Procura-se YOU
Helô Mello
Gabi está de férias. Fez 13 anos e quer trocar o jacaré por pranchas de long boards, depois da arrebentação. Até hoje só pegou onda em pranchas de isopor, usando camiseta velha, para não ralar a barriga. Nunca ousou ir além, mas está empenhada.
Investiu um tempo na janela do seu apartamento. Procurou caras conhecidas antes de descer do 15o andar e atravessar a avenida que a separa do mar. O velho telescópio, do irmão mais velho, há muito não procura constelações, e hoje, reabilitado, vasculha estrelas amigas na praia das Pitangueiras no Guarujá.
Acordou antes das oito e já não aguenta mais fazer hora, esperando a turma aparecer, já que não pode ligar nas suas casas logo cedo, não pega bem, diz sua mãe. Memorizou todas as histórias, da Monica ao Zé Carioca, recortou e criou outros gibis, que pretende vender para as tias e primas e quem sabe ganhar um dinheiro para comprar picolé de coco do Rochinha, já que sua cota de sorvetes derrete mais rápido do que a sua vontade de tomá-los.
O biquíni combina com a nova canga, o cabelo, de lado, repartido no meio ou preso? Tamanha insegurança deu até nó, de tanto escovar, prender e soltar. Pouco café da manhã para não dar aquela barriguinha de perfil. Sua mãe a proibiu usar biquíni asa delta, por mais que insistisse, não tem nenhum. Só um com as laterais um pouco mais estreitas, que tenta em vão enrolar e subir quase na cintura.
Virou a sola preta das Havainas, para cima. Reparou que os meninos estão usando desse jeito. Deu trabalho para soltar as tiras, sem arrebentar, e fixar de novo do outro lado. Não esqueceu de pendurar a correntinha no pescoço com um pingente prateado que ganhou de aniversário. Um círculo plano preso nas laterais que, ao soprar, gira sobre si mesmo e durante o movimento escreve I LOVE YOU. Procura-se YOU, pensa, a vaga está aberta.
A inspeção final acontece no espelho, dentro do elevador. Se assusta com os murros de algum vizinho pedindo para liberar aquela droga. É preciso
enfrentar a praia. Ano passado não tinha esse stress. Passava as manhãs curvada nas pedras caçando peixinhos que teimavam em esconder imersos nas poças que a maré formava quando baixava. Depois fazia buracos e morros, para proteger das ondas, que sempre venciam e desmoronavam o trabalho da manhã toda. Essa era a hora de subir para almoçar o filet de pescada à milanesa, arroz com feijão preto, uma saladinha de tomates. Só variava quando pedia um ovo frito, de gema bem mole em cima do arroz. Tudo igual, todo dia, até chegar esse verão, 13 anos.
Passou óleo Johnson curtido no urucum. Disseram que era bom para ficar morena mais rápido. Estava branca leite e o estampado do maiô ressaltava a pele de um ano sem sol.
Entre guarda-sóis coloridos procurava alguma amiga para conversar. Algumas, avistadas antes pela luneta, desapareceram. Fingia estar segura de si, baita mentira. Lembrou-se de andar com um sutil rebolado no quadril (treinou a tarde toda no corredor do apartamento), mas deu poucos passos e tropeçou naquela droga de cordinha invisível fincada na areia. Quase foi de boca parar no chão, invadiu uma barraca, derrubou a mesinha com copos recém arranjados com água de coco fresca. Murmurou um breve pedido de desculpas e saiu de lado envergonhada.
Sua irmãzinha brincava com baldes, pazinha e forminhas coloridas de estrelas. Ela estava usando o boné da pequena sereia, seu preferido até o ano passado, tinha uma espessa camada de Hipoglós branco nas bochechas com cheiro de bacalhau, isso Gabi sempre odiou, e os fios de cabelo que escapavam do rabo grudados no creme que a irmã tentava desgrudar com a mão de areia.
Vamos fazer um túnel? Perguntou sua irmã. Não posso, estou ocupada, respondeu, com pesar. Que vontade de cavar um buraco fundo até chegar a água e rápido abrir as laterais para não minar e desmoronar a obra! Largou os chinelos e foi em direção a beira d’água.
A areia fofa estava pelando e, a cada passo, intensificava a fritura. Se apressou. Ao alcançar as primeiras ondinhas veio junto o alívio da areia movediça, cinza escura, úmida e se deixou abraçar, afundando até os tornozelos. Olhava para a arrebentação buscando algum surfista bonitinho. Foi quando veio a onda inesperada. Atolada, sem nenhum
espaço para manobras, caiu sentada, com os pés ainda presos. A canga, que era para combinar com biquíni, agora não passava de um pano molhado grudando no corpo. Olhou com o rabo dos olhos para os lados, para trás, para ver se alguém tinha reparado na cena insólita. Precisou voltar para deixar o trapo na barraca. Os pés chiaram e esqueceu a pose. Que se dane.
Sem encontrar amiga alguma, não contornou a sensação de ridículo, caminhando sem canga, sem destino, ninguém para conversar. Todos passavam, andando rápido, duplas de chapéus de abas largas, seguros de si. E Gabi só. Até o ano passado construía castelos de sonhos simples que desmoronavam quando, muito melada, corria para um mergulho e começava de novo. Fazia amigas de praia, mal sabia seus nomes, ficavam intimas construindo um vulcão enfeitado com palitinhos de madeira à volta toda, que catavam no chão, enquanto negociavam estratégias para barrar as ondas. Trocavam ferramentas e sonhos. Socorria com a perna quando uma onda avançava do lado da amiga que gritava. Eram obras sem autoria, propriedade ou permanência. As vezes encontrava no final da tarde os resquícios do que sobrou do seu castelo, quando saía para passear, e se sentia orgulhosa. Começaria outro maior, mais alto, com suas amigas, no dia seguinte.
Agora não sabia mais nada. Sem castelos, sem amigas nem novas, nem velhas, de pés ardendo, um biquíni desconfortável nos breves seios e sua correntinha que ia enferrujar em contato com o sal. Nem o menino que ficou paquerando a distância ontem na matinê do cinema tinha encontrado ainda. Era quase hora de subir e pensava em desistir dessa roubada. Decidiu entrar no mar, sem molhar os cabelos, claro. As costas ardiam, era melhor não pensar no estrago do óleo com urucum.
Gostava de furar a onda bem quando ela se levantava, gigante na sua frente. A marola a levantava até a crista, quando perdia pé e descia mergulhando suave enquanto vaga estourava nas suas costas. Podia se imaginar sereia, como a do boné que dispensou esse ano. Para evitar molhar os cabelos, saltou a primeira onda, com sucesso, mas foi surpreendida pela segunda que vinha em seguida. Rodou embolada com a areia que entrou pelo nariz, orelhas e a cuspiu no raso. Se levantou, um pouco zonza do caldo, água salgada na garganta e tanta areia no biquíni, quase escorregando pelas pernas. Nem dava para ver se alguém viu a cena pois os cabelos arenosos cobriam seu rosto. Rapidamente voltou ao fundo
para conseguir tirar do maiô tanta areia. Amanhã vai acordar cedo e pegar siri com a irmãzinha, construir o buraco mais fundo que conseguir e vai se sentar dentro dele quando formar uma piscininha.
