Adjetivo
por Américo Paim
Eu tava louca pra falar com Nicete. Ela acompanhou tudo, ou quase. Não contei os últimos acontecimentos a ninguém. Queria sumir e só aparecer com tudo resolvido, mas as coisas saíram do controle. Enfim, marquei aqui em casa no início da noite. Acho que meu tom de voz a deixou muito preocupada. Ela chegou no horário. Eu usava uma roupa folgada e rabo de cavalo, quando ela entrou com sua combinação clássica de jeans, camiseta e cabelo bem curto.
- Amiga, que bom que você veio. É muito importante.
- Elisa, você está me assustando.
- Calma, não estou morrendo ou algo assim.
- Se visse sua cara…
- Repare…
- Fala!
- Direto? Tô grávida. Três meses.
Ela ficou muda quando levantei o vestido para melhor mostrar a novidade e eu entendia o silêncio. Sua cabeça deu um nó. Conhecia bem a minha convicção antiga de não querer ser mãe. Por outro lado, ela tinha certeza sobre quem era o pai. Sabia que minha vida era voltada para a carreira, o trabalho. A empresa estava em expansão, os projetos de Engenharia em alta, feitos para o meu perfil. Precisava estar pronta quando a oportunidade batesse à porta. Só que me apaixonei, ninguém controla isso. Desde o início deixei claro para ele: não podia ter filhos. Rogério compreendeu e concordou, pois além de tudo, na nossa condição era inviável. Tomei os cuidados, mas nem sempre a gente consegue segurar a onda, como se sabe. Nicete não resistiu e alisou minha barriga, talvez pensando que a conversa tomaria uma direção suave.
- Tô besta, menina. Ele já sabe?
- Sim.
- Quando resolveram isso?
- Eu resolvi sozinha.
- É o quê?… calma, por que esse choro?
- Ele não me quer mais!
- Por causa da gravidez? Que canalha!
- Não, não é isso.
- Beba essa água. Me explique aí!
- As coisas entre nós… Ele vinha se afastando aos poucos. Nos víamos cada vez menos. Sempre tinha
milhões de desculpas. Uns seis meses assim. Como sempre, tudo se resolvia na cama. - Que merda isso.
- Amiga, eu cansei de esperar “o divórcio”. Cobrei muito.
Contei a ela como tudo mudou com Rogério. No começo foi aquele tesão avassalador por ele, o arquiteto lindo e charmoso que veio prestar serviço na nossa empresa. Uma simples reunião de trabalho. Não demorou e éramos amantes. Eu não entrei inocente. Sabia de sua situação. No início foram umas ficadas, mas logo estávamos apaixonados. Após um ano de encontros e trepadas, fizemos um acordo. Eu ficaria nas sombras até que ele resolvesse tudo. Um roteiro previsível e nós o seguimos. Ele me administrava com sexo, promessas e desculpas. O trabalho era meu oásis e eu progredi muito. Com o tempo, senti que era hora de ter uma família e lhe falei o que queria. Me sentia pronta e também no limite – quase três anos sendo “a outra” tornou-se insuportável. Me achava a pior das criaturas. O ameacei várias vezes, nos afastávamos, mas sempre voltava tudo. O problema maior era não conseguir me libertar da dependência afetiva, não conseguir enxergar a vida sem ele. Comecei a tomar ansiolíticos e outros remédios, fui desmoronando.
- Por que não me disse nada antes, Elisa do céu?
- Tava perdida. Foi quando decidi engravidar. Parei de evitar.
- Que loucura, menina.
- Ainda tem mais. Quando contei a ele, entrou em parafuso, falou que o traí!
- Que filho da puta!
- Ele quer um exame de DNA!
- Calma amiga, beba mais água. Como ele pôde dizer isso?
- Porque sabe que não estive só com ele.
- Como assim?
- Ah, eu dei umas saidinhas aqui e ali. Ele mal me via. Eu queria me sentir viva, desejada!
- Sim, mas não tomou os cuidados?
- Nem sempre…
- Porra, que vacilo foi esse?
- O resultado vai sair logo. Vai acabar o suspense. Só que não aguentei e já entornei o balde.
- O que foi?
- Você entendeu que eu estava à beira de um ataque, na boca de fazer uma merda?
- Ué, sim, mas fala, criatura, o que fez?
- Mandei uma carta para a mulher dele, contando tudo.
Relutei muito para abordar sobre a carta. Me sentia em um beco sem saída, sem equilíbrio para quase nada mais. Onde conseguir ajuda? O bagaço já estava feito. Eu sabia que precisava lidar com aquilo tudo, que ainda ia ficar pior. Resolvi falar.
