por Américo Paim
Alheio à conversa na mesa do Biruca’s, em frente à praia do Pituba, Sérgio olhava uma embarcação no horizonte ao longe. Era um domingo de fevereiro, calor padrão inferno. A cabeça ainda remoía os acontecimentos do sábado. Parte dele agradecia e muito – o que já havia feito logo cedo, junto com os amigos Binha – seu maior confidente, um cara fortão, leal, de ótimo humor e Álvaro – magrinho, muito esperto e meio turrão. A outra reclamava a ironia e, a seu ver, a injustiça. Estava em paz, mas algumas dores não sairiam com facilidade. E não pensava nas musculares. Binha interrompeu seus devaneios.
– Aqui, véi, achei a porra.
– Qual foi?
– Vocês é que não acertaram procurar. Tem uma nota nos classificados.
– Deixa eu ver – disse Álvaro.
Sérgio não se interessou. Só pensava em quando teria dado o passo no vazio para se sentir daquele jeito, em um despencar sem fim. Disse aos amigos que ia dar uma volta na praia. Quiseram ir junto, mas os dispensou. Voltaria logo. Atravessou a rua na sinaleira, desceu as escadas e andou na direção de Amaralina. Minutos depois, certo de não ser mais visto por eles, sentou-se na areia. Voltou a contemplar o longínquo navio e lembrou com detalhes de tudo o que aconteceu na véspera, em outra praia.
Tinha decidido ficar em casa e estudar para a prova de Cálculo, matéria que o atormentava. Foi salvo pelo telefonema de Binha às nove e meia da manhã e não foi difícil ceder à ideia de irem à praia. O dia estava à beira da perfeição. Céu sem nuvens, azul intenso, calor, mas a brisa constante. A novidade é que não iriam de ônibus, mas no carro do pai de Binha, um Chevette 81. Antes, pegariam Álvaro no Stiep. Binha queria ir à praia do Flamengo em Stella – tinha uma gata que estaria lá, oportunidade perfeita que ninguém lhe negaria. Ao chegarem, escolheram um ponto legal na praia, que ainda não estava cheia, perto de umas pedras. O cenário era inspirador, com a areia sem sargaço, a maré terminando de esvaziar, os coqueiros e a mata enfeitada. Ficaram de pé por ali, olhando a paisagem, quer dizer as meninas a passar de um lado a outro.
Quando Binha localizou a tal gata, largou os amigos e foi “jogar um agá”, como disse. Álvaro encontrou um primo e engatou conversa. Sérgio ficou sem companhia, foi caminhar e em minutos, levou um susto. Pensou se sua vista lhe pregava uma peça, mas não havia dúvida. Era ela, Cíntia, em um biquíni branco, que era novo para ele. Linda como sempre, a mesma pele negra encantadora, aquelas belas e grandes mãos e os gestos suaves que ele tanto gostava. Lembrou da voz dela. Podia quase ouvi-la como nos primeiros dias: “Você é alto, bonito, gentil. Gostei, menino”. Quanto tempo que não se viam desde o fim do namoro? Mais de seis meses, é certo. Ele ainda sofria. Nunca entendeu as razões dela. Faculdade? Vida nova? Conviviam melhor com o preconceito racial de alguns, estavam na mesma cidade e em seu melhor momento desde que saíram da escola, mas parece que só ele via assim. Ela terminou e pronto: “Gosto de você, mas quero essa liberdade”. A ele restou um tipo de prisão. Hesitou em ir a ela, mas suas dúvidas se dissiparam quando viu um cara chegar com dois cocos e acomodar-se ao lado dela na toalha azul, que Sérgio conhecia tão bem, debaixo do guarda-sol de propaganda. Eles conversavam e sorriam. A visão foi dura para ele. Logo depois, chegou outro casal, talvez de amigos do cara. Pegou uma reta para voltar ao ponto onde estava Álvaro, agora sozinho.
– Véi, essa praia tá uma merda, né? Vamo nessa?
– Oxe, pirou? Já começou a beber e nem me chamou?
– É sério, cadê Binha?
– Veja você mesmo – apontou o amigo, alguns metros acima, junto aos coqueiros.
– É, pelo visto ele não vai querer sair agora…
– Se deu bem demais. Você é que tá com cara de quem comeu e não gostou…
– Deixa quieto.
– Fala aí, rapaz.
– Adapte aquela frase do filme: “de todas as praias do mundo, ela vem para a minha…”.
– Quem?
– Porra, cara, Cíntia tá aqui. A gente nunca vinha nessa praia. Foda isso…
– Putz, que merda. Onde?
– Olha na direção do estacionamento – indicou com a cabeça.
– Já vi. Quem é o babaca com ela?
– Sei lá, mas o otário aqui sou eu… Por que não fomos pegar onda na Pituba, como sempre?
– Qualé, véi? Aqui tá bom demais, cheio de mulher. Já deu tempo de curar a ressaca, cara!
– Se fosse assim. Sinto muita falta dela. Faria qualquer coisa para voltarmos.
– Ela não quer mais, véi. Muda, cacique!
O papo foi cortado por um desconhecido convidando os dois para completarem o baba que ia começar. Álvaro respondeu que sim e arrastou o amigo antes que ele negasse. Durou uns trinta minutos. Naquele intervalo, Sérgio se divertiu. Estava em ótima forma física e era bom de bola. Ao final, todos os dez jogadores foram para a água. Depois de algum tempo, restaram só os dois amigos. Logo Binha chegou, juntando-se a eles dentro do mar.
– Olha o matador aí…
– Rapaz, deu tudo certo!
– A gente viu. Ela já foi embora?
– Pois é. Tá com umas primas aí e vão para um churrasco numa casa aqui perto.
