia visto na região, mas não lembrava com certeza em qual rua.

“Jasmin, pitanga, guiné, arruda, rosas vermelhas, louro, canela, uma vela branca e incenso palito”, repassava na cabeça o que precisava. O mormaço do centro do Rio de Janeiro combinado com a menstruação em seu segundo dia sugavam o sangue da superfície da pele do rosto e dos lábios de Carolina. Passando ao largo do grande teatro, olhava para cima espremendo os olhos por causa da claridade, porque era inevitável ver mais uma vez que ainda tinha ali na medianera as marcas do prédio que implodira um dia por volta de 18 horas, matando quem tinha se demorado para bater o último ponto. No Rio de Janeiro as coisas tinham vocação para irem abaixo, virarem nuvem de poeira e depois serem esquecidas para sempre. 

Ao passar pela entrada da Galeria Central ela olhava se a postura estava ok no vidro espelhado da loja de capas para celular. O suor escorria no vão entre os seios, esmagados por um sutiã de algodão sobreposto por uma blusa também de algodão. A nuca pegava fogo, mesmo com o cabelo em coque. Niguém se mantém arrumado andando no calor. Fixava, mas não muito, quem entrava e saía do grande portal que dava direto para duas escadas rolantes de sentidos contrários. José alugou uma sala comercial logo ali quando se separaram. Tudo bem que a rota ainda não era parte do cotidiano dela, mas depois virou. Três anos sem dar parabéns no dia 23 de março. Até tinham tentado uma conversa vez ou outra, mas sempre voltava com a sensação de que aquela pessoa não poderia jamais estar entre suas amizades. E agora andar pelo centro durante o dia era como ser uma bola de boliche que corre para desviar de pinos que ficam espalhados pela esteira e não todos juntos no final, reunidos no horizonte e, por isso mesmo, desviáveis. 

Virou na esquina da Sete de Abril. Quase torceu o pé ao descer do passeio para a rua desasfaltada pela eterna reforma da prefeitura. “Mas que caralhos, parece que tão procurando as pedras de Pereira Passos para terminar isso aqui”. Não conteve a risada ao chegar no número da loja e ver que, além de estar fechada, o reduto da reza – e da macumba – chamava “Rei da Vela”. Não dava para saber se era por causa do dia da semana ou se tinha falido. Rindo-se, levou a mão na barriga e viu que, sob o mormaço do sábado, a mão estava gelada. Precisava tomar um caldo de cana ou água de coco para não desmaiar. A troca do absorvente, àquela altura, também era urgente. Por mais desagradável que fosse fazer isso em banheiro público, um item raro no centro. O único do qual conseguia se lembrar era o da rotisseria, na galeria ao lado da sala de José. Que, aliás, era um péssimo banheiro, nem dentro do restaurante ficava. Precisava pedir a chave para o garçom e, mesmo que ficasse trancado, estava sempre um nojo. Chão mijado e cheiro de barata. Mas não estava nem de o.b., nem de copinho, era trocar o plástico da calcinha numa prendida só da respiração. O mundo haveria de perdoar mais esse lixo não reaproveitável. 

O relógio batia 11 horas. Já tinha chegado ao centro, mas não tinha ainda as ervas na mão. Enquanto tomava a água de coco – fez essa opçaõ porque tem menos açucar que o caldo -, googlou ourta loja para não desperdiçar mais perna. “Artigos religiosos centro RJ”. A mais próxima era na rua da Travessa: “Mundo baiano”. Não queria que ninguém a visse fazendo as compras que precisava. Ou iam achar que tinha se perdido, por acreditar, agora, em mandinga; ou que carolou de vez e tinha ido atrás dos santos católicos. Nem uma coisa, nem outra, mas um pouco das duas, sim. Achava engraçado chegar nesse ponto em que se negocia com o incorpóreo centelhas de clareza mental. Ali na rua tinha a livraria e ficou logo tensa: e se passasse na porta antes e conferisse o público? Se José estivesse por lá, daria a volta até a praça XV. A loja era toda de vidro e não muito comprida. O café próximo à saída facilitava a indiscrição dos consumidores. 

