por Américo Paim
Parei para conferir se já estava longe o bastante da sede da fazenda para resistir mais fácil à tentação de retornar. Também queria sentir o vento infalível, forte e ainda muito quente, que vinha do vale. Me aliviou um pouco de tudo. Tirei o chapéu e molhei testa e pescoço. Os cheiros chegavam, de mato, de estrume e de alguma flor perfumada que eu não identificava, me impulsionando a continuar. Lá longe, na casa, talvez houvesse alguém na varanda, mas eu não enxergava mais. As pessoas estranharam, com certeza. Saí a pé, no início da tarde e não da manhã. Nada do habitual. Não estava no meu normal mesmo. Precisava e segui.
A estradinha de barro, estreita e desajeitada com seus buracos e pedras, me pedia atenção. Eu usava botas e um cajado. À medida que avançava, o mato ficava mais alto às laterais. Vi que estar assim tão próximo de tudo era mais frágil de que se estivesse a cavalo. Mais um pouco da trilha e entrei em campo aberto. Fui recebido por rajadas poderosas que pareciam vir de todas as direções. Árvores, flores, capim, tudo bailava aleatório. Eu era como brinquedo do vento, um pobre e pequeno coelho, à mercê de raposas e carcarás. Lembrei logo das onças, mas elas ficavam bem mais afastadas. No calor dominante da lufada, meu corpo tremeu. Ali, no meio do nada, me senti indefeso, à deriva e me obriguei a parar. Rezei de novo, agora em voz alta. Ponderei se entraria no mato. Continuei.
Passada a cancela intermediária, entrei no trecho ladeado pelas cajazeiras. Fechei os olhos e deixei a aragem trazer o cheiro bom das árvores, como se as tocasse. Colhi cajás e coloquei nos bolsos. Assim que passei pela última dupla de árvores e entrei no mato, um arrepio na espinha. O vento esfriou de repente e voltou a ficar forte, a se infiltrar nas árvores, contornando-as, como a moldá-las, causando um farfalhar alto das folhas, tão irregular e inquieto quanto eu me sentia. Pensei na minha vida, que sempre pareceu arrumadinha como aquela trilha criada pelos empregados de meu pai há tantos anos, e que agora me parecia como o instante de calmaria e abafamento que antecede a passagem de brisa para vento, ventania, chuva e tempestade. Olhei os galhos mais finos: então tudo estaria por um fio? Tentando me desconectar, respirei fundo e prossegui.
Caminhei por longo pedaço de mato bem rasteiro, onde observei o vento balançar muito até a grama mais baixinha, dificultando o voo das borboletas. Achei que poderia ser daquele tamanho, ignorado por todos ao meu redor. Deitei no chão, bem rente, para ver o movimento das pequenas folhas que balançavam, mas resistiam. Invejei aquilo. De volta à caminhada, logo apareceram os mandacarus, aos montes. Parei e contemplei sua imponência e as belas e até inacessíveis frutas. Em contraste com o verde do caule e a proteção dos inúmeros espinhos em volta, lá estavam elas, em vermelho vivo, como um coração. Quis ser como periquitos e gralhas que voam e conseguem se encaixar nos vãos livres de espinhos para bicar a fruta. Sonhei que fosse assim com ela, alcançar-lhe de novo o íntimo e acabar com os ferimentos de sofrer que estamos nos impondo. Sim, eu queria aquelas asas, voar livre. O vento, que então mornou de novo a tarde, aqueceu meus sentimentos e me deu esperança. Andei.
Uns bons metros depois, parei em silêncio. Um barulho discreto vinha do chão e parecia ser de algo um pouco à frente. Esperei, cismado. Era um teiú, majestoso, lento. Atravessou no seu tempo, se arrastou até sumir no mato um pouco mais alto, à minha esquerda, não muito distante. Observei seu zigue-zague e o movimento da língua rosada e bifurcada. Me imaginei a cavalgar aquele lagarto por lugares desconhecidos, embrenhado no mato, para bem longe. Logo me lembrei que ele tinha vários predadores por ali e a fantasiosa ideia me pareceu ainda mais idiota. Voltei de vez à realidade com uma chicotada de vento muito quente que me trouxe um cheiro desagradável, embora ainda longe – meu nariz não é só para segurar os óculos, como sempre me disse minha avó. Era carniça, e um movimento bem familiar me captou a atenção. Olhei para o céu e vi o balé, lá no alto infinito. Urubus a voar na amplidão, sem bater asas, aproveitando as térmicas. Os admirei por alguns segundos e imaginei-me parando o tempo – sim, é a sensação que vem quando os vejo a voar – e resolvendo tudo que se deteriorava em mim. Será que haveria um resgate para nós, ou o nosso amor era uma carcaça à espera dos abutres, um caminho errado sem volta? Retomei.
O retorno. A poça era o ponto limite para regressar. Quando lá cheguei, foi um grande alívio. Muito cansado, sentei. Tirei a camisa, o chapéu e deixei o vento rebelde me esfriar a cabeça e os músculos, trocar calor com meu corpo e levar o suor e todas as minhas dúvidas. Quem dera fosse assim. Serviu para contemplar a bela paisagem e tocar a água fria com os pés descalços. Lavei alguns cajás e comi. Uns cabritinhos beberam da água e saíram em grupo. Brancos, pretos, marrons, cinzas, ordeiros à sua maneira. Sabiam para onde ir, ao contrário de mim. Andariam de volta até a sede. Pensei que talvez pudesse segui-los, berrando como um igual, mas não estava pronto para suas trilhas. Tinha que seguir a minha própria. Ergui a cabeça, traguei os bons cheiros do vale trazidos pelo vento incansável e pus-me a andar.
Deixei a poça por outro caminho. O esperado vento frio daquele horário me trouxe uma fragilidade ainda maior. Desconfiava de tudo à minha volta. Muitos minutos depois, dividido entre acelerar a passada e reduzir o ritmo para ser mais cuidadoso, parei gelado com um som familiar vindo da minha direita. O mato não era muito baixo e a trilha bem estreita. Eu não tinha rota de fuga e aquele som significava que poderia estar encrencado. O vento não parava e atiçava a ramagem na direção da pedra onde a cascavel já enrolada me observava, a pequena e perigosa distância. Um gesto errado e pronto. Um beijo de morte e aqui mesmo eu me encerraria, sem direito a dizer a ela o que era preciso, sem trazer nossa vida para lugar melhor. Tombaria só, para sempre, nesse lugar qualquer. Desejei asas outra vez. Me afastei com cuidado. Atravessei tenso o resto do trecho de mato porque o vento frio não parava, as folhas e galhos roçavam em meu corpo e o medo não me deixava. Cheguei a campo aberto outra vez e acelerei.
Só senti alívio quando avistei a sede e o vento me trouxe o mugido do gado no curral. Mais perto, veio também o cheiro de comida gostosa. Alguém cozinhava na sede ou na casa do capataz, difícil saber. Minhas pernas e minha confiança foram se recuperando. Quando a distância encurtou a ponto de perceber que ela me esperava na varanda, notei o vento brincando com seus cabelos e querendo levantar-lhe o vestido branco. Uma imagem que me fez cavalgar por dias felizes em minha mente. Ela sorriu, talvez por achar que eu voltasse com todas as respostas, enquanto eu chegava feito o lagarto, vagaroso. E ainda cheio de perguntas.
