Saudade da praia, né, nego?

Um dos mais festejados narradores argentinos contemporâneos, Alan Pauls também se aventurou pela autoficção ensaística, marca deste belo livro que é A Vida Descalça (Cosac Naify). Neste livro, Pauls, que é autor de O Passado, depois refilmado lindamente por Hector Babenco, e dos também ensaísticos História do CabeloHistória do Pranto e História do Dinheiro, faz uma espécie de história pessoal de seus momentos na praia.

Uma das características do texto de Pauls é o alargamento do instante: a investigação não só do que acontece mas como acontece e por que acontece, explorando o evento em detalhes mínimos (daí as frases longas e períodos cheios de frases concatenadas). Enquanto revisita as praias da infância e da juventude, também pensa sobre o que é estar na praia – especialmente para uma pessoa que, por ter a pele muito branca, não se dava bem com o sol. Pauls se sente sempre inadequado na praia, e a praia o motiva a pensar. Aqui vão 3 excertos desse livrinho que é uma beleza.

PROPOSTA

Bem, você vai fazer mais ou menos isso. Você vai pra praia.

Vai pra alguma praia da infância. Da adolescência. Da juventude.

Alguma praia em que você não se sentia adequado. Estava fora de lugar. Não se sentia inteiro ali. Se sentia aflito. Angustiado. Ansioso. É possível ficar angustiado numa praia?

Trabalhe os contrastes.

Gostava da praia. Mas a praia não gostou de você.

O que aconteceu?

Como era a praia, como era ir à praia, como era deixar a praia?

Quem ia a essa praia? Quem não ia a essa praia?

Seu conto será narrado em um único dia. O dia em que a praia não gostou de você.

Agora, pegue aquela história pessoal, exagere o que aconteceu e a jogue para a terceira pessoa. Explore os detalhes descritivos e reflexivos sobre a paisagem e o personagem. Aliás, pode haver outros personagens nessa praia, fora o protagonista. Explore-os também.

Você pode até saber, mas não precisa contar como chegou ou como saiu da praia. Não há antes ou depois neste conto. O importante é o que de fato aconteceu durante essa ida à praia.

Observe como a praia tratou esse personagem, e como este personagem tratou a praia. Reflita sobre isso. Faça considerações sobre esta praia, sobre este personagem. E sobre como tudo o que parecia tão idílico deu tão errado.

O final não precisa ser necessariamente infeliz.

Em até 10 mil toques.

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