Ciranda da Mãe da Catarina

por Bruno Vicentini

1.

Catarina e sua mãe são tão parecidas que ninguém pode perceber a diferença de idade que, supõe-se, existe entre elas. Tanto é verdade que as duas vivem em turnos. Catarina vive os dias pares e sua mãe, os ímpares. A rotina é sempre a mesma, combinada de antemão: café da manhã no Senadinho, almoço em algum restaurante do Centro, onde ainda há garçons em gravatas-borboleta, e as tardes na Biblioteca Municipal. Nesses lugares, as pessoas conhecem-nas por Paula. Paula, na Biblioteca, dia após dia, não consegue senão imaginar o que Catarina e sua mãe fazem em casa, enquanto ela vive a vida, e assim a leitura não avança.

2.

No sonho Catarina mora num apartamento muito alto e sua mãe está pendurada apenas pelas mãos no parapeito da sacada, sem gritar por ajuda. Catarina, tanto quanto se pode correr num sonho, corre pra segurar sua mãe pelos braços. Depois percebe que não tem força suficiente pra puxar a mãe de volta pra dentro. A mãe soltou o parapeito e agora segura os braços de Catarina com toda força, olhando dentro de seus olhos. Catarina reflete acerca de suas opções, entre elas acordar do sonho, ou, pelo menos, perceber que as duas não moram naquele apartamento, ou, ainda, se atirar pela sacada de braços dados com sua mãe, e descobre que está curiosa pra saber qual daquelas cenas pode acontecer primeiro.

3.

A mãe de Catarina descobre que a filha é uma imitação. Desde quando?, questiona-se. Imagina que na última terça-feira largou o carrinho de compras (onde por acaso também está Catarina) no meio do supermercado e que, naquela oportunidade, levou pra casa outro carrinho, um carrinho qualquer, onde havia outra criança, sem perceber, distraída que é. Mas é uma imitação perfeita, ela tem de admitir. Intrigada, entra na despensa, roendo as unhas. Ao lado das bolachas, há um pote imenso de mostarda de Dijon, coisa que ela sequer conhece, não teria motivo pra comprar logo um pote tão grande.

4.

A última aula foi de Educação Física. Catarina sobe sozinha a rampa do colégio, segurando as alças da mochila que pesa sobre seus ombros, cada passo mais difícil que o anterior, as bochechas vermelhas, o cabelo grudado na testa. Os gritinhos das crianças em sua volta viram risadas que viram silêncio e depois gritinhos e risadas e silêncio, em ondas. No topo da rampa, bem em frente às catracas, Catarina avista sua mãe, pelada, os braços cruzados embaixo dos peitos. Pela postura tensa, entende que ela deve estar com pressa. A mãe acena pra ela, com vigor, o que comprova sua hipótese. Seria melhor andar logo.

5.

No sonho a mãe de Catarina, com o dedo em riste, pergunta pro garçom em gravata-borboleta se ele sabe com quem está falando. O homem dá as costas, sem deixar na mesa o prato, coberto por cloche, e vai se queixar ao gerente. Catarina percebe que, naquele exato momento, uma chance está passando pela sua frente, ainda que aquilo seja, de fato, um sonho, e que tenha sido uma chance como aquela que a mãe havia deixado passar. Pede licença e levanta-se, vai ter com o garçom, pensando em repetir a pergunta com um pouco mais de elegância. Lá fora, uma multidão faminta cola os narizes no vidro da porta.

6.

Um pato de estimação vai parar na panela por engano. Uma panela de estimação vai parar na vizinha por engano. Uma vizinha de estimação vai parar na polícia por engano. Uma polícia de estimação vai parar no escândalo por engano. Um escândalo de estimação vai parar no noticiário por engano. Catarina e sua mãe comem o pato ensopado com arroz e legumes, receita de família, enquanto assistem ao noticiário e percebem que a mãe se enganou na quantidade de sal, sem perceber qualquer outro engano.

7.

Anunciaram-lhe a visita de sua mãe, mas, ao chegar no pátio da penitenciária, Catarina não reconhece a senhora que, dizem-lhe, está ali para vê-la, uma senhora muito aflita, tão diferente de sua mãe, segura uma bolsa de pano com mão de unhas roídas. A desconhecida quando a vê desata a chorar e a dizer minha filha minha filha, depois abraça Catarina com força, um abraço gostoso. Sua mãe é alegre, Catarina se lembra, não tem nada a ver com essa velha triste.

No início sua mãe não lhe pergunta nada, fica só passando a mão pelo rosto de Catarina e dizendo que ela está muito magra, lamenta pra si mesma que a filha esteja sendo tão maltratada ali dentro. A mão de sua mãe é enrugada como um pé de galinha, mas tem pelinhos macios, agradáveis. Logo passam a conversar amenidades e a sorrir uma pra outra. Catarina tem medo de dizer um disparate, de cometer alguma gafe que desmascare aquela farsa e que leve sua mãe a tomar consciência do teatro que as duas representam e que está, é evidente, fazendo um bem danado a ambas.

Sua mãe tira da sacola um pote com bolachas de nata, aquela que você gosta, diz. É uma bolacha seca, farelenta. Catarina come rápido demais e engasga-se. Como o horário de visita estivesse chegando a termo, pergunta se a mãe voltará na semana seguinte, e a mãe promete que sim.

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