Uma praia, qualquer praia

por Bruno Vicentini


No banco de trás do Monza, Batata não entendia o que levava seus pais a pensarem que uma praia, qualquer praia, poderia ser muito melhor ou muito pior do que qualquer outra. No fundo não eram todas iguais?

– Já estamos chegando?

– Não, ainda falta.

– Muito?

– Você quer mijar? Se a gente ficar parando não vai chegar nunca.

– Não, tudo bem… pai, se a gente tivesse ido pra Caiobá… já tinha chegado, né?

Se por um lado era verdade que a família, este ano, estaria um pouco mais ao sul do que de costume, não seria também verdade que a areia do balneário de Meia Praia, em Santa Catarina, para onde estavam indo, distante uns quantos quilômetros, o que significava dizer umas quantas horas de viagem, de Caiobá, para onde iam sempre, ano após ano, não seria aquela areia a mesma areia? Não seria o mar o mesmo mar?

A divisa entre os estados do Paraná e de Santa Catarina era apenas uma ficção, uma besteira, Batata sabia. Mas então por que seu pai parecia tão contente? O que separava os dois estados era no máximo uma placa na estrada. Mesmo assim, um mês atrás, Francisco, o pai de Batata, tinha reunido a família e anunciado para eles com solenidade, além de uma ponta de orgulho, que naquele ano a família não iria para Caiobá, e sim para Meia Praia. Irene, a mãe, respondeu de imediato com euforia e palminhas.

Batata olhava pela janela do carro e via a paisagem do interior: plantações de soja e milho e bois. Lembrou-se de um primo que dizia que uma viagem de carro pelo interior do Paraná só era de fato uma viagem se você visse no percurso um boi deitado. Batata tinha perdido a conta, desde que saíram de Maringá já tinha visto vários. Ao seu lado, seu irmão Júlio brincava de empurrar um carrinho pela porta do carro, fazendo um barulho irritante com a boca. Era novo demais para ter opinião sobre a praia, fosse ela qual fosse.

Ele se lembraria para sempre daquela sensação, como se fosse um caroço engasgado na garganta: pela primeira vez em sua vida, intuía que seus pais tinham lhe escondido algo, talvez o motivo daquela viagem e do seu destino incomum, alguma coisa grave e não dita e que estava agora dentro do carro, viajando suspensa no meio deles.

***


Uma hora depois Francisco precisou encostar o carro na lanchonete de um posto de gasolina para que Júlio fosse ao banheiro. Batata disse que não queria sair, queria esperar dentro do carro, mas Francisco obrigou:

– É melhor você garantir e ir também, não quero parar mais tarde, vamos.

Francisco iniciou a operação de levar o filho para fazer xixi. Teve que puxar três vezes, com força, a cadeira de rodas, que estava dobrada e bem encaixada por cima das malas, até que ela se desprendeu e saiu em suas mãos e ele sentiu de forma antecipada a frustração que seria tentar colocá-la de volta no porta-malas. Armou a cadeira ao lado do carro e travou as rodas. Batata esticou os braços e firmou o assento no chão de pedrinhas do estacionamento, estudando bem o gesto que faria em seguida, depois içou o corpo pelos braços e jogou o tronco para cima do assento, como um ginasta que estivesse perdendo uma medalha.

De volta ao carro, Francisco sentiu-se feliz por terem saído de casa tão cedo e por estarem dentro da previsão que ele tinha feito para o itinerário. Se não parassem mais nenhuma vez e se o tráfego ajudasse, chegariam a Meia Praia ainda por volta das três da tarde e poderiam ir direto para a praia, para um mergulho rápido, a fim de reconhecer o cenário onde passariam os próximos cinco dias, dias de paz, se Deus quisesse. Ir à praia com as malas ainda no carro, antes de qualquer outra coisa, era algo que Francisco adorava fazer toda vez que desciam pro litoral, porque tinha um sabor único, quase proibido, de urgência clandestina, de fruta roubada do pé. Ele já tinha alugado uma casa de veraneio pelo telefone, por sugestão da esposa, e não tinha pressa em conhecê-la.

Irene, ao seu lado, agora descascava pêssegos. O cheiro doce das frutas empesteou o ar no interior do carro. Por entre os dedos de sua mulher, que alcançava pedaços de pêssego cortado para as crianças no banco de trás, Francisco viu o caldo das frutas escorrer, lambuzando sua aliança e um fino bracelete de prata que Irene usava no braço esquerdo. A mulher estava ficando velha, mas ainda era bonita. Sentiu-se com sorte. Do lado de fora, a paisagem havia mudado e tudo agora parecia mais claro e nítido e até o asfalto era meio esbranquiçado.

