
Porque vento a gente não prende
Helô Mello
A areia queima, a brisa sopra. Caminho há horas. Podem ser minutos, não sei. Engano inconsciente. Ondas, que escorregam no chão molhado, escondem moluscos que teimam em voltar quando as águas se recolhem.
Uma rajada muda a direção e é preciso fechar os olhos para me proteger dos fios de cabelos desgarrados que dançam insanos e insistem em passar no meu campo de visão. Piso nos búzios, tropeço no ar. E você vindo, do contra, contra o vento, sem desvios. Quase delírio em horizonte suspenso.
Aperto o passo, ando forte. O vento segue junto e me deixa sem rumo. As pontas da saia pesam e fixam na minha perna. Deixam restos de areia e sal roçando no contato com o tecido. Ao fechar os olhos, perdi o rumo e o mar transbordou em mim.
Vento forte, assobio. Caminho incerta, as conchas quebradas aqui e ali machucam meu pé, não posso evitar. Sinto você vindo, passo firme, no seu tapete de areia lisa. O vento te leva seguro.
Tento manter a pose, mas os cabelos entram na boca e preciso fechar, abrir os olhos, continuar a jornada. Outra vez e a espuma sobe até os joelhos. O tecido flutuante carrega um mar que insiste em estourar pesado nas minhas coxas. Desequilibro quando a areia me afunda. Um toque gostoso que me convida a parar e sentir o pé submergir devagarinho no solo movediço. O vento cessa de soprar e relaxo. A roupa se solta e respiro um ar salgado. Um doce desvio de um desfoque emocional.
Meu corpo sente um redemoinho chegar quando infla o pano que rapidamente gruda em mim, mais forte, acompanhado da onda que chega alta e pesada. Respinga ate meu peito. Não tive tempo de evitar, os pés estavam enterrados. Levanto a cabeça, as mechas no rosto e vejo você que segue vindo, sem tropeços. A clara espuma toca a solidão.
Desenterro meus pés. O céu escurece, o vento, cada vez mais forte, deve estar furioso, empurra nuvens pretas que vem pelo horizonte e deixam o mar cinza e triste. Quando sopra brisa, o oceano turquesa parece se alegrar. As ondas viram crianças brincando com a areia. Mas o vento muda de humor, como você, e carrega o mar para cima de mim.
A garoa é formada de pingos doces que caem no meu rosto, escorrem na minha face mas não me impedem de te ver. O chuvisco engrossa e obedece ao ar que muda o caminho das águas e dos meus passos. Mar e chuva, saia e blusa, me entrego a seus caprichos. E você permanece no seu caminho, se aproxima sem me ver. Sua calça comprida e camisa de mangas longas devem ser impermeáveis. Acho que você também. Sinto inveja. Você, impecável, a chuva não te toca e areia não gruda, não deixa rastros onde passou. E eu, descabelada, tropeçando, tentando seguir. Lembro que, quando juntos, o vento dançava no meu corpo. O mar me levava para o fundo, me fazia boiar. A rajada me carregava. Nado na lembrança, na essência do sussurro.
Depois de você passou, eu brisa, agora flutuo. Com minha saia clara, quero rodopiar, sem areia lixando meu corpo. O temporal passou, mas roubou a nossa melhor foto e deixou um buraco na página do meu álbum de retratos. Não vou colar nada nesse lugar porque vento a gente não prende.