Com a área limpa, virou a esquina como quem carrega dólares os chamando de chocolates. Viu um chapéu de Zé Pilintra numa das fachadas e entrou. Olhou as preteleiras e os banhos já prontos que ficavam nas cestas de palha. Pingentes de prata: uma pata de sapo, uma figa; medalhas douradas, São Jorge, caveira. A vendedora, loira pintada, de cabelo encaracolado meio úmido grudado na cabeça, se inclinou no balcão para o bom dia. Falava sem piscar, tipo de corporalidade que Carolina sempre pensava consigo mesma que tinha um pouco de medo, parece típico de pessoas doidas ou más. Engraçado, e nunca tinha comentado isso com ninguém. “Você só tem banho pronto ou tem mais ervas separadas?”. “Tenho separadas, meu amor. O que você precisa hoje?”. “Guiné, arruda, pitanga”. “Aguarda um minuto que a pitanga vou precisar entrar para pegar”. “Tá bom, vou olhando mais umas coisas aqui”. Ainda precisava mesmo do incenso e da vela, mas Carolina aproveitou para se virar e terminar de ler a lista das ervas e pedir de cor. Não queria mostrar que trazia tudo anotado, poderia parecer muito iniciante. 

Escolheu um incenso palito mesmo, terminou de pedir as ervas e só quis saber dos preços no final. Pagaria o quanto fosse, não queria interferir com muitas perguntas os gestos da vendedora que não piscava, nem guardar para sempre a desacreditada que a entidade deu nela. Questão de honra. E de cura. Ficou mais barato do que imaginava. Mas a cada vez que o sensor da entrada, que identificava um novo cliente, apitava, ela olhava apreensiva para a porta. Nenhuma cara familiar. A moça enrolou tudo num papel pardo só e lhe entregou dentro de uma sacola preta. Deu para entender que discrição era regra da casa. 

Pisou com alívio fora da loja. O caminho de volta era quente, seco, mas direto. Embaçado seria passar em frente à galeria de José – agora o prédio de vidro verde com bolinhas brancas no concreto tinha esse nome particular. Podia, também, voltar pela Rio Branco, em vez de passar pelo largo. Teria até mais sombra. Carolina havia colocado a sacola dentro da bolsa, assim ninguém precisaria saber nem que ela tinha ido ao centro por um motivo específico. Queria que achassem, caso alguém, José, a visse, que ela é o tipo que anda pelo centro aos sábados – “muitas coisas para resolver”. 

Na caminhada, resistiu a dar uma olhadinha nas bancas de livro em frente ao metrô, a barriga repuxava de cólica. Seria uma péssima hora para encontrar José por acaso. Se ele falasse com ela, veria a fragilidade. Mas será que ele falaria mesmo? O melhor seria cortar, usar a pressa como desculpa para demonstrar o desinteresse em manter uma cordialidade. Se ficara feliz em vê-lo? Não, a indiferença precisava ser expressa. José não merecia qualquer brecha. Passou pela entrada do metrô, olhou se não vinham conhecidos pela escada da estação. Ficou olhando e sentiria o alívio quando parasse para atravessar a avenida que demarcava o fim da zona de perigo, mas antes de ver o sinal vermelho para pedestres um cabelo alto e despenteado passou por ela naquele exato segundo em que virou a cabeça para olhar para frente, desde que tinha se fixado na escada do metrô. José costumava alinhar o cabelo, mas nunca mais tinha visto um olho castaho-mel tão específico. Era ele? A cabeleira cobria, estava mais escura, mas teria pouca dificuldade em reconhecê-lo pela cor dos olhos. Murchou a barriga, colocou a mão na cintura enquanto parada na faixa e não olhou para trás. Sentia que seu próprio cabelo estava bem mais bagunçado do que quando o prendeu para sair de casa. Será possível que não conseguisse identificar, mesmo que num lance rápido, a pessoa com quem dividira uma parte da vida? “Se ele olhou para trás, fiz minha parte em não corresponder”, pensou antes do verde.  

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