por Américo Paim
Começou em uma conversa no bar, por conta da notícia que ouvimos na TV sobre sequestro relâmpago em um bairro nobre. Aí o Ferreirinha, amigo velho, sabedor do meu envolvimento com uma história que ficou conhecida aqui na cidade como “o sumiço do vizinho”, me provocou pela enésima vez para que contasse como foi. Depois de negar todos os seus pedidos anteriores, não sei se porque já tinha passado tanto tempo ou pelas várias cervejas, topei falar.
Parte dessa história está em arquivos policiais e jornais da época. Naqueles dias, o caso foi encerrado sem solução, mas você, que vai conhecer agora, tire suas conclusões. Nunca saberemos de verdade todos os detalhes. Depende sempre de quem nos conta, claro. Relatei do jeito que chegou para mim, com a vantagem de eu ter testemunhado parte dos acontecimentos e, de alguma forma, ser próximo do sujeito. Mas voltando ao papo do bar, comecei pelo casal.
A situação se deu lá pelos anos 1980. José Virgílio, mais conhecido como Zé Vizinho, morava em Salvador na época. Era um parente distante de meu pai, próximos de idade. O Zé era pequeno empresário no ramo de confecções e tinha uma lojinha ali na Baixa dos Sapateiros, mas prefiro não declinar nomes ou outros detalhes. Era vida de labuta, pode imaginar. Tinha sua casa própria, que pagou metade com seu suor e a outra com uma grana que seu sogro, Seu Pedro Ivo, aportou, para ajudar a nova família da filha, a Maria das Neves, que estava começando a vida de casada. O pai dela morreu antes do ocorrido. Bom para ele.
– E como era o cara?
– Zé Vizinho? Sujeito bem apessoado, coroa enxuto, como se dizia. Nem alto nem baixo, uma cara meio redonda, pele morena clara e aquele bigode fininho, modelo antigo, que lhe deixava parecendo malandro de chanchada. Vivia nos trinques, arrumadinho, bode cheiroso retado. O perfume chegava meia hora antes dele. Nó cego da porra…
– Oxe, como assim?
– Pense num peão arteiro, da fala macia.
– Chegado a rabo de saia?
– Mais sujo que pau de galinheiro, mas em casa era como santo.
– E a mulher?
– Pense numa criatura boa. Toda inocente na história. Não sabia nada do marido fora das quatro linhas. Só conhecia a vida do portão para dentro. Um clássico. Uma mulher ainda bonita, atenciosa, da mesma idade de Zé, que só lamentava mesmo não terem filhos.
– Mas rapaz…
– Pois é, mas me deixe seguir a história.
Semanas antes de tudo acontecer, a troco de nada, ele começou a sair de casa à noite e dizia à mulher que tinha uns negócios a resolver. Ela não reclamava, afinal dinheiro é sempre bem-vindo. Seu Zé Vizinho sumia e voltava tarde. Não tinha cheiro de cana nem de mulher, assim foi dito. Um dia, de surpresa, ele anunciou uma viagem para fora da Bahia, a trabalho. Falou que tinha uns fornecedores novos em São Paulo e que queria conhecer a fábrica, a qualidade dos produtos e tal e coisa. Não era comum, mas foi fácil defender a necessidade. Só a patroa sabia que ele se ausentaria.
No dia marcado, com bagagem para três noites no máximo, se despediu da mulher, sem deixar que ela fosse ao aeroporto, dizendo que era muito cedo e não carecia. Foi de táxi – o motorista confirmou à polícia que o deixou lá. O voo era por volta das seis da manhã. Em torno de meio-dia, preocupada com a falta de notícias, Dona das Neves recebeu um telefonema. Uma voz masculina avisando que o senhor José Virgílio tinha sofrido um acidente e estava desacordado. E desligou o telefone. Você imagine o desespero da mulher.
Com a ajuda de alguns familiares e amigos, ela se movimentou como foi possível, atrás de informações. Confirmaram que ele desembarcou em São Paulo, nada mais além disso. Dois dias depois descobriu-se um saque significativo de dinheiro da conta bancária dele, que não era conjunta. Era conta da empresa. O saque foi feito por ele, é certo, mas em que condições? Vai saber. O tempo passou e nada de solução. Um parente me contou uma conversa que teve na delegacia:
– Qual a sua graça, cidadão?
– Getúlio.
– Qual sua ligação com o desaparecido?
– Sou primo da mulher dele.
– O que o senhor quer?
– Saber o que a polícia acha disso tudo. Ela me pediu.
– A polícia só vai falar de forma oficial, mas posso lhe dar minha opinião, de mais de trinta e cinco anos nessa merda: aí tem mulher.
– Por que?
– O cara picou a mula com outra égua.
– Não é possível. O casamento deles é muito bom. Posso garantir.
– Como? Dorme lá, por acaso? O peão se mandou com outra, vá por mim.
– Impossível. O que vou dizer à minha prima?
– Isso não é comigo, faça o que quiser. Aconselho que espere o fim da investigação.
Nas semanas seguintes quem já estava envolvido, inclusive eu, tentou avançar de todas as formas. Até ir a São Paulo para necrotérios e hospitais fomos. E nada. Ninguém sabia do paradeiro do cara. A maioria já se conformava que estava morto. O corpo deveria ter sido desovado por aí em algum canto e uma hora ia aparecer. A mulher era só tristeza, mas não desistia de jeito nenhum. Sentia que tudo se resolveria. Foi quando aconteceu o que só em filme mesmo…
– Qual foi?
