Por Susy Freitas
Melody Nelson tira o capacete pela primeira vez em um bom tempo. Ela se vira devagar e é estranho. Melody Nelson não faz nada devagar. Com um terçado na mão, ela pode te partir no meio como um deus. Sim, Melody Nelson é um raio. Mas agora, a rotação de Melody Nelson é lenta como água. Nua, seus seios fartos descem quentes sobre as costelas cheias de cicatrizes, e o púbis é farto e negro. A mistura de marrom e azul que algumas noites dão a ela, penso, é a mistura da Lua no rio. Seu cateter dourado-translúcido sai do canto do olho esquerdo e brilha através da fogueira. É seu anel de Saturno. Quando Melody Nelson termina o giro e me encara cheia, vejo lágrimas descendo dentro dele, direto do canal lacrimal. São gordas como pérolas. Alcançam a altura da bochecha dentro do cano e a sucção do aparelho lança as gotas para o reservatório da mochila. O transe de Melody Nelson dura um minuto, e no tempo certo, as lágrimas nutrirão o raminho que ela leva nas costas. Ele se chama Vó.
A refeição está servida, anuncio. Melody Nelson liga os motores da Velocycle para acender os holofotes sem medo de que estranhos se aproximem. Afinal de contas, quando o odor de carne humana ressoa nas noites quentes de Neocoroado, ninguém se atreve a chegar perto das Icamiabas: mendigos correm para longe, bêbados retomam a lucidez e nem o deus dos Ungidos é o suficiente para protegê-los de nossa ira. A luz é tremenda; a fogueira, cenográfica agora. Assim, no estacionamento da loja de conveniência, trançamos nossos longos cabelos negros e trocamos nossas vestes, eu e Melody Nelson, pela argila branca e dura que recobre nosso corpo inteiro.
Para cada pedaço de carne degustado, fazemos um registro em nossos Slavephones e as coins chegam aos montes na conta de Melody Nelson. A foto que mais rende é justamente a encenada, o clássico Subway. O Subway é quando colocamos o braço do Ungido caçado dentro de um baguete. Arrecadadas as doações de coins, desligamos os aparatos e relaxamos. Melody Nelson senta na calçada para chupar os dedos cheios de gordura tostada do Ungido e eu raspo o restinho do cérebro dele no fundo da panela. Por fim, coloco a máscara e subo na Velocycle de Melody Nelson através da noite, esfregando o terçado no pouco de asfalto que resta nas pistas de Neocoroado, rumo ao esconderijo. Ela cantarola uma canção do tempo antigo. O sol é raro e a felicidade também, diz a letra, e sua voz grave ao ponto do absurdo é perfurada pelo vento pesado que desprende a argila de nossos corpos e nos encaixa na garupa da escuridão.
Um dia, o Deus Sol nasceu e iluminou Melody Nelson e suas lágrimas infindáveis. Elas descem do olho pelo cateter dourado, mas se desfazem nos ombros, porque a mochila com o reservatório e o vasinho com a Vó desapareceu. Agora, Melody Nelson é leve e chora, exala grunhidos de um bicho que eu ainda não tinha conhecido nela. Baby Love, oh, Baby Love, onde está a Vozinha?, ela pergunta, e o som que faz é como ouvir um porco dizer suas primeiras palavras num matadouro. Sem perder tempo, varro o perímetro com olhos e ouvidos, passo a fuça ao chão, farejo em busca de sinais do raptor, parando apenas para colocar um reservatório improvisado nas costas de Melody Nelson. Vamos guardar essas para quando a Vó retornar, digo, e encaixo o cateter num galão empoeirado.
Rastros, fibras, carne jovem, esperma. Cheiro de homem vivo dá ânsia de vômito e preciso parar um segundo antes de continuar. Melody Nelson já transformou suas lágrimas em movimento, o que quer dizer que ela está muito puta. Ela é o ódio. Quem quer que tenha levado a Vó, está morto, e o prenúncio da carnificina me energiza. Somos tubarões num laguinho, temos mil dentes triangulares e não há homem que consiga se esconder de nós. No tempo antigo, Melody Nelson e Aquelas Antes de Nós já tiveram missões mais difíceis.
Conta a história de novo, Melody Nelson, eu peço, o nariz ainda a postos, sanguinário, não importa a direção do vento ou o cheiro de lixo e cadáveres na estrada.
Qual delas, Baby Love?
O Gênesis!
