Fluorescente

Por Susy Freitas

“Passa pro gordinho imundo”, vocifera o pai de Guida na lateral do dito campinho improvisado na areia, e ela tira a embalagem do picolé rosa com a devoção de quem desvela uma santa. O cabelo eriçado do pai e o rosto muito vermelho lembram um abacaxi de desenho animado, mas é nisso e, ao mesmo tempo, não é nisso que Guida pensa. Estirada na espreguiçadeira, ela olha para o jogo para olhar através dele, lá longe, onde o Homem Branco senta de costas para o rio, de frente para ela.

Na escassez de movimentos, resta a brancura redundante da pele do Homem Branco para hipnotizar os breves anos de Guida, seu tempo em suspenso. Pensa em quando estará pronta para um Homem Branco como aquele, que poderia muito bem ser qualquer outro. Uma mulher, enfim, e os risos das crianças mais diabólicas atravessa os limites da pelada na praia. Bigo, Pepeu, Baby, esses nomes de primos pequenos, a ruína dos primeiros encontros das namoradas com as sogras no futuro. Seus risos caem na água, transmutando-se em piranhas raivosas e muita, muita espuma. Ao emergirem, as crianças parecem saídas de um esgoto, rajadas como um surubim. “Tá quente, tá quente!”, elas berram, tentando se livrar dos sedimentos escorrendo de seus corpinhos imundos. O cauxi mancha as bordas de seus calções de banho, e um invólucro metálico de latinha de cerveja vem na cabeça de um deles.

“Puta merda, eu falei pra vocês não irem pra água, que tá sujo!”, grita sua mãe, ou a estranha pasta de suor barulhento que ela parecia ter virado. Por um segundo, Guida desejou ficar assim para sempre, uma coisa à parte da imbecilidade das crianças e a histeria dos adultos. Mas isso era só uma ilusão, e o incômodo arriou uma franja na pele entre seus olhos, os trilhos dessa rua confortavelmente alocados. É daí pra pior. Sua única salvação é a imobilidade do Homem Branco, seus olhos inidentificáveis, o cavanhaque fora de moda encobrindo os lábios, a barriga dobrada sobre a sunga, suas formas repulsivas e hipnotizantes ocultas, sedentas talvez, em busca do que ela tem, quem sabe.

Sem nada a perder, Guida abre as pernas por um segundo, finca os pés de um lado e do outro da espreguiçadeira. Ela ainda não tem nada que transborde dos limites do biquini, por pouco mal tem o que esconder lá dentro, seu pequeno oco seco e confuso, um oásis ao contrário. Espera captura-lo ali, naquele intervalo entre a vida e a morte, onde tudo é possível. O Homem Branco permanece impassível, fixo com o azul no céu ou o negro nas águas. Uma voadeira corta em vão os limites do horizonte efervescente. Será que vai ser sempre assim, para sempre buscando um borrão longínquo nos caboclos que de fato vão tocá-la ao longo do tempo? Guida se senta, emburrada como uma criança que não entende, não entende o quê, nada, absolutamente nada.

Como que por comando, a bola de leite segue na direção do tio Ícaro, que a alcança à duras penas com uma ginga deplorável. Seu chute tosco mira direto no sol e Guida sente o toque do sabor na mão. O picolé derrete quase que instantaneamente. Ela estende a língua para fora, embanana-se, a mais completa humilhação perante o Homem Branco, lambe entre os dedos e pela extensão imoral do gelado na tentativa de fazê-lo voltar à forma original, uma volta à embalagem ou, em último caso, uma fantasia repleta de lacunas sobre o retorno a um lacre rompido para sempre, rompido num chute tosco mirando na luz que ela tinha antes e que agora não tem mais, embora as formas de seu corpo lembrem uma fluorescente. É reta e longa, e a princípio, não deveria ser tocada, o contrário do tio.

O pai de Guida vira uma série de impropérios quando joga, e agora ele é o “Vai chutar repolho, que pelo menos espalha!”. Ícaro some dentro do rio fervente, ao passo que o cérebro da garota constata que o sabor artificial de morango se transmutou numa gosma de ojeriza. É rosa, mas é goiaba, é isso! Vem-lhe à mente os bichos da fruta, a pele lisa da goiabeira, a banalidade da árvore que ela vê todo dia da janela do quarto, ao contrário do morango, cujas formas e flores ela nunca havia visto, nem na televisão. De Ícaro, vão-se primeiro os pés, depois os pneuzinhos e, por último, as patacas vermelhas nos ombros atravessando sua pele morena e curtida até o limite da água. Aquilo deveria ser gostoso, mas não é.

Num pulinho, Ícaro alcança a bola. Ele teve o que queria e ela não. O Homem Branco enfim se move, estendendo a mão para alcançar o frasco que sua parceira loura e curta lhe entrega. Ela, que se ocultara do quadro até então. Ela, com miçangas coloridas na ponta das trancinhas no cabelo, saudável, cheia de formas que Guida nunca vira no mundo real, uma mulher firme, uma mulher ágil, a única que não suava ali. É claro que o Homem Branco a escolheria: é uma igual, outra como nenhuma antes dela. Ele e o protetor solar têm quase a mesma tonalidade. Por sua vez, o que Guida sente ao observar a mulher curta e loura tem quase a mesma textura. É melado e inconveniente, atravessa a pele de seu biquíni bem comportado de dentro do oco não mais seco e confuso, mas quente e assertivo, assertivo como o sol. Não deveria ser assim, não é como as meninas são, e seu corpo tem o tipo de raiva que a fará, num futuro não tão distante, atirar-se aos homens em total entrega como quem tenta apagar traços de caneta com uma borracha. No forro da lycra, ela guarda esse segredo que ninguém jamais tirará dela, e que a marcará para sempre.

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