Só para quem “merece”

Suspirei em cima do computador, com uma mão segurando a testa para não cair em cima da tela, quebrar o teclado ou apertar 10 letras aleatórias junto com o enter e a mensagem ir direto pro Whatsapp Web aberto no grupo “Docê – vídeo divulgação”. O frila da vez era o roteiro do lançamento de uma casa de bolos do Grajaú. Nesse dia, meu peito ardia de ódio, o esôfago queimava como se eu tivesse acabado de chupar um Halls preto, meu coração galopava no ritmo do cavalo que venceu qualquer corrida apostada ali no jóquei, que ficava umas quadras para frente do escritório. Eu não tinha ainda a dádiva da sala própria no trabalho, então torcia para que ninguém chegasse por trás de mim para falar o que fosse, porque aposto que se um dedo encostasse nas minhas costas naquele momento seria como apertar o botão para liberar meu choro preso não na garganta, mas já atrás dos olhos mesmo, comprimindo meu cérebro.

Já se passavam dois meses desde o meu open house que o César não foi. Teve que viajar a trabalho. Avisou em cima da hora, não pediu desculpas, não disse que sentia muito porque não estaria lá. A gente estava ficando desde outubro do ano passado e já era fim de março. Mas, antes do rolo afetivo sexual, estávamos há uns três meses nos vendo toda semana nas reuniões do partido, fazíamos todas as ações de rua juntos e nossas turmas de amigos se conheciam desde que ele tinha mudado de diretório, o que fez com que nossas atividades coincidissem. Foram pelo menos cinco meses em que ele me acompanhou na saga da busca por uma casa nova, até o dia da mudança, no meio de janeiro.

_ Amiga, você se livrou.

_ Mas agora que eu já estava curtindo?

_ Você não acha ele feio?

_ Será que ele ouviu eu falar isso em algum lugar? Só comentei com a analista.

_ E por que é que você quer um homem feio?

_ Amigo, ele não é feio, é bem charmoso, vai, com aquele cabelão.

_ Você é bem mais bonita que ele.

Meu roomate achava que eu “merecia mais”. Não entendo muito bem essa dinâmica de quando dizem que eu ou você “merecemos” um certo tipo de cara para namorar. Óbvio que eu acho que minha passagem por esse plano ainda não incluiu nenhuma maldade que me fizesse “merecer” um crossfiteiro, um publicitário de coque samurai ou um coach da neurociência. Mas um namorado fofinho – e a barriga do César era mesmo, pouco, mas era -, de esquerda, cabeludo, de óculos, que ronca mas dorme abraçado (quando não tem insônia) e que poderia ser um substituto para o buraco que o José deixou, eu acho que merecia, sim. Não sei se o Fran, que procurou apê junto comigo e com quem eu, agora, divido as mesmas panelas, achava que eu tinha que ficar com o príncipe Harry. O fato é que, depois da tal viagem no dia do open house, o César nunca mais apareceu.

Em outubro do ano passado, depois de termos passado dias e dias andando de um lado para o outro no Largo do Machado entregando panfleto e apresentando nosso candidato professor à presidência, o César me acompanhou várias vezes nas duas ou três visitas de apartamentos que eu estava agendando diariamente para os horários de pausa. Num desses dias, depois da militância, ele foi no apartamento que eu ainda estava morando, que já tinha até algumas coisas encaixotadas para caso eu assinasse logo um novo contrato. O apartamento parecia uma casa de refugiado. A verdade era que eu estava aflita com o fato do José precisar tirar de lá uns três moveis e objetos que, por deus, eu não queria mais ver. Mas para o César eu disse que já tinha me adiantado porque a proprietária tinha vendido o apartamento e não me restava muito mais tempo. Vendo minha agonia, um dia ele foi me visitar e levou uma palmeirinha já num vaso de cerâmica queimada, uma combinação linda: “já que você vai pagar frete para os seus móveis mesmo, uma plantinha a mais não vai mudar nada, é para alegrar sua casa agora, e, depois, a nova”. Fiquei comovida com gesto e quase apelidei a planta de “Cesinha”. Há tempos ninguém me arrancava um sorriso sem tentar muito. E foi então que comecei a achar que, de fato, eu poderia dar bola para o César. Decidi num dia e no seguinte a gente se pegou, depois de uma tarde difícil de panfletagem, que chorei e as porra na entrada do metrô por causa de um cara de Porto Alegre que se mudou para trabalhar num escritório ali em frente ao Aterro. Esse cara disse que tinha se formado em Design na Federal, onde não aprendeu nada, “porque todo mundo só fumava maconha”. E eu, se estava ali gastando meu tempo defendendo um político, era porque devia estar desempregada e mal sucedida também. Doeu mais que minha separação, sabe?