Que assim seja, criança. Estas são as palavras daquela que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro, Melody Nelson responde, soltando-se de mim por um segundo na traseira da Velocycle lenta pela estrada de barro e caquinhos de asfalto. As mangas da jaqueta caem e revelam sete estrelas em um braço e sete candelabros no outro. Vejo, entre os cheiros e a ira, seus traçados verdes e grossos de cada desenho. São como lodo nas paredes de um templo destruído. Ela começa:
No tempo antigo, Baby Love, Neocoroado era parte de uma coisa chamada Cidade. A mata ficava separada do pavimento e nenhum caminho levava ao rio. Havia regras, normas, procedimentos, termos vazios escritos em algum lugar que se acreditava tecer o Destino. Quando veio a Praga, nós éramos muitos, com muitas mulheres. E a Praga fez com que parte de nós ficássemos trancadas numa coisa chamada Casa, enquanto outros saíam na busca de mantimentos. Passei muito tempo na Casa, eu, Vó e outros. Dentro da coisa chamada Casa, havia uma coisa chamada Televisão, e dentro dela, uma coisa chamada Xena, a Princesa Guerreira. Eu e Vó sentávamos na frente da coisa chamada Televisão por um bom tempo, e Xena, a princesa forjada no calor da batalha, mudava o mundo aos domingos. Vó prestava muita atenção, e me recontava trechos daquilo que tínhamos acabado de assistir. Depois, íamos regar as plantas, e vó tinha muitas, porque no tempo antigo, era isso que as velhas faziam. Elas não ensinavam a matar, nem escalpelar homem, ou como consertar uma Velocycle. Elas nutriam, e se algo estava vivo, era porque, em algum lugar, uma Vó ajudava essa coisa a viver. A casa, então, era nossa bolha dentro da Praga, e assim ficamos por algum tempo, a salvo, esperando tudo voltar ao que era antes e regando as plantas, não essas que você vê por aqui, tucumanzeiro, angelim, embaúba. Eram plantas de longe, com flores finas como pele de bebê, flores não de comer, embora fossem vermelhas como carne, mas só de olhar. Só que nada voltou ao normal. Ao invés disso, as pessoas saíam da coisa chamada Casa por qualquer motivo, e com isso, muitos convidaram a Praga para dentro de seus espaços limpos, tudo com a conivência dos Velhos Líderes. Eles eram poucos, mas tinham poder; já o resto de nós, bem, nós éramos muitos, mas não sabíamos que tínhamos poder até ser tarde demais. E quando o Mundo Antigo começou a se parecer com o de hoje, só que novo, as mulheres ficaram com raiva. Exauridas de cuidar das coisas chamadas Casa enquanto seus homens traziam a Praga para dentro, elas os mataram, criando a Tradição das Icamiabas. As carnes doentes dos homens alimentaram nossas ancestrais, e quando já quase não havia mais homens, cobiçaram as carnes dos Grandes Líderes, devorando-os um a um. Foi nessa época que a Praga matou a Vó. Ficaram apenas as flores de olhar, mas Melody Nelson não aprendeu a nutrir e delas restaram raminhos murchos e insistentes, da qual Vó é filha da filha da filha da filha e por aí em diante, e junto com Melody Nelson os raminhos assistiam, através da coisa chamada Janela na coisa chamada Casa, a tudo morrer lentamente de medo, de saudade e de fome, tudo de uma vez. Foi quando a Suprema Delanóia encontrou esta Melody Nelson aqui pela vontade da Grande Lua, e cuidou dela. A Suprema Delanóia em farrapos, com aranhas saindo dos cabelos e dentes faltando, em cima da Motocicleta Suprema da Zona Franca de Hellnaus. E Suprema Delanóia levou a pequena e lisinha Melody Nelson para a coisa chamada Casa de um Grande Líder, e ali a ensinou a matar. E sua pequena Melody Nelson olhou nos olhos dela e aprendeu, e assim foi até Delanóia virar poeira das estrelas, e assim será quando Melody Nelson se for e a pequena Baby Love acabar com todos eles, porque somos todas uma, e toda a Neocoroado é como que uma coisa chamada Casa agora, e ela será nossa quando acabarmos com todos os Ungidos que ainda levam a Praga aos seus. Porque quem adora ao Deus Morto só pode morrer mal. Essa é a vontade do Deus Sol, que fez as mulheres comerem de carnes doentes e continuarem vivas.
Melody Nelson termina a história e tenho certeza que reencontraremos Vó. O cheiro é forte, o raptor, próximo. É por isso Baby Love é nome de quem fareja: cheiros são tolos e sinceros como bebês, e eu amo isso. Acelero. Ao sentir a velocidade nos cabelos sebosos, Melody Nelson ri. Passa seu terçado pelo ar. Posso vê-lo refletir o branco escaldante do Deus Sol pelo retrovisor por um segundo, transformando a mata que engole as ruínas de Neocoroado num clarão de esquecimento.
A fila para o Necrobanco está vazia, restaram poucos de nós para retirar suas coins pelo Caixa Lento. Aleijados se misturam a viúvas e apenas os menininhos agarrados nas barras de suas saias decrépitas escondem-se por de trás de suas pernas. Eles sabem quem somos e escondem seus símbolos do Deus Morto na gola das camisas pequeninas. Nossas vestes de couro falso pretas, pregadas ao corpo dos pés à cabeça, e o rosto pintado de urucum da testa ao nariz, dizem eu-vou-matar-você. Olho bem para os pequenos. Suas carnes são tenras, mas não é isso que procuramos agora. O cheiro vem mais da frente, e já farejo seu tremor. Sobe pelas canelas, que suam no meio dos pelos. É jovem e burro. A mochila, a corcunda. É Vó.
Ainda na garupa da Velocycle, os passos silenciosos do homem são o alvo da lâmina de Melody Nelson, que rosna por trás das dobras de seus joelhos. O homem cai no chão, um corte rápido que sequer gera gritos, e de alguma forma Vó já está em mãos, o plástico ainda frio de lágrimas entre meus braços e quente de terra sob meus dedos. Somos uma só. Melody flui como música, tão precisa que só o movimento anormal do corpo do homem na fila dá pistas de que o Deus Sol decidiu seu destino. Crianças choram e mães correm. Salve-se quem puder, dizem meus olhos ao encara-los.
Melody Nelson não tem pressa. Tira-lhe o escalpo com a precisão de um terremoto. O homem ruge, ronca, silencia, e ela o faz voltar para o resto de sua Morte por Mil Cortes. São horas lentas, que conheço desde criança, tão grandes que a fila do Necrobanco volta a formar logo ao lado. Todas mulheres, como nós, aproveitando-se aquele ser o momento mais seguro para estar ali, pois sem homens ao redor, nem a Praga e nem o estupro e nem o roubo lhes afligiria. Toda a mágoa do Deus Sol caia agora sobre um ser apenas. Bolinhos de pele arrancada do homem formam no barro uma espiral irregular. São como um rolo torto de lábios vermelhos. Olho para Vó e percebo nela a mesma forma. Finalmente aprendo como é uma flor de olhar.