– Uma tarde, Dona das Neves recebeu uma ligação inesperada.
– Era ele?
– Não. Era Cinara, que foi vizinha deles por uns tempos em Salvador, em outro bairro, há poucos anos. Ela afirmava ter visto o Zé Vizinho! E ela não sabia de nada do sumiço.
– Cacete, que sorte!
– Escute: isso aconteceu em Belo Horizonte!
– Oxe, que diabo é isso?
– A mulher estava em um shopping, um pouco distante para confirmar, mas achou que era ele. Até olhou em volta procurando Dona das Neves. Chegou a gritar seu nome, mas ele nem sequer olhou e agiu como se não fosse com ele.
– Que porra é essa?
– Espie. Ela não desistiu. Você sabe que mulher é barril. Estava certa de que era ele, apesar de notar que o cabelo estava diferente, mais escuro. Resolveu seguir o cabra, mas não abordar. Ele subiu e desceu escadas rolantes, andou para lá e para cá, sempre sozinho. Ela atrás. Até que ele saiu do shopping e pegou um ônibus urbano e ela perdeu a pista.
– Que coisa. O que vocês fizeram?
– Vou lhe contar. Pede mais uma aí.
A partir daí, foi mais fácil. Acionada a polícia local, eu e o Getúlio fomos para lá, acompanhar de perto o desdobramento. Dona das Neves não conseguia. Estava muito nervosa. Com três dias, em uma pousada pulguenta, conseguimos encontrar Seu Zé, quer dizer, o Daniel. Assim ele se apresentava agora. Era ele mesmo, mas nos olhava com cara de quem acabasse de ser apresentado. Não reconheceu ninguém, nem a própria mulher nas fotos que lhe mostramos. Sobre o cabelo de fato tingido, explicou que pintou porque precisava de uma aparência mais jovem para conseguir emprego.
Perguntamos como foi parar na cidade. Contou que um dia acordou lá, em um banco de praça. Não lembrava de nada, nem sabia onde estava. Procurou ajuda na polícia, mas ninguém o levou a sério. Só dão atenção se for criança. Concluiu que nada adiantaria e que precisava arrumar trabalho para poder comer. Foi a essa pousada, próxima à tal praça onde ele acordou, pediu qualquer serviço por comida e cama até arrumar algum dinheiro e conseguiu. Isso funcionou por alguns dias.
Aí nos contou que dentro dele, de alguma forma, se achava capaz de vender coisas. Bateu de porta em porta no comércio, até que arrumou uma vaga temporária de balconista em uma loja de roupas infantis. Perguntado porque naquele ramo, disse que foi por acaso. Ele falou que na certa foi agredido e roubado no aeroporto de São Paulo e de alguma forma o levaram a BH.
– Aí o que vocês fizeram?
– Ué, trouxemos o homem de volta.
– E daí?
– Durante semanas ele fez tudo quanto foi exame e nada de estranho foi encontrado. Os médicos disseram que ele teve algum tipo de surto. Acredite se quiser, com o tempo ele recuperou quase toda a memória, menos sobre o que aconteceu naquela viagem.
– Isso tem cara de migué, véi…
– Pera, ainda não acabou, o melhor vem agora, segura aí…
Seu Zé retomou a vida, os anos se passaram, mas o povo olhava sempre meio atravessado para ele. Sabe como é. A história do sumiço ficou meio mal contada e as possibilidades apareceram. A mais comentada foi que ele devia dinheiro e sumiu quando os credores vieram atrás, mas a polícia achava estranho não terem ido para cima da família dele. Muito se falou sobre as tais saídas misteriosas dias antes de sumir, mas ninguém achou qualquer pista. Dona das Neves, se sabia de algo mais, nunca falou. Os negócios prosperaram. As viagens a trabalho pararam. Quando não estava na loja, era sempre com a mulher. Isso durou um bom tempo, mas logo ele voltou a ficar mais solto.
As coisas pareciam acomodadas. Até que em um dia muita chuva, mudou tudo. Dona das Neves estava em um salão de beleza de papo com outras mulheres e conheceu uma chamada Ester, dez anos mais nova. Na saída, viu a moça ainda lá esperando o tempo melhorar e lhe ofereceu uma carona. Nada demais, mas o capiroto trabalhou. A moça aceitou. Chegaram ao carro e seguiram. Conversaram amenidades até o destino. Quando estacionou para a moça descer, reparou no carro à sua frente e ficou com a impressão que era o do seu marido. Aí falou, no reflexo, em voz alta:
– Engraçado… Esse carro parece…
– Bonitão, né? É do meu vizinho.
– Seu… vizinho?
– Sim, é do Seu Daniel.
– Da… Daniel, você disse?
– Sim! Gente boa. Eles vivem aqui há mais tempo que eu. Ele, a mulher, que parece ser bem mais nova, e os dois filhos.
– Tem certeza? Como é esse Daniel?
– Ah, é um tipo comum, já experiente, baixinho, meio gordo, com um bigode daqueles fininhos, sabe?
Aqueles antigos que os homens usavam. A senhora conhece?
– Como? Ah, não, minha filha, pensei que fosse alguém conhecido. Me diga uma coisa, eles são daqui de Salvador?
– Não sei não, senhora. Vieram de Minas Gerais.