– Porra, até deu fome.
– Mas me deu o telefone dela e vamos sair essa semana.
– Pelo menos alguém se armou aqui…
– Qual foi, por que a cara de enterro?
– Ele viu Cíntia aqui.
– Ah… E daí, véi? Sai dessa merda.
– Fácil falar.
– Tem que arrumar outra. É o único remédio.
– Porra, falando nisso, você devia ter apresentado as primas da gatinha, né?
– Esqueça, tudo com namorado.
– Que merda. E aí, vamos dar um tempo ali?
Os três nadaram até as pedras. Subiram e ficaram ao sol, secando. Estavam de costas para o mar, olhando o movimento na praia, quando Binha ouviu um barulho e pediu que os outros se calassem. Estava com cara séria. Perguntou se eles escutaram. Negaram. Após alguns segundos, ouviu de novo e Álvaro confirmou. Era uma voz. E pedia socorro. Levantaram-se de imediato e se voltaram para o mar. Ali perto, diante do bloco de pedras, a noventa graus do ponto em que os amigos haviam subido, alguém se afogava. Parecia já cansado. Iam para a água, quando ouviram o aviso de um homem velho de pé, um pouco mais perto do mar, à frente deles.
– Não vá não, mô fio. Tu fica ali mermo.
– Oxe, mas tá tão perto.
– Tão perto e tão longe. É assim que ela faz, a corrente. Tu nada, nada e não sai do lugar. Sou
pescador aqui há muito tempo. Já vi foi gente encontrar a rainha.
– Vou arrumar uma corda, uma boia – disse Álvaro e correu na direção da praia.
– Ah, eu vou lá. O cara vai morrer! – disse Binha e pulou.
Em pouco tempo, a fala do velho – pescador da região – se mostrou verdadeira. Binha usava seus braços fortes, mas parecia não sair do lugar. Das pedras gritavam para o afogado parar de se bater e boiar. A praia começou a juntar gente. Até dali da areia o cara parecia perto, mas ninguém se atrevia a entrar. Álvaro teve uma ideia e fizeram uma corrente humana. Várias pessoas foram dando as mãos e entrando no mar, mas ainda estava distante. Já era possível ouvir gritos de aflição. Binha não conseguia sair do lugar e gritou por socorro também. Não conseguia ir nem voltar. Sérgio já desesperado, olhou em volta e viu um menino com uma bola de futebol. Tomou-a e jogou para Binha, que a alcançou. Respiraram aliviados. O afogado parecia estar no limite da exaustão e Sérgio no da angústia. Era bom nadador e decidiu entrar. O velho segurou em seu braço e lhe apontou umas marolinhas do lado esquerdo.
– É sua única chance, moço. Vá por ali, arrodeie e aí ela lhe leva pro coitado. Depois é força no braço e que Deus lhe ajude.
Sérgio entrou na água. Mais ou menos quando Binha foi recolhido na areia, onde chegou apenas batendo as pernas e segurando na bola. Seus músculos estavam duros como pedra. Ele arfava e chorava, mas os olhares todos eram para Sérgio, que nadava por onde o pescador indicou. Enfrentando as ondas com paciência, chegou ao afogado, que, ao vê-lo, o agarrou com toda força que lhe restava, em desespero. Os dois afundavam e voltavam à tona, como se estivessem brigando. Já sem alternativas, Sérgio deu um soco no rapaz, que desmaiou. Aí conseguiu levá-lo com extrema dificuldade até a corrente humana, agora bem maior. Estavam resgatados. Com dores por todo o corpo, Sérgio deitou na areia da praia, esgotado, os amigos ao seu redor. O afogado, com a ajuda dos banhistas, foi socorrido e levado por uma ambulância que já haviam chamado.
Após agradecerem ao velho homem pela preciosa contribuição, e assim que Binha e Sérgio se recuperaram, os três foram embora. Pensaram em passar em um hospital, mas se sentiam bem, fora as fortes dores musculares. Um bom descanso, gelo e pomada dariam conta. No carro, apenas Álvaro falava, contando como foi a ideia de todos darem as mãos, a ajuda das pessoas, a confusão tamanha que se formou. Combinaram que no dia seguinte iriam ao Bonfim cedo para agradecer e depois tomar uma no Biruca’s. Quando chegou em casa, Sérgio pensou em ligar para Cíntia, saber como ela estava, mas não conseguia organizar as ideias e tudo lhe doía, então resolveu deixar para outro momento.
Sem chegar a nenhuma conclusão sobre o que fazer com o que lhe aconteceu no sábado, Sérgio caminhou de volta ao bar. Os amigos na cerveja. Pegou um copo. Eles lhe entregaram o jornal.
“Agradeço muito aos banhistas que me salvaram a vida ontem, na praia do Flamengo. Deus os abençoe sempre!” N.S.
– Nem assinou. Só as iniciais. Será que é ele?
– É ele mesmo – disse Sérgio, com um sorriso irônico.
– Poderia ter se identificado né?
– O que interessa é que sobreviveu. A gente nem sabia se tinha morrido.
Algumas horas depois, já em casa, Sérgio refletiu. Foi horrível. Poderia ter morrido, aliás, ele e Binha. Apesar de ter sido necessário naquele momento, sentiu um prazer estranho por ter dado um soco na cara do suposto novo namorado de Cíntia. Imaginou que seria inaceitável morrer tentando salvar logo aquele sujeito, mas o pior é que além de continuar sem ela, devolveu o cara no colo da moça. Foi à varanda do apartamento e contemplou o mar. Passou mais um pouco de pomada nos ombros, pensando que pelo menos aquelas dores novas passariam mais rápido.