- Tem uma semana. Chegou sem remetente, na portaria do prédio. Envelope de carta comum, todo
branco, desses de papelaria. Quem entregou foi um moleque. Na carta estava o meu castigo,
Marcelo. - Castigo, Rafaela?
- A confirmação do que eu já desconfiava: meu marido tem uma amante.
- Hum…
- Nunca lhe falei esses detalhes antes nas sessões, mas Rogério tem quarenta e dois anos, pouco mais
que eu, está em ótima forma, é bonitão e sempre convivi com olhares e insinuações desse bando de
puta por aí… - Pode usar à vontade, tenho outra caixa de lenços aqui.
Aí lhe contei tudo sobre a evolução do meu casamento. Do início de contos de fadas ao que vivemos nos últimos anos. Ele trabalhando muito, sem tempo para nada – o que agora eu questionava – e eu ocupada com meu emprego de enfermeira no hospital, criar filho, cuidar da casa. Reconheci que ele ajudava em tudo, mas as nossas rotinas de horários e demandas diferentes fizeram o estrago. A vida era cheia e era oca. Demorei a perceber que ele se afastava. Achei que era coisa minha, implicância, cansaço, não sei. Tentei conversar uma vez ou outra, mas sempre me repeliu dizendo que estava tudo bem, que era só um momento de crise e tudo mais. Me acomodei e toquei o barco.
- Por que se tortura sozinha?
- É o que tem na carta. A vadia está grávida dele! E deve ser verdade porque é tão fácil apurar… Nem
conversei com Rogério ainda. Como ele pôde? O pior é que não estou na melhor das posições. Tô é
acuada, com uma raiva… de mim, dele, de tudo. - Respire.
- Nós temos um filho, cacete! Vou ter de enfrentar isso cedo ou tarde.
- Hum…
- Seria tão bom se nada disso existisse, se fosse um pesadelo, uma coisa assim, e eu pudesse matar
uns dois e acordar inocente. Agora, se eu tivesse coragem mesmo, bastava uma frase pra acabar de
fuder a porra toda. - Qual?
- Você não é o pai do seu filho!
Foi isso que disse a ele. É um choque, mesmo falando para alguém que não se tem intimidade. Esse paciente veio a mim por indicação de um colega, primeira vez, não estava bem. O curioso é que, em vez de me falar do que estava sentindo, já foi logo confessando, como preferiu dizer, com detalhes: tinha uma amante, já não queria mais e não conseguia se desvencilhar. Ele estava nervoso demais. Tentei impedir o rumo da prosa e focar no problema médico, mas ele só falava da gravidez da moça. Então se queixou que vivia ansioso, sem dormir direito, apetite e intestino descompensados e outros sintomas menores. Não achei nada relevante no exame clínico, exceto seu visível estresse. Pedi exames para tentar chegar a algum diagnóstico. Quando me trouxe os resultados, lhe expliquei tudo, receitei o que ele precisava e dei a notícia que achei que traria alívio, mas não foi bem assim. O homem desabou e fez da consulta outra sessão de terapia. Nunca vivi isso em minha carreira.
- Sr. Rogério, vou repetir: de acordo com os exames, o senhor nunca poderia ter filhos.
- Dr. Adelino, deve haver algum engano.
- O senhor pode buscar outra opinião, mas lhe garanto o que digo.
- Eu sou casado e tenho um filho de seis anos, véi!
- Bem, o que posso dizer é que o senhor tem uma criança em casa, isso é certo.
- Oxe, que porra é essa?
- Se acalme.
- Mas rapaz, que é isso, véi? Duas mulheres e… é isso mesmo, Doutor? Puta que pariu… Não pode
repetir o exame?
Ele insistiu muito e assim foi feito e, como eu esperava, veio a confirmação, que lhe passei na nossa terceira consulta. Antes de se despedir, ele parecia resignado. Falou que enfim entendeu o que a peãozada sempre dizia nas obras. Ninguém ligava se chamassem de veado, filho da puta ou coisas assim, porque cada um sabia se era ou não. Menos corno. Como saber? Ele agora se considerava um especial, um duplo corno. Fez até piada dizendo que seu nome merecia virar adjetivo: fulano é corno? Não, é “corno rogério”, duas vezes corno! Acabei me envolvendo e lhe perguntei o que iria fazer para resolver sua vida.
- Não sei ainda. A verdade é que já percebi tudo.
- Como assim?
- Eu saí daqui meio tonto no outro dia, sem raciocinar. Mas foi só chegar em casa…
- O que houve?
- Tava sozinho. Sentei na poltrona da sala com meu uísque. Depois de uns goles, não conseguia
pensar em nada diferente das minhas galhadas. Aí andei até o aparador da sala de jantar, onde
olhei uma foto de família: meus pais, eu, Rafaela, Rogerinho, que é a minha cara, e Roberto, meu
irmão gêmeo…