Lembrou-se do que tinha acontecido no ano passado. Logo que chegaram a Caiobá, durante o primeiro mergulho, a maré subiu de repente e chegou até o ponto onde o filho mais velho tinha ficado esperando e carregou as poucas coisas que eles tinham deixado encostadas ali – chinelos, carteira, chave do carro – para dentro do mar. Francisco e Irene, ele com o mais novo nos braços, saíram correndo em círculos, como baratas ameaçadas, até que conseguiram, por fim, recuperar tudo menos a chave do Monza. O carro ficou trancado no sol com tudo que eles tinham pra dentro – ou então foram eles que ficaram trancados para fora. O chaveiro demorou e custou caro e eles ainda precisavam arrumar um lugar para passar a noite.

***


Tão logo se pôde ver a placa que dizia Balneário Camboriú 5 km, Irene lembrou ao marido a respeito da promessa que ele havia feito: quando estivessem descendo para o litoral de Santa Catarina, entrariam em Balneário, um ligeiro desvio, para ir ao shopping center que lá havia, onde a mulher queria visitar uma butique.

– Porra, mas tem que ser agora? Eu quero chegar logo.

– Benhê, você prometeu.

– Eu sei, mas aqui é pertinho, falta só uns quinze minutos, a gente pode voltar amanhã.

– Mas a gente já tá na frente. Custa entrar? Você não vai querer voltar amanhã nem depois.

– Sim, mas-

– Você prometeu!

– Sim… sim.

O marido perdeu a primeira saída para Balneário. Irene na hora amarrou a cara. Francisco percebeu e não quis arriscar e acabou pegando a segunda saída.

No tal shopping center tinha tanto maringaense que Irene ficou até envergonhada. Pô, a gente viaja para fugir da rotina, para esquecer desse povo, e no final encontra todo mundo aqui, vem todo mundo pro mesmo lugar. Viu sua instrutora de Tai chi chuan, três colegas do curso de pintura em porcelana, inúmeras mães que ela reconheceu do colégio dos meninos, cada qual acompanhada de perto pelo marido e pelos filhos. Sentiu-se mal de repente, empurrando a cadeira de rodas do seu mais velho. Um gosto amargo na boca. O pequeno corria pelo chão reluzente da galeria, feliz de estar finalmente fora do carro, alheio a qualquer mau sentimento. Francisco acompanhava-o com o olhar, sem se afastar muito da esposa, com aquela cara que ela tanto conhecia.

Quando já estavam saindo surgiu uma garota morena e baixinha que chegou correndo e chamou seu filho pelo nome. Irene ficou contente de perceber que a menina não tinha usado aquele apelido terrível, que ela tanto odiava. A menina chamava-se Ana. Parecia feliz de verdade de encontrá-lo por ali e sorria sem parar. Quando disse que estava hospedada em Itapema, seu filho também sorriu. Irene sentiu ciúmes e medo do que aqueles dois tinham guardado um para o outro.

Francisco despenteou o cabelo do guri, querendo dizer a ele algo que acabou não dizendo. Em vez disso, apressou a família, o bom humor de súbito recuperado:

– Vamos, temos uma viagem para terminar. Quero pisar na areia, tô que não me aguento. Itapema, aí vamos nós! Olha, o sol ainda tá forte! Vamos direto pra praia! Certo, filhão? Heim?!

Júlio pulava e jogava os braços pro ar. Batata não esperou que ninguém lhe empurrasse e dirigiu por conta própria a cadeira em direção ao carro, alegre como nunca, a viagem agora adquirira um sentido renovado. Irene sentiu-se sozinha e arrependida de todas as suas escolhas, por menores que elas tivessem sido.

***


Quando Júlio sumiu, Irene correu para o lado esquerdo, desesperada atrás do seu caçula, enquanto Francisco por sua vez correu para o outro lado, também desesperado, a praia ainda lotada àquela hora. Na orla, trabalhadores montavam uma espécie de palco, onde talvez no dia seguinte acontecesse um show de música popular, previsto no cronograma oficial da temporada de verão de Itapema. Batata ficou na cadeira, as rodas travadas sobre a areia, para o caso improvável do irmão conseguir voltar sozinho para o guarda-sol, e esperou ouvir ao longe o barulho ritmado de palmas, o sinal universal de criança perdida na praia, qualquer praia, isso no Paraná em Santa Catarina ou em qualquer outro lugar, como se as pessoas ao seu redor formassem a plateia de um espetáculo de horror para o qual nenhum deles havia comprado ingresso.

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