A palmeira agora fica no canto embaixo da janela da sala que bate sol pela manhã. Eu me mudei para o Flamengo, uma rua movimentada, próxima às principais que atravessam o bairro. Não tem bares na rua mesmo, mas ela fica cheia de adolescentes em idade escolar. Já o César mora ali atrás do baixo Gávea. Ir ao Braseiro ou na Tracks é ter uma chance de 70% de topar com ele. E é obvio que eu comecei a frequentar até mais ali depois que o frila da agência que ia fazer o vídeo da “Docê” apareceu e ele sumiu. Até ir andando do Jardim Botânico ao Moreira Salles eu ia, com a cabeça queimando na ideia “vai que encontro”. Foram várias tentativas sem sucesso. E o pior é que, quando eu chegava em casa, o que de fato alegrava o ambiente era a planta.

Meu último encontro com César foi em dezembro. Eu dei uma festinha para comemorar a chegada do verão, um ritual que me acostumei a fazer para saudar a única coisa que ainda me faz querer estar viva nesse país. O César veio e talvez eu estivesse muito empolgada em apresentá-lo para meus outros amigos que não são do partido, incluindo o Fran, com quem eu moro agora. O César não estava exatamente brilhando na festa. Cantou uma ou duas músicas no karaokê e se enturmou com quem ele já conhecia. Dormiu comigo, mas nem rolou nada, acho que eu tinha bebido demais ou ele estava cansado demais. No dia seguinte, ele demorou a acordar, disse que estava mole e com dor de garganta. Levei um café preto, se fosse ressaca logo passaria. O calor já estava pegando quando eu terminei de arrumar a cozinha e a sala. Ele levantou, perguntou se precisava de algo para o almoço e disse que iria na farmácia comprar uma pastilha e anti-inflamatório. Eu pedi um suco, para complementar a salada de folhas com quinoa – refeição detox.

O César voltou da farmácia com 38º de febre. Almoçou e dormiu de novo, na minha cama. Ele suava bastante e acabou ficando até a segunda-feira de manhã.  Foi embora dizendo que estava um pouco melhor, mas a garganta ainda pegava. Eu segui a vida, até que na noite de segunda mesma quem caiu na cama prostrada fui eu. E na terça veio a febre, provavelmente causada pela placa branca de pus que eu vi grudada na minha garganta quando olhei no espelho com a boca aberta e iluminada com a lanterna do celular. Mandei mensagem para o César contando da situação e ele disse que arrumaria uma receita de antibiótico para nós dois. Uma hora depois, ele mandou um motoboy já com o remédio comprado. Achei fofo demais, apesar de que hoje tenho certeza de que foi só consciência pesada de ter me passado uns bichos do mal.

Dias depois da festa de saudação do verão, eu viajei para ver minha família. Voltei no dia seguinte da virada do ano e a primeira pessoa que vi, antes até de Fran, foi César. Dias de janeiro pós virada, filme na cama – dele, no caso – e suor atrás do joelho. Matamos a “saudade” e logo em seguida eu me engajei na mudança, na arrumação da casa nova, nas burocracias da papelada do apartamento antigo com o José que eu iria entregar para a imobiliária. Se meu coração palpita como um cavalo que apostou corrida aqui no trabalho, nesses dias da mudança eu vivia como se passasse 24 horas dentro de um “Samba”, aquela roda eletrônica sinistra de parque de diversão do interior, que gira, sacode e se inclina, ao mesmo tempo.

“O tigre e o dragão”, foi o filme que vimos da última vez que encontrei César. O sexo foi bom, estava melhorando, tinha potencial, mas ainda não era lá essas coisas. Não, ele não tinha me feito gozar ainda. Mas eu achava que podia ter futuro. Será que tinha mesmo ou eu estava sendo aquela pessoa que pula em cima da outra enquanto ela revira os olhos de tédio e pavor? Há duas semanas, numa das passada que dei pelo Braseiro, como quem não quer nada, mas tem olhos de quem procura onde a melhor amiga está sentada, eu mandei uma mensagem para o César: “Oi, precisei resolver umas coisas na Gávea e resolvi pegar o chopp dobrado enquanto passa o horário de pico do metrô, tá afim?”. Ele respondeu! Estava ocupado e agradecia o convite: “vamos combinar de fofocar”. Achei a ideia de que ele considerava me encontrar para “fofocar” muito íntima, o que era um bom sinal.

Mas aí um dia após o outro foi se passando e o sossego de um dia de mar transparente no Arpoador que aquela mensagem me deu passou. César não apareceu nem nas duas últimas reuniões do partido. A planta estava toda trabalhada na luz do sol matinal. E eu pensando até se eu tinha tido alguma madrugada flatulenta a dois sem perceber. “Porra, Carolina, não viaja!”, eu me eduquei dizer para mim mesma. Para o sexo que carrega um balangandã entre as pernas é mais fácil fingir que foi abduzido do que abrir a boca para dizer ou alongar os dedos para escrever: “não tô mais confortável em ficar contigo, vamo terminar?”. E eu é que tenho que criar um enredo que convença um bairro a comer açúcar e glúten em pleno século XXI.

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